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A sabedoria de João Saldanha

É difícil explicar o que era torcer para o Flamengo de Zico. Porque não era só a certeza de que éramos os melhores, mas ainda o sentimento de ser representado por um time que servia de modelo para o que queríamos ser em nossas vidas: vitoriosos, mas humildes; soberanos, mas solidários; virtuosos, mas aplicados. E foi assim que nos preparamos para a estreia na Taça de Ouro de 1983.

O adversário seria o Santos, cantado pela imprensa como uma nova força daquele começo de anos 80, muito por estar reforçado por Paulo Isidoro e Serginho, que resolviam com folga os velhos problemas santistas. Isidoro jogava mesmo por um time inteiro e Serginho figurava todo ano entre os maiores goleadores do país. Ainda havia a categoria de Pita e o insidioso João Paulo, o último ponta-esquerda driblador do país.

O Flamengo também tinha suas novidades. Depois de muitas brigas, Tita e Nunes haviam deixado a Gávea. Seriam substituídos por Robertinho e Baltazar, o Artilheiro de Deus. Sabíamos que Tita não seria substituído à altura por Robertinho, mas havia uma grande esperança de que Baltazar fizesse história com a 9 rubro-negra. Era incomparavelmente mais técnico do que Nunes, e tinha condições de dialogar em alto nível com Zico, Júnior, Lico, Andrade, Leandro, Adilio, todos íntimos de todas as curvas da bola.

Baltazar fez 1×0 logo no começo. Falha de Marola, é verdade, mas o novo avante estava muito à vontade com o Manto. Era meio caminho andado. Jogo que segue, o Santos melhorou, foi ao ataque, era mesmo um timaço. E quando o Santos mais ameaçava chegar ao empate, o Flamengo botou em prática a sua maior arma: o toque de bola.
A beleza do segundo gol daquela tarde só aumenta à medida que anos passam. Estamos cada vez mais distantes de um futebol como aquele. Por isso faço um convite. Acionem o player e vejam, com atenção, o gol de Zico.

Lico domina uma bola ainda no campo de defesa, de costas para o marcador. Já domina fazendo o giro, escapa da falta e sai para o jogo de cabeça erguida, com sua elegância à Beckenbauer. Toca de lado para Júnior e o Capacete manda de primeira para Zico, na altura da divisória. Percebam que Zico olha ao redor, como quem estuda o terreno, e então arranca. Vai até o ponto em que atrai a marcação para si e arma a Baltazar na esquerda. Baltazar recua para Júnior, que toca para Zico na meia-lua. A sequência normal seria devolver a Júnior, mas Zico toda de letra para Robertinho, que escora para Lico. Lico domina no peito e dá uma cavadinha na bola, achando novamente Júnior, que dá uma casquinha de cabeça de deixa Zico livre na marca do pênalti. Rei Arthur domina e dá um toquinho na saída de Marola, 2×0 para nós.

Um gol espetacular, de sonho, mas feito com tanta simplicidade que até parece fácil. Simplicidade era um dos segredos daquele time. Afinal, éramos simplesmente os melhores. No rádio, naquele distante 23 de janeiro de 1983, João Saldanha disse: “Se houver alguma justiça, Flamengo e Santos voltarão a se encontrar na final do campeonato. E, claro, o Flamengo será campeão”.

Sabia tudo o João Sem Medo.

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