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Procura-se um paradeiro – Os dez anos do gol de Pet, o sérvio

Toda vez que se comenta o gol do tricampeonato em uma roda de amigos o papo sempre cai na mesma pergunta: “onde você estava?” E sempre todo mundo tem uma história pra contar. “Estava no Maracanã e rolei na arquibancada”, “estava de plantão”, “casando”, “fumando um charuto” etc.

Sempre que a conversa chega nesse ponto dou um sorriso amarelo e desconverso. Sei que não estava no Maracanã (mal aí que contava centavos na época), mas não tenho nenhuma história pra contar. Não me lembro com quem estava, o que fazia e nem o que vestia. Não faço idéia do meu paradeiro porque só lembro do gol do Pet.
Pergunte-me do primeiro chute ao gol do jogo e eu não saberei. Me questione sobre o nome do locutor no canal que assistia e darei de ombros. Indague a qualquer momento quem fez o gol do Vasco e não lembrarei sem pensar bastante ou consultar o google. Mas fale do gol do Pet e vou te descrever cada giro da bola até estufar a rede.
Porque se não lembro de todos os detalhes do antes e depois é porque naqueles eternos três segundos antes da bola entrar me perdi de mim mesmo. Deixei de ser eu naquele goooool bendito. Minha certidão de nascimento mudou de “Tiago Cordeiro Ferreira” para “Gol do Pet aos 43 minutos da Silva”. Sem hífen ou H.
Da Silva porque passei a ser de uma família imensa de 35 milhões de sem-nome. Todos nós perdemos nossos pais, filhos e parentes naquele instante para passarmos a ser irmãos. “Muito prazer, me chamo Não Deu Pro Helton”. “Olá, sou Alessandro Rezando. Como vai?” A arquibancada virou geral e os torcedores viraram torcida. Ninguém era alguém naqueles três segundos.
Só por três segundos? Rapaz, os três segundos nunca acabaram.
O gol do Pet é o inconsciente coletivo definitivo em que redescobrimos o porquê de torcermos para o Flamengo. Mais: o gol do Pet é o Big Bang rubro-negro particular. É a gênese de um paradoxo temporal. “Sou flamenguista há 21 anos, mas acabo de me tornar flamenguista”. É o momento definitivo: você podia até torcer para o Flamengo, mas passou a torcer para o Flamengo ali. Eu sei que é difícil de entender. Peça ao Michael J. Fox explicar esse papo de paradoxo. Já não lembro mais direito.
No fim das contas, os dez anos do gol do Pet não são uma data para se recordar da bola entrando. Disso nem eu esqueço. Esse aniversário é o momento de lembrarmos de tudo que não importava. “Puxa, o Adriano estava magrinho”, “olha lá, o Pet caiu todo torto na comemoração”, “caramba e o cara do charuto, hein?” Sinceramente, se o futebol é a coisa mais importante entre as desimportantes, 35 milhões de torcedores proclamaram o 27 de maio como o dia mundial das pequenas coisas antes e depois de tudo. E tudo era… Bom, você já sabe. Todo mundo sabe.
Só queria saber mesmo onde está aquele cara que ficou fumando charuto numa hora daquelas… Bom, deixa isso pra lá. São Judas Tadeu acaba de chegar no Maracanã.
Tiago Cordeiro é jornalista, flamenguista e gerente do projeto @jogandojunto, canal oficial da Copa Santander Libertadores. Ele sabe quem é e da onde veio e sempre responde quando lhe perguntam: “Gol do Pet, muito prazer. À direita”.
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