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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. A semana que começou com a volta da velha polêmica envolvendo a tal Taça de Bolinhas. Aliás, ao me vislumbrar com a cena de um sujeito levantando uma taça que não é dele, lembrei-me da célebre volta olímpica do Vasco no Estadual 1990, ostentando um “troféu-caravela” de papelão.

Enfim, não quero falar de 1987. Semana passada um dos mais ilustres rubro-negros da centenária história flamenga recebeu uma bela homenagem, ao ter inaugurada uma praça com seu nome. Fiquei muito satisfeito, pois em boa parte de minha juventude pude acompanhar o trabalho de Carlinhos como treinador. E é um pouco da história do Violino que quero contar hoje (lembrando, como todos sabem, que ele era o treinador no tetra de 87). Boa leitura.

O Rito de Passagem

1970. É véspera do jogão da Semifinal da Copa, entre Brasil e Uruguai. Ansiedade, expectativa, medo de 50, muita coisa passa pela cabeça de cada brasileiro. Mas, no meio desse turbilhão, uma partida amistosa é marcada para o Maracanã. Uma despedida. Um rito de passagem.

Há seis meses, Carlinhos encerrou sua carreira de jogador de futebol. O calendário cada vez mais apertado somente lhe permite a justa despedida dos gramados num vácuo, durante o Mundial. Pouco importa, tanto melhor. Carlinhos sempre foi avesso a badalações, aos holofotes. O essencial é o reconhecimento, o gesto.

Impossível deixar de se perder no meio de lembranças, impossível não recordar 1954, quando, ainda moleque, recebe as chuteiras de um ícone, um ídolo, o defensor Biguá, um dos jogadores mais queridos da história do Flamengo, que encerra sua carreira aos prantos, entregando àquele jovem promissor seu instrumento de trabalho. Um ritual que indica continuidade.

E Carlinhos mostra-se, desde cedo, à altura da responsabilidade que lhe é imposta. Sereno, sem jamais erguer a voz, conquista seu espaço com jeito, jogando bola, mostrando com os pés do que é capaz. Atua como médio (hoje volante), participando da saída de bola e fazendo a ligação com o ataque. Possui um domínio de bola desconcertante, seus pés parecem de veludo. Os passes, sempre precisos, seguem a cadência que as circunstâncias exigem. Flamengo satisfeito com o resultado, a bola corre indolente, preguiçosa, macia. Flamengo ansiando por um gol redentor, o jogo passa a ser cortante, vertical, feérico. Mas sempre harmônico, apurado, jamais apressado, nunca forçado. Como um violino, a alma de uma orquestra.

Seguem as lembranças. Uma década como titular absoluto do Flamengo. Não é fácil ser titular do Flamengo. Muito menos durante 10 anos. E Carlinhos jamais como a principal estrela, o grande craque, o nome por quem se arrancam suspiros. Vê Dida, Henrique, Gerson, até Babá ocuparem-se do papel de xodós e ídolos. Mas, tire o Violino da equipe. Logo começa a bagunça, o caos, a pelada. Sem o Violino, a orquestra rubro-negra se torna um amontoado de panelas batendo.

Os títulos, as glórias. Carlinhos vive a alegria de ser rubro-negro em sua essência, erguendo taças e mais taças. O sofrido Carioca de 1963 no Fla-Flu do século, o surpreendente título de 1965, conquistado com uma equipe incrivelmente limitada, ou o Rio-São Paulo de 1961 abastecendo uma máquina de fazer gols, um Sul-Americano extraoficial em 1959, outro torneio continental em 1961. Mas, acima de todos esses troféus, angaria o respeito e a reverência do torcedor flamengo.

A voz serena, suave, a incapacidade de tomar a bola através de carrinhos toscos. Desarmes furtivos, um punguista da bola. Raramente apela pra faltas, daí ter ganho o Belfort Duarte (nunca foi expulso). Líder nato, impõe-se pelo exemplo, pela postura sempre reta, a afabilidade, a capacidade de angariar respeito e amigos.

Mas isso tudo agora é passado, são lembranças. Chega o dia da despedida, o momento em que o Violino oficialmente deixará os campos. Carlinhos veste traje de gala, o Manto Sagrado, calções brancos e meiões rubro-negros, fardamento que honrou durante mais de dez anos. Não, o Violino não jogará. Sua despedida será exatamente da mesma forma que seu início. Uma cerimônia de passagem de chuteiras. Continuidade.

E lá está o jovem herdeiro, a maior promessa das categorias de base. Um garoto muito bom de bola, personalidade forte, descendente de portugueses, família de craques, um tal Arthur. Mas é mirrado, franzino, talvez demais. Daí chamarem-no um arthurzico, ou Zico. Bem, de qualquer forma, se fizer metade da obra de Carlinhos estará de bom tamanho…

E é ao Zico que Carlinhos entrega seu valioso par de chuteiras. Aplausos calorosos, algumas lágrimas até. Nome gritado. Não, o templo Maracanã não está lotado. Melhor assim. Intimista. Como o Violino gosta.

O jogo? O Flamengo de Yustrich, atual campeão da Taça Guanabara, derrota uma Seleção Carioca, 1-0. Mas isso agora não importa muito. Carlinhos, o Violino, entra definitivamente na história rubro-negra e vai curtir a nova etapa de sua vida, seus novos desafios, dessa vez longe dos gramados. Ao que tudo indica.

Pois o que nem Carlinhos, nem a Nação Rubro-Negra ainda sabem, é que essa longa e vitoriosa trajetória ainda está apenas no início…

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  1. […] Henrique, Gerson, até Babá ocuparem-se do papel de xodós e ídolos. Mas, tire o Violino da equipe. Logo começa a bagunça, o caos, a pelada. Sem o Violino, a orquestra rubro-negra se torna um […]

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