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“Um Exemplo a Não ser Seguido – O Balanço Patrimonial do CR Flamengo”

Por Walter Monteiro, do Ouro de Tolo

A primeira vez que tive uma aula de leitura de balanços foi lá na primeira metade da década de 90. Uma colega de sala disse que nunca tinha visto um balanço com ressalvas de auditoria. O professor concordou que essa era uma circunstância pouco usual, mas que havia exceções, tanto assim que na aula seguinte trouxe alguns casos para analisarmos. Eram de empresas que eu nunca tinha ouvido falar e as ressalvas eram modestas, um ponto ou outro de divergência

[N.doE: no final dos Anos 90 em balanços de instituições financeiras não era incomum uma ou outra demonstração contábil com ressalvas no parecer. Muitas destas instituições desapareceram, por quebra ou venda].

Pena que naquela época o Clube de Regatas do Flamengo não tornasse público os seus balanços ou fosse auditado, porque nosso caro professor poderia gastar algumas aulas discorrendo sobre as práticas financeiras do Mais Querido. Não falta munição para ensinar advogados e contabilistas sobre como NÃO conduzir uma entidade privada.

Essa semana eu dei uma passada de olhos no Balanço Patrimonial de 2010 do Flamengo. Fui ler só para rebater uma crítica recorrente de torcedores, que acham que o clube gasta muito dinheiro com os esportes amadores e atividades sociais, “roubando” recursos da equipe de futebol. Esse é um debate antigo, que geralmente divide os 5 mil sócios de um lado e milhões de torcedores do outro. Eu sempre achei que era um debate tolo, mais ou menos análogo ao caso do sujeito que passa o fim de semana se empaturrando de porcaria e coloca a culpa da diarréia em uma azeitona que caiu mal.

O Balanço Patrimonial não confirma totalmente a minha impressão inicial: o clube gastou R$ 45 milhões com os esportes amadores (R$ 20 milhões a mais do que em 2009) e embora tenha dobrado a receita de patrocínio, esta ainda está muito abaixo dos gastos. Em termos relativos, estes gastos saltaram de 20% para 35% da receita. Portanto, não chega a ser a azeitoninha que eu imaginava, já que é fato que o clube está aumentando o desequilíbrio entre o valor arrecadado e o consumido com os esportes olímpicos. Por outro lado o peso dos esportes olímpicos na estrutura geral do clube ainda não é tão grande.

O Flamengo trocou seus auditores independentes. A empresa atual [N.doE.: anteriormente a Loudon Blomquist, que assina o parecer, se especializava em bancos de pequeno porte, especialmente cariocas.] parece um pouco mais “robusta” que a anterior, que era especializada em clubes de futebol.


Não quero avaliar a qualidade do trabalho de ninguém, mas o público externo em geral se sente mais confortável quando a auditoria é feita por algumas das empresas mais conhecidas e líderes desse mercado, como Price, Ernst&Young, Deloitte, etc. De qualquer forma, o parecer da auditoria, rigoroso, dá a entender que o trabalho foi feito com critério.

[N.doE.: os controles aumentaram bastante depois dos escândalos dos finados Bamerindus e Nacional, mas auditorias e rating não são perfeitas.]

Há coisas inaceitáveis na gestão do clube. O Flamengo (e os demais clubes também) penaram muito para conseguir equacionar as suas dívidas fiscais e acabaram conseguindo um refinanciamento espetacular no grande acordo da Timemania, concluído em 2007. Meros 3 anos depois o Flamengo já deve mais de R$ 50 milhões de impostos NÃO incluídos em qualquer programa de refinanciamento. Isso representa 40% da receita anual do clube, uma dívida “nova”, contraída em 4 anos!

A direção anterior entregou o clube em 2009 já devendo R$ 34 milhões de impostos “novos” e a direção atual não teve pudor em aumentar esse abacaxi para R$ 52 milhões. E, pecado maior, R$ 32 milhões são oriundos de impostos retidos na fonte – ou seja, crime de apropriação indébita. Em qualquer empresa uma prática reiterada dessa natureza daria demissão [N.doE.: demissão e em casos extremos cadeia] do CEO, mas no Flamengo ninguém parece estar ligando, o imposto retido e não recolhido foi adicionado ao fluxo de caixa.

