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Alfarrábios do Melo

Olá, saudações rubro-negras a todos. Após uma semana de afastamento involuntário, retorno transpirando expectativa por mais uma batalha, nessa jornada épica que há de levar o Flamengo ao topo da América, seguindo sua vocação de protagonista no âmbito continental, vocação essa que pode ser atestada por sua vasta coleção de conquistas ao longo de sua centenária história. Algumas delas são célebres e normalmente lembradas, outras têm sido eclipsadas pela passagem do tempo. Já contei um desses títulos neste post aqui. Hoje falo de outro troféu expressivo e maiúsculo, ganho contra vários dos melhores times do continente. Então, boa leitura.

Título Internacional na Aurora do Canhotinha

1961. Após pálida partipação no Campeonato Carioca de 1960, onde terminou num opaco 4º lugar (campeonato estranho, vencido pelo apenas certinho América de Djalma Dias), o Flamengo inicia a temporada sem novidades. Seu principal trunfo é o retorno do ponta-direita Joel, após passagem pelo Valencia (ESP). No entanto, sem dinheiro, o clube não tem como realizar contratações de peso. Continua na sua política de buscar jogadores na base, motivo pelo qual trouxe de volta o treinador Fleitas Solich, especialista em descobrir novos talentos.

À disposição de Don Fleitas, a dupla de ataque formada por Henrique e Dida segue devastadora. Moacir é o responsável pelo municiamento a um ataque que se tornará mais forte com a chegada de Joel. Compondo o grupo, o folclórico ponta-esquerda Babá, o atacante Luís Carlos, os vigorosos defensores Jadir e Joubert e o goleiro Ari formam um time aguerrido e temido, especialmente pela força de sua torcida.

Mas há problemas. As saídas de Dequinha, Pavão e Zagalo fazem o time perder qualidade, e sem recursos para contratações vários nomes são testados, como Othon, Nelinho e Bolero. Mas, junto com várias tentativas mal-sucedidas, a Gávea consegue revelar duas verdadeiras pepitas, dois jovens que na turbulenta temporada de 1960 se firmam como titulares, e em 1961 estarão prontos para liderar o elenco flamengo.

O primeiro deles é o médio Carlinhos. Dotado de uma classe quase inverossímil, Carlinhos possui uma intimidade lasciva com a bola, é dela seu mestre, amo e senhor. Sem erguer a voz ou o olhar, Carlinhos trata a pelota como sua bandida, sua amante, sua escrava. Seus passes e lançamentos são ferinos, cortantes, desconcertam. Mas a maciez de veludo com que seus pés regem a orquestra flamenga lhe valem o justo e apropriado apelido de Violino. Revelado no final dos anos 50, jogará no Flamengo toda uma década e será um dos maiores nomes de sua história.

O outro é um meia-atacante irrequieto, de temperamento contestador, falastrão, habilidoso ao extremo, dono de um passe que desmonta as mais fechadas defesas e capaz de desferir violentíssimos petardos com sua letal perna esquerda. Atuando próximo ao gol adversário, marcará vários tentos, exibindo inusitada índole artilheira, que não se manteria com o passar dos anos. Seu nome, Gérson, mais conhecido como Papagaio ou o Canhotinha de Ouro.

A entrada de Carlinhos e Gérson aumenta consideravelmente o poder de fogo flamengo. Carlinhos se torna o perfeito sucessor de Dequinha, fazendo do meio-campo um ponto de equilíbrio da equipe. E Gérson, ao juntar-se a Henrique, Dida e Moacir, faz do já forte ataque rubro-negro um dos melhores do país. E ainda entrará Joel. O primeiro teste será o Torneio Octogonal de Verão, competição fortíssima que já começará em janeiro.

Como é de praxe na época, o calendário propicia a realização de vários torneios amistosos, de nível diverso. Há competições exóticas (Taça Zoroastro Maranhão, Torneio Roberto Ugolini etc), mas também existem torneios que se revestem de um caráter quase oficial, com prêmios e troféus bastante cobiçados. É o caso do Torneio Octogonal de Verão, que terá a participação de Flamengo, Vasco, Corinthians, São Paulo, Boca Juniors, River Plate, Nacional-URU e Cerro-URU (que substitui o Peñarol). A fórmula de disputa é simples, pontos corridos em turno único.

