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Alfarrábios do Melo

Olá, saudações rubro-negras a todos. Para quem tem curiosidade sobre os primórdios da história flamenga, aí vai a história do primeiro título invicto. Então, boa leitura.

O Bicampeonato Carioca de 1915

1915. A popularidade do futebol se alastra com rapidez impressionante. O remo, que antes monopolizava as atenções do carioca, precisa se adaptar aos novos tempos. As regatas na Enseada de Botafogo, outrora apinhadas de gente, já não atraem tantas pessoas em dias de grandes clássicos no futebol. As moçoilas agora suspiram pelos heróis que pugnam galhardamente pelo domínio da esfera encouraçada. Mas além da alta sociedade, o futebol também atrai gente de todas as classes, que acompanha, se interessa pelos duelos entre os principais times da cidade. E torce.

O Flamengo, a essa altura, possui certamente a melhor equipe do Rio de Janeiro. Ainda tendo como base o grupo rebelde que se divorciou do Fluminense e lutou para criar o Departamento de Esportes Terrestres no natal de 1911, o rubro-negro é o atual campeão e favorito para repetir a conquista. Mas, a despeito de todo o prestígio de seus jogadores, o clube não ostenta o perfil aristocrático de Fluminense e Botafogo, ou segregacionista do América. Na verdade, o futebol do Flamengo ainda não é visto com bons olhos nem dentro do próprio clube, uma vez que os jogadores ainda precisam usar uma camisa cobra-coral para se diferenciarem dos remadores. A falta de estrutura é tamanha que os treinamentos são realizados em um campo de peladas, na Rua do Russell, na Glória.

E cada treinamento flamengo é um evento. No dia e na hora marcados, uma multidão já se apinha nas bordas do acanhado campinho para ver os campeões da cidade, impecavelmente vestidos, fazerem seus exercícios no meio da rua, de improviso mesmo. Cada bola atirada longe é perseguida por um bando de moleques que vai crescendo junto dos seus ídolos. Solícitos e receptivos, os craques flamengos vão angariando cada vez mais a simpatia dos aficcionados (muitos curiosos inclusive ensaiam acompanhar os exercícios junto aos atletas). E sua popularidade vai crescendo junto com o “novo” esporte.

Vai começar o campeonato. Os favoritos são os de sempre. Flamengo, Fluminense, América e Botafogo, na ordem. O rubro-negro tem como destaques o trio defensivo formado pelo goleiro Baena e os zagueiros Píndaro e Nery (os dois zagueiros, inclusive, figuraram a primeira seleção brasileira da história, em 1914), o médio Galo e os atacantes Riemer, Borgerth e Sidney Pullen. A grande parte estuda Medicina, exceto (entre outros) Galo, que, digamos, ainda não encontrara sua vocação. Irreverente ao extremo, Galo se diverte desmanchando penteados e puxando calções de adversários, o que provoca risos da platéia e ajuda a consolidar a imagem da irreverência flamenga, tão ao gosto do carioca.

Curiosa é a história de Alberto Borgerth. Já a ponto de se formar em Medicina, Borgerth é pressionado pela família a largar o futebol e se dedicar à profissão, seguindo o hábito natural da época. Mas, seco de paixão pela bola, vai adiando a despedida. Passa a treinar e a jogar escondido. Pede à imprensa (que cada vez dedica mais espaço aos jogos) que registre sua escalação com o nome de Borges, ou Borja, com receio de que seu severo pai descubra suas incursões futebolísticas. E assim, sob o pseudônimo de Borges e Borja, o bravo Alberto Borgerth segue professando sua paixão flamenga.

No início do campeonato, um susto. Desfalcado de alguns titulares, o rubro-negro empata em 2-2 contra o frágil Rio Cricket, de Niterói. Mas logo se descobre que o adversário escalara um atleta sem prévia inscrição, de forma que o Flamengo ganha os pontos do jogo. A seguir, o Flamengo, mordido, mostra ao Fluminense (cujos adeptos exageraram nas gozações após o mau início rubro-negro) quem manda na cidade, e enfia terapêuticos 5-0 no tricolor, mantendo longa freguesia. Na verdade, desde o primeiro Fla-Flu, o Flamengo nunca mais perdera pro rival das Laranjeiras. E nisso já são três anos de surras sistemáticas.

A seguir, mais uma demonstração de força do futebol. Cerca de 15 mil (público recorde à época) se espremem em General Severiano para acompanhar o Flamengo vencer o Botafogo por 2-1. O time segue vencendo, goleando, passa por cima de América (4-2), São Cristóvão (5-0), Bangu (4-0), sempre comemorando seus triunfos ao som do cavaquinho e do reco-reco, num flagrante contraponto aos bailes formais que sucedem as vitórias do maior rival, o Fluminense.

Súbito, pipoca uma confusão. O Fluminense vai vencendo o América por 2-1, quando o time rubro empata. Mas o árbitro W. Tulk, jogador do Rio Cricket (à época era comum as partidas serem apitadas por jogadores de outros times) anula escandalosamente o gol, o que causa revolta entre os torcedores americanos, que invadem o gramado e exigem a validação do tento. Coagido, Tulk volta atrás e dá o gol, o que gera outra confusão. No fim das contas, o jogo é anulado.

Enquanto isso, o Flamengo entra no segundo turno líder absoluto e o “time a ser batido”. E começa a ter mais dificuldades. Faz 5-2 no Rio Cricket, mas depois empata quatro jogos seguidos (1-1 Fluminense, em mais uma arbitragem confusa, 0-0 Botafogo, 0-0 São Cristóvão e 2-2 América) e permite perigosa aproximação do Fluminense, que chega a empatar em pontos. Falta um jogo para cada time, e ambos estão com 18 pontos.

Ao Fluminense, resta apenas o jogo anulado com o já eliminado América. Os tricolores esbanjam certeza na vitória e no título, ignorando inclusive a hipótese de jogo-extra. Não acreditam mais no Flamengo, tido como decadente. A convicção é tamanha que o clube reserva um lauto banquete de comemoração no elegante restaurante Roma, no centro da cidade, a se realizar após a partida. E realmente o jogo foi vencido sem dificuldades, inteiramente dominado pela equipe vencedora, robustos e indiscutíveis 5-3 para… o América, que faz questão de confirmar a reserva no restaurante e realizar o jantar, sob “vivas” e “hurras” dos flamengos, que fazem do Fluminense o motivo de gozação da cidade.

Ao Flamengo, resta o Bangu. E o último jogo é motivo de festa, pois finalmente o rubro-negro consegue um campo para mandar suas partidas. Não terá mais que ocupar o campo de General Severiano, do rival Botafogo. O clube arrenda um terreno pertencente à Família Guinle, na Rua Paissandu, curiosamente perto das Laranjeiras.

E uma multidão invade as dependências do campo para festejar o novo lar flamengo. O time assimila o entusiasmo do público, enche-se de ânimo e de uma forma bem rubro-negra goleia o Bangu por 5-1, confirmando o bicampeonato carioca, o primeiro título invicto, dando início a um verdadeiro carnaval em pleno finalzinho de outubro, com seus corsos seguidos por um mar de gente.

Após o título invicto, o Flamengo já se prepara para uma nova jornada. O time aceita convite para excursionar ao Pará, para uma série de amistosos.

E a aventura paraense será mais um embrião para o surgimento de uma nação.

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jornalista

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