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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.

Não costumo assistir ao Jogo Aberto. Aliás, nunca fui de dar audiência e pageview a netos, miltoneves, rimolis, avallones e quetais, “somos todos paulistas”. Torcem e distorcem, ressoam uma veia bairrista que lhes é típica e histórica (alguém lembrou os emboabas?).

Mas, enfim, quis o acaso que, enquanto relaxava após o tenso Fla-Flu, eu rodasse meu controle remoto a esmo. Do nada surgiu a figura esquálida e raivosa do Neto, ex-jogador mediano, um Pet piorado, que vinha dedilhando algo sobre o Flamengo. Curioso, resolvi ouvir a pinta. Raciocinava: “não tem Cruzeiro, Inter, não tem Botafogo. Nenhum desses assusta. Mas o Flamengo vem forte. E quando vem forte o Flamengo chega. E chega mesmo. Abram o olho com o Flamengo.”

Estamos na OITAVA rodada. Eles já estão assustados.

Essa semana, em “homenagem” ao adversário de domingo, deixo o relato de um jogo histórico, que deveria ser um catecismo a todos os que um dia duvidaram da força e do caráter singular da Nação chamada Flamengo. Boa leitura.

A Queda do Porco Galático

1994. Terra arrasada talvez seja um termo ameno para se referir aos estragos causados por uma gestão, no mínimo, equivocada da Diretoria do Flamengo, que em pouco menos de um ano se mostra capaz de destruir uma base de jogadores. Pior, destrói todo o time. Enquanto isso, Zinho brilha no Palmeiras, Djalminha vem arrebentando no Guarani, Marcelinho começa a fazer seu nome no Corinthians e Júnior Baiano é titular no São Paulo de Telê. Da brilhante equipe de 1990 só restam alguns coadjuvantes, como Fabinho, Marquinhos, o goleiro Adriano e Paulo Nunes, mas este já vem sendo assediado e deve sair no final do ano. A política da diretoria é clara. Sem dinheiro, vendem-se as preciosas pratas da casa para pagar dívidas. E os reforços são medalhões de custo-benefício duvidoso, como Carlos Alberto Dias, Charles, Valdeir e Boiadeiro. Mas, para o Brasileiro, nem mesmo esses jogadores rodados permanecem. Não há dinheiro. O clube está quebrado. Pela primeira vez desde a instituição do Campeonato Brasileiro, o Flamengo entra para fazer figuração.

É a hora de subir apressadamente garotos como Índio, Marçal, Hugo, Magno, Rodrigo Mendes e Rogers, lançados às feras, às pressas, sem qualquer lastro. As referências são os coadjuvantes Nélio, Gelson Baresi, Fabinho, Charles Guerreiro, Paulo Nunes. O goleiro Gilmar ainda está lá, mas, tetracampeão e consagrado, conta os dias para a aposentadoria. Sem craques, a torcida elege um garoto franzino, muito habilidoso, destaque na reta final do Estadual, e dotado de uma assombrosa semelhança física com o Zico garoto. Seu nome, Sávio.

O desempenho na Primeira Fase do Brasileiro é até surpreendente, com vitórias expressivas (3-0 Sport, 1-0 Bragantino, quebrando incômodo tabu), incluindo uma sonora e inesquecível goleada sobre o “poderoso” Corinthians, rotundos 5-2 no Maracanã, show de Sávio e Magno (apelidado carinhosamente de Romagno pela Nação). Mas, iniciada a Segunda Fase, logo a realidade mostra sua crua face. Sem elenco, a equipe sucumbe à inexperiência e começa a empilhar resultados negativos em sequência. Em quatro jogos, perde três, segue sem vencer. A tabela, inflexível, grita: próximo jogo, Palmeiras no Maracanã.

Bicampeão paulista, campeão brasileiro, o galáctico Palmeiras de Wanderley Luxemburgo segue invicto, goleando e encantando. Escorado pelo gordo aporte lácteo da Parmalat, o alviverde monta um esquadrão, com Rivaldo, Edmundo, Evair, Roberto Carlos, Zinho, Antônio Carlos. Só nome de primeira linha, uma equipe que vai navegando com sobras, sem adversário a lhe rivalizar, afora talvez o decadente São Paulo ou o surpreendente Guarani de Amoroso. Ninguém, em sã consciência, acredita em outro resultado que não seja uma tranquila e folgada vitória palmeirense contra os garotos flamengos. Muitos falam em goleada.

