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Alfarrábios do Melo

“Campeão Brasileiro de 1987 o Flamengo já era desde 1987” (MONNERAT, André)

Saudações flamengas a todos. Não tem jeito, o assunto 1987 insiste em render, arder em mais polêmica, então não irei me furtar a traçar algumas linhas sobre o tema, mesmo que algo a contragosto.

Ainda 1987…

Ontem a CBF, passados 24 anos, finalmente adernou em direção ao que apontam os fatos e resolveu formalizar o quarto título brasileiro do Flamengo. A posição, que se insere no escopo de uma pesada guerra econômica e comercial por direitos de TV (aliás, só lembro que esse imbróglio ainda pode render muita confusão. Que não se duvide do surgimento de Torneios Apertura e Clausura, como ocorreu igualzinho na Argentina, justo por brigas de TV), fez com que muitos torcedores flamengos abrissem o peito e urrassem de desabafo, na linha do “SOU CAMPEÃO, PORRA!” Compreensível.

Vou propor um exercício que vai exigir do leitor uma terrível capacidade de abstração, uma experiência quase lisérgica, pelo seu absurdo e incompatibilidade com o real, mas preciso desse exemplo para desenvolver minha tese: imagine a final do Brasileiro de 1987 no Mineirão. O gol do título sendo marcado pelo Sérgio Araújo, após passe do meia Renato Paulista, e o Atlético-MG de Telê comemorando seu segundo título nacional. Passados 10, 20 anos, ninguém, a não ser um ou outro cruzeirense mais radical, negaria a lisura e a legitimidade do título mineiro. Pelo contrário, o inofensivo galo mineiro ainda poderia ser reconhecido como um “campeão da ética, da moralidade etc etc etc”. Mas calhou que o campeão não foi o Atlético, o Inter ou outro time meia-bomba desses qualquer. Foi o Flamengo. É aí que reside a polêmica, a busca pela confusão, pelo bate-boca sem sentido. O Flamengo vende. O Flamengo rende.

Vivi aquela época intensamente. Estava numa idade em que consumia TUDO de futebol, matava e morria por meus ídolos, sofria nos jogos, quebrei uma porrada de coisa no gol do Bebeto contra o Galo no Maracanã, fui na Fonte Nova assistir à última exibição de Zico em gramados baianos, vi Renato destroçar quem quer que aparecesse em sua frente, chorei, vibrei, enfim, vivi o tetra brasileiro em sua plenitude. E, no entanto, para mim o anúncio empolado de que o hexa é hexa não teve rigorosamente efeito algum. Como diz o Zico, sempre lúcido: “não muda nada”.

E não muda mesmo. O Flamengo continua sendo o ÚNICO campeão brasileiro de 1987, seja lá o que diga CBF, Justiça, o Papa e quetais. Quem tem um mínimo de credibilidade e conhece um átimo da história sabe e reconhece esse fato, apondo a contragosto um asterisco imposto por alguma decisão proferida por quem nunca viu bola. Não me interessa ouvir a voz oportunista das carpideiras escovadas em campo pelos pés flamengos. Não me apraz pousar os olhos em textos ressentidos e eivados de desconhecimento, mal rabiscados por gente que à época se divertia com chocalhos e chupetas adocicadas da mamãe, enquanto o Zico arrebentava o resto de seu joelho comemorando a magistral cobrança de falta na gaveta do Birigui. “Foi o Flamengo? Sou contra!” Para esses, já existe o primoroso texto do Tinhorão escrito aí embaixo, só rolar a página.

Mas essa história vem me proporcionando momentos deliciosos (epa!). Sim, porque poucas vezes tenho visto uma manifestação tão eloqüente de grandeza e de força flamenga como nesse atribulado e infeliz episódio. E a pequenez rival tem se manifestado em sua forma mais abjeta, mais cristalina. Chegarei lá.

Tomemos como exemplo os nossos rivais (cof… cof… pausa para riso) do Rio. Há na empáfia fluminense, no derrotismo botafoguense e na resignação vascaína um traço em comum, ora surdo, por vezes declarado. O grande sonho de um torcedor dessa turma é ser reconhecido como o “Anti-Flamengo” em essência, o alter-ego da uma força que sabe não ser capaz de ombrear. Ocorre que a turma do arco-íris, ao se reconhecer e se projetar um anti-flamenguismo, assume sua pequenez, sua incapacidade de emitir luz própria. O Flamengo é a razão de sua existência, e no fundo cada torcedor coloridinho sabe disso. Busca-se “anti-Flamengo”, e se assume assim, aceita-se dessa forma, ostentando certa dignidade em sua insignificância.

Mas a grandeza flamenga suscita outro tipo de reação. Há os arco-íris que buscam sem êxito a supremacia do antagonismo. Mas há quem não queira simplesmente ser o “anti-Flamengo”. Há quem queira ser Flamengo. Aí reside a essência, o âmago da pequenez plena. “eu não quero ser anti-Flamengo, eu quero ser O Flamengo”. De nada vale ter CT’s caríssimos, elenco estelar, elogios maciços na televisão (nem sempre espontâneos), títulos a rodo, nutricionista, fisiologista, personal trainer, psicólogo, podólogo. Falta paixão. Falta amor. Falta intensidade. Falta o que faz do futebol vida, chama, ardor. Falta Flamengo.

Não é se autodenominando “O Mais Querido” (depois de arrancar gritinhos e palminhas de uma torcida ao revelar-se tricolor, como a bandeira paulista, desafiando Vargas lá pelos anos 30/40), não é buscando roubar apelidos de ídolos (dando ao brucutu volante Chicão, conhecido açougueiro nos anos 70, o título póstumo de “Deus da Raça”), ou se autoproclamando a maior torcida do Brasil daqui a dez, quinze anos, a despeito de pesquisas que teimam em apontar justo o contrário, que se irá ser Flamengo. Não, não é assim.

Porque de repende vem um Ronaldinho, consagrado e entediado por anos e anos de rituais sofisticados, protocolos, fama, organização primorosa e dinheiro, muito dinheiro. Chega o cara, badaladíssimo, e é recebido numa cerimônia mambembe e esculhambada, num tablado escroto com alguém jogando papel picado pra cima com a mão. E o cara sente. E se arrepia. E chora. E na hora vira Flamengo e começa a correr como um louco nos jogos, como se 17 anos tivesse.

Sinceramente, eu já fiz mais questão dessa Taça de Bolinhas. Mas que fique no Morumbi. E que se exponha a dita-cuja com destaque, isolada em algum salão nobre de museu. E que seja fartamente iluminada, que cada bolinha irradie uma luz ofuscante, incômoda, caudalosamente amoral. Que o São Paulo esfregue na cara de cada visitante sua incapacidade de ser Flamengo, materializada em uma taça que sabe não ser sua. Expondo nas entranhas do Morumbi uma das glórias flamengas, apenas estará manifestando, da forma mais eloqüente, aquilo que sempre terá perseguido ao longo dos anos e de sua história, sem jamais alcançar.

A emoção de representar uma Nação.

PS – agora, tem uma coisa. Ao exibir a taça, coloque isso aqui pra tocar.

(tradução AQUI).

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Sobre flamengonet

jornalista

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