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Alfarrábios do Melo

Saudações rubro-negras a todos. Antes de iniciar o post da semana, quero parabenizar o Vasco pela iniciativa de criar uma camisa que reproduz fielmente o modelo utilizado no VICE conquistado em 1978, uma das mais célebres derrotas do bacalhau para o Mengão em finais. Isso aí, tem que cultivar a imagem, resgatar a história. Só acho que poderiam ter chamado o Rondinelli no lançamento da camisa.

Entrando agora no assunto do post, incomodaram-me bastante algumas iniciativas isoladas e pulverizadas onde, por desinformação ou puro esquecimento, partiu-se para ataques com um certo excesso de tom contra a figura do Zico, que ora ocupa a posição de responsável pelo futebol do Flamengo. Independente do resultado de sua gestão, que deverá ser avaliada no tempo certo, penso que é necessário saber preservar e reverenciar nossos ídolos. Assim, para quem não sabe ou se lembra, quero essa semana deixar um breve relato sobre um período específico da trajetória do Galinho no Flamengo. Peço desculpas, mas hoje não falarei de jogadas, gols ou vitórias. Mesmo assim, boa leitura.

Da Longa Agonia à Ressurreição

1986. O Flamengo acaba de conquistar o Campeonato Estadual, derrotando o Vasco (ora vejam…) na Final. Após comemorar (e muito) o título, o time já se prepara para a estréia no Brasileiro, contra o Paysandu, no Maracanã. Sua estrela maior, Zico, segue se preparando para a competição. Não disputou as partidas decisivas. Ao voltar da Copa, participou de três jogos e voltou a sentir o joelho. Retoma pela enésima vez a entediante rotina de reforçar a musculatura da perna para proteger os ligamentos destroçados, um paliativo para adiar a temida cirurgia que poderá lhe abreviar a carreira. Mas, num dos últimos treinos antes da estréia, Zico salta e pisa em falso. O joelho sai do lugar, o craque urra de dor. Está fora do jogo. De novo.

É a quarta vez, apenas em 1986, que o Galinho é traído por seu joelho problemático. Vivendo provavelmente a pior fase de sua carreira, Zico se torna objeto de ironias e gracinhas, tido como acabado, ex-jogador. A imprensa paulista não o perdoa pela eliminação do Brasil no Mundial, uma Copa que o craque sabia não ter condições de disputar. Alguns mais radicais tentam pespegá-lo o estigma de um Barbosa, um Bigode. Mesmo dentro do Flamengo, há quem defenda que o clube teria desperdiçado dinheiro ao trazê-lo de volta, investimento perdido com um atleta que não atua, não participa, dizem. O “joelho do Zico” se torna sinônimo de problema insolúvel, mal incurável. A pecha de “Bichado” ameaça grudar-lhe como uma praga. Alguns parentes e amigos próximos cogitam aconselhar o craque a acabar logo com isso e curtir uma justa aposentadoria. Mas Zico nem considera a hipótese. Jamais admitirá pendurar as chuteiras contra a vontade. A solução é arriscada, mas não há alternativa. Submeter-se a uma cirurgia extremamente delicada, quase experimental. Terá de afastar-se por um ano, com chances mínimas de retorno. Há risco de o atleta sequer voltar a andar normalmente. O calvário apenas está no início.

Vem a cirurgia, aparentemente um sucesso. O ligamento estraçalhado é removido, substituído por tiras. Para isso, uma espécie de furadeira é aplicada sobre o fêmur, abrindo quatro buracos, iguais aos que se fazem em paredes. A dor do pós-operatório é lancinante. Por várias semanas, Zico não pode dormir com a perna esquerda esticada, sob risco de estourar os pontos, precisa de um aparelho ortopédico, que incomoda, dói. Por dois meses, não pode colocar o pé esquerdo no chão. A perna atrofia sete centímetros, fazendo o craque chorar convulsivamente. Mas, movido por uma força que nem mesmo suspeitava possuir, o Galinho vai superando etapa por etapa da delicadíssima recuperação. Passam-se dias, semanas, meses. As notícias são sempre cobertas de cautela, mas trazem em seu bojo uma leve mensagem positiva, dizem que tudo parece correr bem, o que vai funcionando como um vigoroso linimento para toda uma Nação que espera por seu craque, seu amor, sua divindade. No fundo, todo flamengo sabe que irá rever seu messias. Não importa o que digam, apenas sabe. E quando isso acontecer, a intensidade da paixão reclusa e erupta irá engolfar toda a descrença e o escárnio, rebentando numa demonstração de amor que jamais poderá ser decifrada em palavras, apenas vivida por quem recebeu o dom e a graça de possuir um sangue flamengo em suas entranhas.

Pano rápido.

1989. O Flamengo, já eliminado do Brasileiro, enfrenta o Cruzeiro, no Mineirão. Sem perspectiva de título, as atenções se voltam para Zico, que fará contra os mineiros sua última partida oficial interestadual. Aos 36 anos, o Galinho está no auge de seu prestígio, tendo conquistado o profundo respeito e a admiração de todo o cenário esportivo nacional, com sua inacreditável história de superação. A saga do Galinho, que emergiu de uma virtual aposentadoria por invalidez para a conquista do Brasil e a consagração como o futebolista do ano de 1987 fizeram o País se convencer de que não estava diante de um simples esportista, um mero gênio da bola. A altivez e a humildade com que Zico enfrentou e venceu o mais duro desafio de sua carreira calaram de forma inapelável e irreversível todas as críticas eivadas de ira e despeito. Os 40 mil presentes ao Mineirão nessa bela tarde ensolarada sabem disso, e querem deixar sua última homenagem ao homem. Num dos momentos mais arrepiantes da história do futebol brasileiro, a torcida DO CRUZEIRO canta alto, a plenos pulmões, por vários minutos, “Olê, olê, olê, Zico, Zico”. Poucas vezes um jogador de outro clube terá sido alvo de homenagem semelhante. Alguns jogadores e torcedores flamengos não resistem. E choram.

Pouco mais tarde, o Maracanã traja smoking e black-tie para a derradeira aparição de Zico como jogador do Flamengo, num amistoso recheado de craques para quase 100 mil presentes, um evento que para o Rio de Janeiro numa noite de terça. Atletas, jornalistas, torcedores, telespectadores, todos fazem questão de apreciar o último espetáculo e dar um abraço, mesmo que de longe, em pensamento, naquele homem que, mais do que suas jogadas de gênio, seus títulos conquistados, sua miríade de gols, encantou e se tornou referência por seu caráter, liderança e conduta. Um homem que marcou definitivamente a história da mais expressiva agremiação esportiva do país, mudando de forma indelével seu destino e sua trajetória. E por isso mesmo, simbolizou mais do que simplesmente um período.

Com sua passagem luminosa, demarcou toda uma Era.

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