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Alfarrábios do Melo

Olá, saudações flamengas a todos. Encerrada a torturante campanha rubro-negra pré-Copa, resta torcer por um time à altura dos anseios pelo hepta. Enquanto isso, deixo aqui mais um capítulo da série “O Flamengo nas Copas”. Boa leitura.

O Flamengo nas Copas – Parte 03

1950 – “Estes São os Campeões do Mundo”

Raciocine comigo, caro flamengo: qual a perspectiva de uma Seleção cujo elenco contém OITO jogadores do Vasco, no time jogam SEIS vascaínos, o treinador é do Vasco e a concentração antes da decisão é feita em São Januário?

1950. Após seis meses de preparação, a Seleção parece pronta para a estréia contra os mexicanos, no Maracanã. O clima é de euforia absoluta, toda a população brasileira está mobilizada para a campanha do “scratch”. Simplesmente o maior estádio do mundo é construído para a ocasião, o mitológico Maracanã, conhecido ainda como “Estádio Municipal”. O prefeito Mendes de Morais faz eloqüente discurso aos jogadores: “Fiz minha parte, dei-lhes o estádio. Agora cumpram sua obrigação e conquistem a Copa.”

O treinador vascaíno Flávio Costa não inventa e monta uma equipe cuja base é o Vasco, o “Expresso da Vitória”, o melhor time de sua história. Ao todo, SETE jogadores (Barbosa, Augusto, Ely, Danilo, Maneca, Ademir e Chico) do time titular pertencem à Colina (mais tarde, Ely perderá a posição para Bauer, do São Paulo).

O Flamengo não vive bom momento. Da equipe do já distante tricampeonato somente ainda estão o goleiro Garcia e os médios Biguá e Bria, além do ponta-de-lança Zizinho, o maior jogador brasileiro em atividade. Porém, essa base, tida como envelhecida, vem de campanhas pífias. O início da temporada também não anima muito, com a medíocre participação no Rio-São Paulo. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. O Presidente Dario de Mello Pinto (que já havia vendido o craque Jair) negocia Zizinho com o Bangu, uma transferência rumorosa e mal-explicada que revolta a torcida flamenga, mergulhando o clube em mais uma grave crise. Para a Copa dois jogadores são convocados, o vigoroso (ou tosco) zagueiro Juvenal e o elogiado médio Bigode, dotado de boa técnica e forte marcação, apesar de lento. Ambos fazem o lado esquerdo do sistema defensivo do Flamengo, e Flávio Costa, confiando em seu entrosamento, escala os dois no time titular.

Na primeira fase, o Brasil consegue a classificação, não sem alguns percalços. Ainda sem Zizinho, machucado, o time bate o frágil México por 4-0 e vai ao Pacaembu enfrentar a Suíça. Buscando agradar ao público paulista, Flávio Costa mexe em todo o time, faz seis alterações (encaixando vários corintianos e são-paulinos), o resultado é desastroso, um 2-2 a duras penas. Com isso, precisa derrotar a Iugoslávia no Maracanã para seguir adiante. Mas, com Zizinho de volta (mesmo no sacrifício, o joelho inchado), a Seleção se impõe e vence o forte adversário por 2-0.

A Fase Final é em formato de quadrangular, uma inovação que jamais seria repetida em Copas. Primeiro, o Brasil enfrenta a temida Suécia, campeã olímpica de 1948, que eliminara a Itália. Animado com o Maracanã lotado, o Brasil não toma conhecimento dos suecos e enfia-lhes 7-1. Mas o melhor ainda viria. A vítima seguinte é a forte Espanha, La Furia, que passara por cima dos arrogantes ingleses. Mas, naquela que seria a maior atuação individual da carreira de Zizinho (“vê-lo em campo equivale a contemplar Da Vinci pintando um quadro”, disse um repórter italiano), o Brasil leva 155 mil ao delírio e, ao coro de “Touradas em Madrid”, tritura os espanhóis com arrasadores 6-1. Não parece, mas esse seria o início do fim.

Resta a final, contra o aguerrido Uruguai. Poucos imaginam algo diferente de outra goleada, até porque os uruguaios só resistem na luta após empatar a duras penas com os espanhóis (2-2) e fazerem 3-2 na Suécia (perdiam por 2-1 a dez minutos do fim). Nem o equilibrado retrospecto recente contra o Brasil em jogos da Copa Rio Branco (três partidas em maio, Brasil 3-2, Brasil 1-0, Uruguai 4-3) assusta. Imprensa, torcida, todos só imaginam e pensam em uma vitória acachapante. Um oba-oba insuportável, com direito a manchete de jornal cantando vitória, promessa de prêmios, romaria de políticos à concentração, pensa-se em tudo, menos no principal. O jogo.

