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ASCENSÃO E MORTE DE UM TORCEDOR RUBRO-NEGRO

Antes de tudo, cumpre esclarecer que nem estou com intenções suicidas, e JAMAIS mudarei de time. Quero apenas organizar uma série de pensamentos que vêm assombrando meu combalido cérebro, e que à luz dos acontecimentos deste ano tristonho merecem algum tipo de elaboração.

Refiro-me a um tipo particular de torcedor do Flamengo, ao qual pertenço, compreendido nos limites um tanto vagos da geração que fica entre os trinta e os quarenta anos, ou seja, aquela geração de flamenguistas que começou a torcer justamente no apogeu dos anos dourados da Era Zico. Graças a uma circunstância etária fortuita, comecei a acompanhar futebol justamente na Copa de 1978 e naquele campeonato carioca que se encerrou na cabeçada mitológica do Deus da Raça. Fui habituado a torcer para um time que: ganhava títulos em sequência; aplicava goleadas implacáveis; demolia tabus; cedia pencas de jogadores para a Seleção Brasileira; batia recordes; era um modelo de organização e eficiência; formava craques em todas as suas divisões, do “dente-de-leite” ao profissional; entrávamos em qualquer campeonato para brigar pelo título.

Crescemos comemorando títulos e vitórias, e mesmo quando estes não vinham, pois no futebol é impossível vencer sempre o tempo todo, sabíamos que após uma ou outra fase ruim, viriam novas conquistas. Assim sendo, esta geração comemorou as glórias dos anos fantásticos de 1978 a 1983; chorou a venda do astro-maior Zico para o Udinese; sofreu com os insucessos de 1983 a 1985, e com o êxodo de jogadores para a Europa; comemorou o retorno do Galinho e a consolidação de uma nova fornada de craques mais jovens; comemoramos e legitimamos na marra o tetracampeonato de 1987; sofremos com o desmonte de 1989; assistimos ao maestro Júnior liderar mais uma legião de pratas-da-casa para reconquistar o caneco brasileiro. Isto era o Flamengo, era o nosso Flamengo, nas vitórias frequentes e nas derrotas ocasionais. Mesmo os eventuais insucessos e dificuldades eram apenas tempestades passageiras que serviam apenas para abrilhantar os novos triunfos que se seguiam.

Alguma coisa aconteceu, e não sei precisar quando e como. Acho que em algum momento, entre 1993 e 1995, algo sujo, podre e contagioso infectou o Gigante. Talvez tenha sido o desmonte ocorrido neste período, pulverizando o nosso último bom plantel de juniores, que foram todos virar ídolos em outros times. Ou talvez a explosão galopante das dívidas que prejudicaram nossa capacidade de financiar contratações e manter elencos com um mínimo de profissionalismo. Talvez tenham sido as contratações tresloucadas da “era glacial” de Kleber Leite, que terminaram por sepultar uma filosofia baseada na formação de craques, e apelar para supercontratações de impacto. O Flamengo tornou-se refém de credores, de empresários de reputação duvidosa, de interesses subterrâneos, de jogadores afeitos ao estrelismo e viciados em regalias e privilégios, e de uma casta de parasitas que encastelou-se nos altos escalões da administração, muitas vezes divididos em facções , ora em eterna disputa fratricida, ora em alianças oportunistas. Talvez 1995 seja um ano mesmo simbólico, já que no Brasileiro daquele ano, o Flamengo pela primeira vez correu sério risco de ser rebaixado, algo impensável na década anterior. Desde então viriam novos altos e baixos, e ainda ganharíamos muitos títulos, dois tricampeonatos estaduais, uma supercopa com tintas heróicas, culminando nas conquistas recentes da Copa do Brasil, e finalmente, do Hexacampeonato, após um jejum que parecia eterno. Nossa última geração de jogadores – emblematicamente formada por pouquíssimos jogadores formados na Gávea – vinha se saindo muito bem: conquistaram títulos além da esfera estadual, e por três anos seguidos vinham brigando pelas primeiras colocações no Brasileiro. Conquistamos o Hexa e parecíamos ver uma luz no fim do túnel. Seria o resgate das glórias flamengas do nosso maiúsculo passado ?

NÃO.

A luz no fim do túnel era uma locomotiva vindo na nossa direção. O que antes era a norma, acabou virando a exceção. Se o Flamengo até 1995 parecia um time destinado às vitórias, com percalços eventuais, nos anos que se seguiram ele se transformou num clube manchado pelos vexames e pela incompetência, com as glórias passando a ser episódicas e circunstanciais. Tudo o que havia de bom pairando no horizonte esvaiu-se no ar, e atravessamos 2010 como passageiros de um expresso do horror. É como se este novo flamengo de letras muito minúsculas quisesse torturar nossa alma torcedora para nos lembrar que vivemos em outros tempos, e que o FLAMENGO da nossa infância não passa de um mero fantasma dos natais passados. Um clube-fantasma evaporando-se no ar, e levando consigo seus torcedores-fantasmas. Sinto-me totalmente identificado com o marasmo apontado pelo Paulo Lima, numa definição magistral de nossa situação. Aquele torcedor de oito anos de idade que eu era em 1978, que tanto gritou e chorou pelo Flamengo, e seus milhões de irmãos e irmãs flamengos espalhados pelo mundo, entrou em coma em 1995, e após uma dolorosa agonia de quinze anos, parece estar prestes a ter sua morte cerebral diagnosticada. Nascerá um novo torcedor em seu lugar, acostumado ao marasmo e à mediocridade, indiferente e cínico, pois estará consciente de que não se deve esperar muito. Talvez seja apenas a maturidade dos meus quarenta anos fazendo-me enxergar a realidade como ela é, despertando-me das ilusões do futebol. Talvez isto me torne mais apto a sobreviver neste mundo, onde não posso ignorar que o futebol é uma das muitas engrenagens de uma rede intrincada de podres poderes, onde agem muitas forças ocultas (e muitas nem tão ocultas assim), e onde se misturam de forma explosiva comércio, esporte, política, religião (com igrejas ávidas pelos polpudos dízimos dos atletas), e, não posso deixar de citar, os tentáculos do crime organizado. Sei que o Flamengo não é a única vítima desta mediocrização do futebol, e em nossa crise há um forte componente conjuntural, que aflige todos os clubes como um todo: incapacidade de competir economicamente com os clubes europeus, vulnerabilidade à ganância dos empresários; estruturas administrativas amadoras e decadentes; grupelhos de dirigentes que se perpetuam em seus cargos, nas federações e na CBF.

Cabe aos profissionais que formam o Clube de Regatas do Flamengo, dentro e fora das quatro linhas, se reorganizar e trabalhar muito para fazer com que esta idade das trevas se encerre o quanto antes, e que se inicie uma nova era de grandeza. Não espero muito daqueles que atualmente mandam no clube, mas sigo torcendo – como bom “torcedor” – por uma utópica ressurreição. Utopias existem para isso: nos apontar a direção a ser seguida.

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