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Acredito sinceramente que um blog, assim como qualquer outra rede social, é feita por seus usuários e colaboradores. O André Monnerat costuma escrever por aqui às sextas, mas como alguns leitores do Flamengonet pediram, republico o texto do SobreFlamengo de hoje. Leiam, comentem e, principalmente, colem o link original em toda comunidade do Orkut sobre o Flamengo que você conhece. Tem gente de outras redes sociais que precisa ler isso. Abraços, Tiago

O Flamengo tem muito a ganhar se a torcida comprar sua briga

Zico andou falando com mais clareza nos últimos dias sobre suas prioridades à frente do futebol do Flamengo. O recado foi dado: os resultados dentro de campo sempre têm sua importância, mas o foco é na reconstrução (ou seria construção mesmo?) do departamento de futebol do clube. Um trabalho bem mais complicado, bem mais importante e de resultados menos imediatos.

Resumindo bem resumido:
– Os objetivos principais são organizar as contas, definir a organização interna – inclusive nas categorias de base – e investir na estrutura física que dará condições aos profissionais do clube de trabalhar sempre da melhor maneira possível.
– O dinheiro não está sobrando. É preciso fazer escolhas. Contratações ainda para esta temporada podem e até devem chegar, mas nunca fora do orçamento.
Já deu pra perceber que a nova linha de pensamento desagrada muita gente. Há a eterna briga entre grupos políticos, há outros interessados se incomodando por ter sua vida mais complicada e mesmo na torcida, há muitos já achando o fim da picada as contratações modestas, querendo reforços bombásticos já.
E só o que eu acho é que a situação atual precisa ser encarada pensando-se num horizonte que vai um pouco além dos próximos quatro ou cinco meses.
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O Flamengo tem hoje no mercado a fama de um clube mau pagador. Por isso, muitos simplesmente se recusam a trabalhar na Gávea. Nos acostumamos a ver qualquer jogador ou técnico chegar ao Flamengo ganhando salários muito mais altos do que receberiam em outros clubes – porque, para convencer qualquer um a arriscar-se a conviver com salários atrasados, é preciso que as cifras sejam muito vantajosas. Pra quem acha que há muito espaço na folha por comparar o elenco atual com o do ano passado, basta dizer que o clube terminou 2009 devendo R$4 milhões em prêmios, R$900 mil em luvas, R$2 milhões em salários, R$4 milhões em direito de imagem, R$1,5 milhão de 13o salário, R$490 mil de férias. Jogadores falam entre si e este tipo de informação se espalha.

A fama de mau pagador é também com clubes e empresários, que sabem das dificuldades para receber o que o Flamengo promete em suas transações. Há casos que foram parar na Fifa de dívidas de anos por contratações como Íbson ou Souza. Na disputa por um negócio, é natural que o dono de um jogador dê preferência pra quem não tem este tipo de histórico; também é normal que tenham mais receio em aceitar parcelamentos, correndo o risco de receber a primeira parcela e ter que ficar cobrando as outras todas por anos.

O Flamengo tem a fama de ter uma péssima estrutura para se trabalhar. Isso também afugenta bons profissionais – técnicos, jogadores – e faz com que seja necessário pagar mais caro pra convencer alguém a ir para o clube.

O Flamengo tem a fama de ser desorganizado, um lugar onde a indisciplina e a bagunça imperam. Pense em quantas vezes você já não pensou, falou, leu ou ouviu a seguinte frase: “Fulano? Esse é muito bom, mas não duraria três meses no Flamengo”. Pois é: quando um dirigente do Flamengo tenta contratar alguém de perfil mais, digamos, sério, é provável que isso também passe pela cabeça do sujeito.