E aconteceu o Maracanazzo. O Brasil começa melhor, confiante, massacra a meta de Máspoli, mas o goleiro uruguaio está em grande dia. Na segunda etapa, o ponta-direita Friaça (que substitui Maneca) recebe passe de Zizinho e fez 1-0. Mas os uruguaios mantém-se recuados, com marcação forte. O Brasil segue atacando e cai na armadilha. O armador Julio Perez (melhor jogador uruguaio) lança, Ghiggia bate Bigode na corrida e rola pra chegada de Schiaffino, que emenda e empata, silenciando o estádio e desnorteando os brasileiros. O Uruguai sente o bom momento, arrisca abrir-se um pouco, e aos 34’ Ghiggia novamente ganha de Bigode na corrida e atinge a linha de fundo. Juvenal hesita, não sai na cobertura, espera o cruzamento e permanece na área. Ghiggia resolve bater direto, mesmo sem ângulo. O tiro sai mascado, no contrapé de Barbosa, que saíra pra cortar o cruzamento e sofre um frango que marcará pra sempre sua carreira e sua vida. O time se desespera, perde o controle dos nervos e não reage mais. Bauer e Zizinho ainda lutam, os demais somem. Final, Uruguai 2-1, a maior tragédia da história do futebol brasileiro. O Vasco, ops, o Brasil é vice-campeão mundial.

Após a catástrofe, quase todos os jogadores seriam estigmatizados, especialmente Barbosa e Bigode, que ainda sofreria com a lenda de que teria levado um tapa do xerife Obdulio Varella (inúmeros relatos negam veementemente esse fato). De qualquer forma, Juvenal e Bigode permaneceriam no Flamengo até 1951.

1954 – O Rolo Compressor, mal aproveitado

1954. Já sob a gestão de Gilberto Cardoso, o Flamengo volta a comandar o futebol carioca. Com um timaço onde vicejam nomes como Dequinha, Rubens, Pavão, Índio, Benitez & Cia, todos sob o firme comando do paraguaio Fleitas Solich, o rubro-negro conquista com extrema facilidade o campeonato de 1953 e, chamado de “Rolo Compressor”, já é o grande favorito para o título de 1954. Mas antes terá que ceder três jogadores à Seleção para a Copa: o médio Dequinha, o ponta-de-lança Rubens e o centroavante Índio.

Renovação era a palavra de ordem na Seleção. Nada poderia repetir a campanha de 1950, a começar pela camisa, agora amarela. A influência paulista aumentara consideravelmente, após o fracasso da vascaína equipe de Flávio Costa. Mesmo nomes como Zizinho, que arrebentava, eram esquecidos por remeterem à campanha perdedora. Assim, o treinador Zezé Moreira utilizou somente três jogadores da Copa anterior, o goleiro Castilho, o lateral Nilton Santos (que eram reservas) e o médio Bauer. Mas o grande nome era o ponta-direita Julinho, da Portuguesa.

O Brasil inicia a Copa novamente enfrentando o México, e vence sem dificuldades, 5-0. A seguir, um acirrado duelo contra a forte Iugoslávia, que termina em 1-1. Mas, nas Quartas-de-Final, o time não resiste aos nervos e ao melhor futebol da fortíssima Hungria, campeã olímpica e invicta desde 1950, e é eliminada após cair por 2-4. Mais tarde, relatos dariam conta de que o time entrou em campo nervoso e respeitando excessivamente os húngaros. Ironicamente, se o excesso de confiança derrotara a equipe em 50, na Copa seguinte o derrotismo seria o principal inimigo.

Quanto aos flamengos, Índio, atacante voluntarioso e goleador, foi preterido pelo corintiano Baltazar, que vivia grande fase. Mas ainda atuou contra os húngaros, sem empolgar. Dequinha, médio clássico precursor de nomes como Carlinhos e Andrade, não teve oportunidades diante de Bauer, um dos mais experientes e líder da equipe. Já Rubens poderia ter sido o titular, não fosse um caso de indisciplina ocorrido a poucas semanas do Mundial (o apoiador chegou bêbado na concentração), o que minou definitivamente suas chances com o rigoroso Zezé Moreira. Um desperdício, já que Rubens vinha gastando a bola, craque absoluto do timaço Flamengo.

Seja como for, os três retornariam ao Flamengo após o Mundial, sendo fundamentais na conquista do bicampeonato. Aliás, um campeonato ganho com goleadas, show de escola de samba e marchinha em homenagem ao time.

A cara do Flamengo. Do Brasil.

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