O Flamengo estréia no Pacaembu, contra o Corinthians de Oreco, Ari Clemente e Zague. Jogo duro (a equipe paulista, apesar de limitada, é muito aguerrida), mas o rubro-negro se impõe e faz 2-1, gols de Moacir e Babá. A seguir, o São Paulo de De Sordi e Canhoteiro, treinado por Flávio Costa. O Maracanã assiste a uma partida bastante técnica, aberta e com muitos gols, em que o Flamengo novamente vence, desta vez por 3-2, em grande atuação do pequeno Babá, autor de dois gols (Dida completa o placar). Por fim, a última partida no Brasil é o clássico com o Vasco de Bellini, Coronel, Pinga e Sabará, em que o rubro-negro não vai bem e é derrotado (0-1) com um gol do desconhecido Azumir. Agora, o time embarcará para os jogos fora do país. Até aqui, o torneio está muito equilibrado, com quatro times na liderança (Flamengo, River Plate, Corinthians e Boca Juniors), todos com 4 pontos.

A primeira batalha é contra o River Plate, no Monumental de Nuñez. O adversário, que começa a viver um inferno astral que atravessará toda a década, não consegue controlar a partida e tenta parar o rubro-negro aos pontapés. Mas o Flamengo resiste e chega ao suado 1-0, gol de Henrique. Mas o time sente o desgaste da partida contra o River e se torna presa fácil do forte Boca Juniors em La Bombonera. Irreconhecível, desfalcado e estafado, é impiedosamente goleado (0-4). Cai para a terceira posição. E seus próximos adversários serão o Nacional-URU e o Cerro. Ambos em Montevideo. Isso significa que pensar em título, a essa altura, soa quase como devaneio. Será mesmo?

O grande favorito ao título da competição é o Boca Juniors, que está invicto e voando, com seu belo time formado por nomes como Rattín e Paulo Valentim, e treinado por Vicente Feola. Com 8 pontos e a dois jogos do final, poucos imaginam que o Boca deixará escapar o título. Mas, num jogo sensacional e cheio de viradas, o limitado Corinthians derrota os argentinos no Pacaembu (4-3) e embola tudo. O Flamengo volta a enfrentar uma guerra, dessa vez no mitológico Estádio Centenário, enfrenta fortíssima pressão, mas vence o Nacional de Montevideo por 1-0 (gol de Babá) e volta à briga pelo título.

A última rodada promete ser eletrizante. A liderança está com o surpreendente Cerro do Uruguai, que enfileirou vitórias sobre Corinthians, Vasco e São Paulo. Com 9 pontos, os uruguaios serão campeões se vencerem, em casa, o Flamengo, segundo com 8 pontos. Correndo por fora, também com 8 pontos, vem o Boca. Mas os argentinos são totalmente surpreendidos pelo azarão São Paulo, e em plena Bombonera, com o time titular, sofrem uma goleada histórica (1-5) e são eliminados do torneio. São Judas Tadeu acaba de abrir os caminhos. Agora, é com o Flamengo.

Mas não é nada fácil. O Cerro possui uma torcida pequena, mas barulhenta e muito agressiva, o que se reflete na violenta atitude dos jogadores em campo. Mais qualificado, o Flamengo novamente mostra não se intimidar com a saraivada de socos e pontapés dos uruguaios. No legendário Estádio Centenário, exala a também mitológica garra flamenga, sangra o suor que emana de seus guerreiros forjados sob a égide dos vitoriosos. E desfila Gérson, que com seu futebol atrevido e falante distribui esporros em companheiros, árbitro, adversários e até torcedores. Está mal-humorado e jogando bola, muita bola. Mete dois golaços e assombra os privilegiados que testemunham seu vivo talento. Leva porrada, dá de volta, comanda e manda na partida. Final, 2-0. O Flamengo é o Campeão do Torneio Octogonal Internacional.

A delegação é recebida com entusiasmo no Rio. O belo troféu será mais um a adornar a Gávea, e o Flamengo é notícia em vários jornais sul-americanos. Mas não há tempo para descanso. Mais uma competição está para começar, o Torneio Rio-São Paulo.

E o Flamengo, sedento de glórias, irá atrás de mais uma taça.

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