Quando se fala em possíveis patrocinadores que arcariam com salários de grandes jogadores no Flamengo, esta fama também atrapalha. Ninguém quer pagar para ter o nome de sua empresa associado a quem aparece com frequência na imprensa com histórias de atrasos a compromissos, noitadas fora de hora, brigas com torcedores ou companheiros de trabalho. A fama do Flamengo é que estas coisas acontecem por lá com frequência e os diretores encaram como algo normal.
Por toda esta fama, e não só pela pura e simples falta de dinheiro – que é um fato; basta ver a dificuldade para pagar, de maneira parcelada, os 700 mil para ficar com David -, é mais difícil para o Flamengo fazer contratações de peso. Torcedores sonharam, por exemplo, com a contratação de Rafael Sóbis, Montillo e Ricardo Oliveira; pois não é difícil imaginar que, se estes jogadores tivessem nas mãos propostas idênticas do Flamengo e de Inter, Cruzeiro ou São Paulo, não escolhessem a Gávea como destino.
O rubro-negro que está interessado simplesmente em resultados em campo (o que é normal, é pra isso que se torce para um time de futebol) e quer o time sempre forte deve entender como esta imagem dificulta, e muito, que o Flamengo faça as contratações indiscutíveis de que gostaria; que não se muda esta imagem de uma hora pra outra; e que isso definitivamente não vai acontecer se, mais uma vez, a diretoria for “ousada” e decidir gastar além do que tem, fazer novas dívidas e reduzir ainda mais a margem de manobra para os próximos anos.
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Reparem que escrevi apenas sobre o que a fama do Flamengo de ser mau pagador, desorganizado e deficiente em estrutura traz de ruim. Nem toquei nos efeitos diretos do Flamengo efetivamente ser mau pagador, desorganizado e deficiente em estrutura no rendimento dos jogadores em campo. Todo mundo sabe disso, todo mundo sempre reclamou disso, todo mundo sempre quis que isso mudasse. E alguém achou que seria simples?
Pois a briga pra mudar não é simples, nem fácil. Pra encarar um trabalho deste tamanho, que pede sacrifícios, exige atitudes polêmicas e vai contra um monte de interesses, tinha que ser alguém com a moral que Zico tem. É a isso que ele está se dispondo, e é por isso – e não por um sentimento sebastianista qualquer ou por uma idolatria cega a um ex-jogador de futebol – que comemorei tanto sua chegada.
É claro que Zico vai errar, e é claro que se pode criticar sua administração. Eu não teria seguido com Rogério como técnico e acho apostas como a feita no zagueiro Jean, por exemplo, muito difíceis mesmo de dar certo. Discutir este tipo de coisa, reclamar de determinadas decisões, é normal e todo mundo pode fazer. O perigo é pegar a parte pelo todo, decretar que “está tudo errado” e não perceber a figura completa.
Coloquemos as coisas em perspectiva: o grande fato, hoje, é que estão tentando mudar a lógica das coisas. Podem errar agora numa aposta em Val Baiano ou Marquinhos, por exemplo – como todo mundo hoje acha que se errou com Vandinho, Sambueza, Fierro, Gil e Dênis Marques. A grande diferença é o pensamento que há por trás do que está sendo feito agora. Não dá pra botar tudo no mesmo saco. Quer dizer então que todo o problema do Flamengo nos últimos anos é simplesmente ser dirigido por gente que “escolhe mal” as contratações? Pode ser que eu quebre a cara, mas ao menos tenho hoje motivos para crer que quem está na direção pensa realmente no que é melhor para o Flamengo – e melhor não só no curto prazo.
É preciso cuidado com um discurso simplificador, que com menos de três meses de Zico na Gávea já crava que “nada mudou” simplesmente porque as contratações imediatas não renderam lindas manchetes. Ou que diz que o Flamengo está trocando um CT por um time na zona de rebaixamento, e que “ninguém vai se contentar com estrutura se o time estiver na série B”. Atenção: o Flamengo nem está gastando dezenas de milhões de uma vez em um CT, nem está na zona de rebaixamento. E um trabalho que é declaradamente de longo prazo não pode ter julgamentos definitivos em tão pouco tempo.
Cada um tem direito a ter sua própria opinião, e muitos podem sinceramente não acreditar que as coisas possam estar mudando. Mas sabe-se que nem todas as opiniões que circulam por aí são honestas. Por interesses não divulgáveis, muitos vão bater no trabalho de Zico agora, e forte – muitas vezes sem nem citar seu nome. Por exemplo: se conseguirem que o processo não vá pra frente colocando a culpa em Patrícia Amorim, Hélio Ferraz ou seja lá quem for, o efeito já terá sido o desejado.
É preciso ter cuidado pra não cair em certas pilhas.
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No mais, realmente não acho que o Flamengo hoje tenha time pra brigar contra o rebaixamento. Especialmente se puderem trabalhar com tranquilidade e tiverem o apoio da torcida. Pra quem realmente teme uma queda pra série B: sei que o elenco do Flamengo está abaixo de uma porção de concorrentes, mas não creio que seja do nível de Guarani, Ceará, Avaí, Vitória, Prudente, Atlético-PR, Atlético-GO e Goiás. O campeonato está ainda no início, mas o Flamengo já jogou com Inter, Grêmio, São Paulo, Palmeiras, Fluminense e Botafogo, todos jogos teoricamente bem complicados, e ainda está a três pontos da zona da Libertadores.
Outro dia li um comentário por aí de alguém que “não aguenta mais ver Val Baiano jogando no Flamengo”. Mas já? Acho que vale esperar mais um pouquinho antes de tirar conclusões tão definitivas, ainda mais num momento que pode ser realmente histórico para o clube.
O Flamengo teria muito a ganhar se a torcida agora comprasse a sua briga. Talvez fosse o caso da própria diretoria dizer isso com mais clareza.
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