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Alfarrábios do Melo

Olá, saudações rubro-negras a todos. Enfim livre de problemas externos, volto a escrever neste espaço. Estava sentindo falta. Bem, sem mais delongas, quero deixar aqui o relato de um momento difícil na história flamenga, do qual se saiu com paciência e, principalmente, tranqüilidade. Boa leitura.

1976. Espremido por dívidas de toda espécie e sem qualquer capacidade de investimento, o Flamengo vive uma fase extremamente delicada e atravessa séria crise institucional. O quarto lugar no Campeonato Estadual e a opaca campanha no Brasileiro acendem uma onda de vivo pessimismo e falta de perspectivas. Com efeito, a última conquista (o Estadual de 1974) já parece longínqua para um clube célebre por sua sede de títulos.

Sem dinheiro, o rubro-negro monta um elenco barato, com forte presença dos jovens de uma divisão de base tida como promissora, com nomes como Adílio, Andrade, Júnior, Cantarele, Júlio César, Rondinelli e o principal deles, o extremamente talentoso Zico, que poucos duvidam que será craque. Mas a esses jovens falta vivência, rodagem, e não há como trazer nomes consagrados para lhes dar suporte. Apenas apostas vindas de centros menores, como Dendê, Merica, Marciano, mais tarde Osni e Beijoca, ou nomes obscuros, como Beto Bacamarte e Waldo. Em campo, alguns jogadores até vingam, mas o comando técnico da equipe fica mesmo a cargo dos garotos, e muitos não suportam a pressão inicial.

Mas a grande controvérsia surge após a demissão de Carlos Froner, treinador que não resiste à eliminação do Brasileiro. Numa manobra arrojada, a diretoria decide apostar em um desconhecido Capitão do Exército, que exibia no currículo apenas a (boa) participação na comissão técnica da Seleção de 1970, mas como preparador físico. A efetivação de Cláudio Coutinho no cargo de treinador do Flamengo provoca intenso burburinho e muitas reações inflamadas.

Sem muito alarde, Coutinho começa a montar seu trabalho. Pede paciência, sabe que precisa de tempo para conseguir resultados. A diretoria, recém-empossada, dá ao treinador o respaldo necessário, até porque precisa tentar sanear o clube, cujas contas estão em frangalhos. O novo treinador logo percebe que os jovens precisam de uma liderança, um jogador de referência. Mas como trazer esse jogador sem dinheiro? O jeito é apostar em jogadores qualificados, mas voltando de grave contusão. É assim que o meia Carpegiani e o atacante Cláudio Adão, talentosos mas muito desvalorizados, desembarcam na Gávea, assim como o goleiro Raul (descontente com o futebol) chegará depois.

O tempo passa, a evolução no time já se faz sentir. Mas os resultados ainda não aparecem. O time perde o Estadual para o Vasco de forma traumática, quando Tita (outro nome da nova geração) perde um pênalti decisivo. Os jogadores chegam a se reunir e selam um pacto de vitória, mas a equipe segue claudicando. Faz em seqüência dois Brasileiros razoáveis, onde está sempre longe do título. Na competição de 1978, o rubro-negro chega a sofrer uma goleada humilhante em Porto Alegre (2-5 Grêmio), que abre forte crise no grupo. As críticas, piadas e o descontentamento com o trabalho da diretoria se avolumam. Começa a haver um consenso de que o Estadual de 1978 será a última chance daquele elenco.

O Estadual se inicia, e o Flamengo voa. Ganha com tranqüilidade a Taça Guanabara, e no Segundo Turno vai empilhando várias goleadas. Enfim, o bom futebol e os resultados sólidos começam a aparecer em seqüência, dando a Coutinho a tão sonhada tranqüilidade para trabalhar. Mas a campanha do Vasco no Returno é absurda, o cruzmaltino não perde um mísero ponto. O Vasco também possui uma ótima equipe, e o duelo entre os dois rivais na última rodada é amplamente aguardado.

Chega o grande dia. Flamengo e Vasco, ambos embalados e em grande fase, irão decidir o Segundo Turno. O Flamengo precisa da vitória para conquistar o título e garantir o Estadual antecipadamente, dando fim a um jejum de QUATRO anos. Ao Vasco, basta um simples empate, e a disputa irá para uma melhor-de-três.

Na Gávea, velhos fantasmas se acendem, recentes derrotas são relembradas por alguns mais fatalistas. Teme-se pela capacidade de decisão de um grupo marcado por eliminações como a derrota para o Santa Cruz no Brasileiro de 1975 (Maracanã com 120 mil), ou a perda do Estadual de 1977 para o mesmo Vasco. Mesmo o título da Taça Guanabara de 1978 veio com derrota, para o Fluminense. O time se prepara e tenta ignorar a pressão, mas sabe-se que esta é a última chance da turma de Zico, Júnior, Coutinho & Cia. Não haverá perdão para um novo insucesso.

Vai começar o jogo. Poucos sabem, mas essa será, talvez, a mais importante partida da história do Flamengo.

Ali começará tudo.

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