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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. Vencendo sem convencer muito, o Flamengo já está nas semifinais da TG. O time ainda está encorpando, seus melhores jogadores precisam pegar ritmo, essas coisas. De qualquer forma, a torcida é para que o Luxemburgo comece a descartar soluções mirabolantes como a utilização de figuras bizarras como Fernando e Jean. Já ajudaria bastante.

Essa semana deixo um Fla-Flu, já que o time da camisa coloridinha deve ser o nosso adversário nas Semifinais. Início de temporada, goleada e show de Zico. Lembra alguma coisa? O massacre de 1986? Não exatamente… Só recordando, esse jogo de 1986 ficou conhecido como “A Zicovardia, Parte II”. Parte 2? Então houve uma Parte 1? Então, é essa primeira “Zicovardia” que conto agora, mostrando que entubar o Fluminense é especialidade da casa. Boa leitura.

A Zicovardia, Parte I

1976. Ainda recolhendo os cacos após a traumática eliminação do Brasileiro do ano anterior, ao perder para o Santa Cruz (1-3) em pleno Maracanã com 80 mil (em partida na qual bastava o empate para chegar às Semifinais), o Flamengo busca renovar seu elenco. Mas não há dinheiro para aventuras. No entanto, uma possibilidade surge quando o excêntrico Francisco Horta, presidente do Fluminense, procura seu colega flamengo Hélio Maurício com uma proposta ousada. Quer uma troca de jogadores.

Desde o início de sua gestão nas Laranjeiras, Horta se notabiliza pela obsessão em montar uma equipe estelar, internacional. Quer fazer do Fluminense o melhor do planeta, capaz de conquistar qualquer título. E, com efeito, monta um belo elenco no primeiro ano, a “Máquina”, com Félix, Marco Antônio, Paulo César Lima, Gil, Carlos Alberto Torres e o craque Rivelino. No entanto, apesar da conquista do Carioca-75, o sonho de conquistar o Brasil naufraga após uma derrota acachapante para o Internacional de Falcão nas Semifinais (0-2), um chocolate diante de 100 mil pessoas. A derrota é muito mal digerida, e Horta procura fazer “ajustes” em seu elenco. É quando surge a idéia de trocar jogadores com os rivais.

Assim, o Flamengo cede o goleiro Renato, o lateral-esquerdo Rodrigues Neto e o atacante Doval, recebendo em troca o goleiro Roberto, o lateral-direito Toninho e o atacante Zé Roberto. O negócio enfurece a torcida rubro-negra, que não aceita a saída de Doval, que mesmo em má fase e pouco aproveitado pelo treinador Carlos Froner, continua ídolo. Para piorar, Doval é recebido com festa nas Laranjeiras e logo voltará a se mostrar um atacante brigador e goleador.

E a Nação segue ressabiada ao conhecer as demais contratações. Nomes como Dendê, Merica, Paolino e Beto Bacamarte não povoam propriamente os sonhos flamengos. O jeito é apostar em garotos da base como Júlio César e Rondinelli, torcer para que o meia Geraldo enfim consiga se firmar no time e que os atacantes Paulinho, Caio, Luisinho e Luís Paulo finalmente emplaquem. O torcedor vê apenas nos jovens Júnior e, principalmente, Zico talento compatível com o que espera do time. E é com ceticismo que recebe a notícia de que um Fla-Flu amistoso será realizado para a apresentação dos “novos” reforços das duas equipes.

Março, Dia do Cronista Esportivo, em jogo o Troféu Nelson Rodrigues. 87 mil respondem à forte convocação feita pela imprensa e pelo fanfarrão Horta, que apregoa possuir uma versão envenenada da “Máquina”, o melhor time da América do Sul, em suas palavras. Rodrigues Neto, Doval, Pintinho, Paulo César Lima, Carlos Alberto Torres, só Rivelino fora. Para enfrentar essa “seleção”, o Flamengo alinha Merica, Luís Paulo, Cantarele, Jaime, Toninho, Júnior, alguns garotos. E Zico.

Ao iniciar a partida, o Brasil leva um susto na TV. Pois o Flamengo não toma conhecimento do adversário e lança-se ao ataque com ímpeto suicida. E não demora 15’ já está vencendo a partida, quando Paulinho faz boa jogada e serve a Zico, que fuzila para abrir a contagem. Flamengo 1-0.