Outro dado surreal é a ausência de informações dos credores particulares, dos bancos e dos advogados do clube, que simplesmente deixaram de informar as “cartas de circularização” enviadas pela auditoria.

Para os menos familiarizados com o tema, esclareço que o envio das cartas de circularização é um procedimento de rotina em auditorias e serve para que o auditor tenha certeza que todos os passivos da entidade auditada estão corretamente contabilizados e que os riscos de perda (ou possibilidade de ganho) em processos judiciais e administrativos foram avaliados – e, se for o caso, há previsão de recursos para serem quitados, quando chegar o momento de pagar a conta.

Eu respondo a essas cartinhas desde o meu tempo de estagiário, quando o Junior ainda jogava no clube. E posso garantir que nenhum escritório que se preze vai deixar de prestar essa informação, porque a retaliação do cliente é grave. Isso em se tratando de escritório de advocacia, que dirá um banco! Essa ausência de informações, totalmente atípica, só me faz pensar nas piores coisas: que há ações judiciais desconhecidas, empréstimos mal explicados, esqueletos ameaçadores que a ninguém é dado conhecer.

Aliás, a leitura dos principais credores privados é bem divertida. Em 2009 o clube devia cerca de R$ 740 mil para o BMG. E agora deve quase R$ 8,5 milhões. Bom, assim eu também viro patrocinador. Os “demais empréstimos”, ou seja, aqueles que a gente fica sem saber quem é o generoso financiador (em geral, milionários amigos, empresários do ramo ou até coisa pior), saltaram de R$ 630 mil para R$ 6,6 milhões.

O campeão do crédito no Flamengo é o “Banco Industrial”, para quem o clube deve R$ 34 milhões (dívida “velha”, herdada de gestões passadas, mas acrescida nessa gestão). Demorei para ligar o nome à figura, mas se trata do Bicbanco. É lá que os clubes tomam empréstimos dando em garantia o recebimento de futuras cotas de direitos de televisionamento, uma operação chamada em “financês” como “desconto”, porque é o abatimento que alguém faz para receber agora uma importância que só seria paga no futuro.

Em princípio, não há nada de errado, até porque o desconto bancário é a forma mais convencional e difundida de financiamento do capital de giro de todas as empresas, das minúsculas às gigantes. O que seria bom tornar claro é o quanto o clube vem sendo onerado com essa prática por conta dos juros incidentes – se bem que parece não haver alternativa para fugir desse credor, pois o Bicbanco parece ser o único na praça a dar crédito para a cartolagem. Eu só posso supor que o Bicbanco cobra uma taxa de juros bem compatível com a sua ousadia.


[N.doE.: vale lembrar que estes empréstimos do BicBanco referem-se a adiantamentos de cotas de televisão, o que vai impactar mais ainda as receitas efetivas mais à frente]

Para não dizer que não falei bem, eu acho positivo que o clube tenha conseguido reduzir as despesas gerais do futebol, de R$ 88 milhões para R$ 69 milhões – sendo que a folha de pagamento do futebol caiu de R$ R$ 67 milhões para R$ 52 milhões. Só lamento que mesmo gastando uma média de R$ 4,3 milhões mensais o clube tenha apresentado um resultado em campo tão medíocre ano passado.


[N.doE.: vale lembrar que o clube possui um “passivo a descoberto” de R$ 101 milhões. Ou seja, fosse uma empresa, estaria fechada há bastante tempo. Nas palavras dos auditores, que destaco abaixo, isso fica claro.]
E fico igualmente feliz ao ver a receita de marketing triplicando. É uma esperança de dias melhores.

No contexto geral, achei o balanço uma lástima, um exemplo perfeito de tudo o que não deve ser feito em matéria de gestão. O consolo é saber que o Flamengo não fez nada demais: apenas agiu rigorosamente dentro do padrão caótico e irresponsável de seu segmento de atuação, o dos grandes clubes de futebol.

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