A desconfiança e a chacota exaladas durante a semana do clássico motivam os jogadores flamengos. Geraldo vai esmerilhando a bola, senhor absoluto do meio-campo. Assoviando, sempre sorridente, ignora os célebres adversários e os dribla ao chão, em fila, como qualquer chapetuba da vida. Transforma o tão falado Fla-Flu em um alegre treino, com a cortante simplicidade dos gênios.

E lá atrás há Merica. O baiano mais feio do que a fome (segundo Jorge Cury) exibe seu futebol analfabeto, desdentado, primitivo. Corre como se a última partida de sua vida fosse, mata a pauladas qualquer ataque adversário. Come grama, bola, terra, mato. Dá a cara a tapa, a porrada. Deixa em campo as vísceras de sua existência carente, refletindo-se em cada um dos flamengos presentes na arquibancada, na geral. Merica é Flamengo, é Brasil, é povo. E ali, ao escorraçar os craques de seleção da sua intermediária, vira ídolo. Vira paixão.

Refeito do impacto inicial, o Fluminense se acalma e consegue equilibrar o jogo. E chega ao empate logo no início da segunda etapa, quando Merica leva excessivamente a sério o papel de guardião e enfia a mão na bola. Pênalti, Torres faz 1-1. Agora, parece que a Máquina vai fazer valer a lógica.

Mas ainda há Zico. E Geraldo. Dupla infernal, irmãos siameses que cresceram na base, amigos inseparáveis. É como se resolvessem, “cabô essa porra, agora chega”. E se transmudam imarcáveis. Começa, enfim, o espetáculo prometido pelas estrelas das Laranjeiras. Mas os artífices são Zico e seu “irmãozinho de cor” Geraldo. O Assoviador faz jogada perto da área, falta. Zico ajeita, olha para Renato, velho companheiro de treinos na Gávea, agora adversário. Renato sabe o jeito de Zico, o Galinho conhece os trejeitos do experiente goleiro. Será um duelo interessante.

E o que se vê é pura história. Zico bate e consegue uma trajetória diabólica. A bola sobe com força, parece que vai pra arquibancada. Súbito, descai. Renato voa. Vai pegar. Mas o tiro é fortíssimo, sinuoso, a bola continua fazendo curva. Desvia da mão do goleiro. E repentinamente perde força. Volúvel, sedutora, imprevisível. Antes de se chocar com a trave, a bola simplesmente se abandona o suficiente para repousar nas redes, no preciso e exíguo espaço delimitado entre as mãos de Renato e a forquilha. É uma cobrança de falta estarrecedora, não pode ser obra humana. Mais tarde, Zico reconhecerá ter sido a mais perfeita de sua carreira. Flamengo 2-1.

O gol alucina o estádio e eletriza o Flamengo, que toca uma correria ensandecida. Começa a perder um gol atrás do outro. Zico, infernal, vai tentando consagrar os atacantes, jorrando açúcar e afeto. Até que perde a paciência e resolve, ele mesmo, mandar uma varada de longe. Renato apenas olha, Flamengo 3-1. A torcida continua gritando, quer a goleada, quer sangue. É o presentinho ao boquirroto Horta. Agora o time entra tabelando, uma coisa linda. A bola vem a Geraldo, que olha prum lado, pro outro, e paralisa a atônita defesa tricolor com um toquinho displicente. De calcanhar. Zico, livrinho, agradece o presente e ensaca mais um. Zico 4-1, Flamengo 4-1. Desde Pirilo (Fla 7-0 Flu, em 1945) um jogador não marcava quatro num Fla-Flu. “ô, ô, ô, a Máquina enguiçô”, debocha a Nação.

No dia seguinte, o Jornal dos Sports consegue resumir a escovada com apenas uma palavra: “ZICOVARDIA”. Entorpecido com a partida e com a inacreditável atuação de Zico, o cantor Jorge Ben escreve uma música, que lança no álbum “África Brasil”. A canção vira um hino de amor flamengo e terror para os adversários.

“É falta/na entrada da área/adivinha/quem vai bater…”

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