Amuada, a Nação Flamenga aparece tímida, cerca de dez mil. A arruaceira Mancha Verde chega gritando e xingando, “queremos golear”. Rápido exame das escalações provoca desalento até nos mais ortodoxos. Pois a marcação da mortal dupla Edmundo e Evair ficará a cargo dos toscos Índio e Paulo Paiva (ex-Bangu). O treinador Carlinhos ainda entra com Gélson Baresi, que cuidará de Rivaldo. Charles Guerreiro e Fabinho tentarão bloquear as subidas de Zinho e Roberto Carlos. Na armação, Marquinhos, Nélio e Rodrigo Mendes buscarão acionar um isolado Sávio, que sozinho brigará contra Cléber e Antonio Carlos, uma das mais sólidas defesas da competição.

Mas o futebol é sedutor. E ensina. E encanta. Inicia a partida, o Flamengo parte com ímpeto suicida ao ataque. Toma a iniciativa. Sim, o Maracanã emula as Termópilas, e os meninos de Leônidas querem morrer. Perecer pelo seu Flamengo, mas sucumbir lutando, brigando, e comendo grama. O bloqueio no meio-campo é alucinado, enlouquecedor. E de repente se dá o milagre, o impensável, a magia que somente quem professa a fé flamenga vê capaz de se materializar: o Flamengo joga como o favorito e acua o Palmeiras. O time verde mal passa do meio-campo, é dominado, se vê surpreendido e sem alternativas para deter um bando de pivetes. Edmundo tenta jogada individual no meio, perde para Marquinhos, que aciona Fabinho, daí a Sávio. O camisa 10 avança, corre, e corre, aproxima-se da área, vem pela esquerda. Nélio espera no meio, Velloso se prepara para cortar o cruzamento. Mas Sávio vê a brecha e enfia a bomba. Ângulo, trave, rede. Treze minutos, o Flamengo faz 1-0.

O Palmeiras demora a se refazer do susto, mas aos poucos começa a controlar a partida. Quer dizer, equilibrar as ações, porque a garotada agora tem a Nação ao seu lado. E toca uma correria suicida, os meninos literalmente atiram-se à bola. E há Sávio. Vem Amaral, vem César Sampaio, vem o fraco Gustavo. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue parar aquele infernal anjo galego, que sozinho distribui com os pés palavras do mais puro terror à consagrada defesa alviverde. Atrás, o idioma falado é apenas um, o da bicuda e da porrada. E a massa grita, empurra, incentiva, joga junto com Gilmar, ajudando o veterano goleiro a realizar uma última exibição de gala.

Luxemburgo tenta de tudo, tira volante, põe atacante (Paulo Isidoro, Maurílio), mas o Palmeiras não vai chegar ao gol. É trave, é Gilmar, são os zagueiros (Paulo Paiva sente o esforço e sai, entrando o intrépido Marçal), é a Nação. Mas esse sábado é dia de Flamengo, São Judas já ajeitou tudo. E falta pouco, muito pouco para o final, alguns minutinhos. O aristocrático Palmeiras parte com tudo pra cima, vai no chutão mesmo, virou briga de rua. Marquinhos, que nesse dia incorpora um Andrade, não perde uma bola a olho nu, recebe limpa e lança Sávio. Mano a mano com o lento Antonio Carlos. Vai ter confusão. O estádio se ergue. Sávio passa, vai entrar sozinho. Mas o zagueiro atira o menino ao chão, é pênalti. Vai Sávio, viva seu momento. Bata o pênalti, chute colocado, aperte o coração de sua Nação ao ver Velloso roçar na bola e exploda vendo a criança morrer mansa no canto esquerdo. O placar exibe, brilhante e orgulhoso, Flamengo 2-0 Palmeiras. O Porco está morto, descabaçado.

O campeonato seguirá em sua fria lógica. O Palmeiras ganhará o bicampeonato, o Flamengo amargará seu período de longa transição, uma noite que ainda durará anos. Mas, por mais que ameace vergar sob o peso de administrações ineptas e incapazes, por mais que o “fogo amigo” acosse-lhe a grandeza e lhe roube o protagonismo, sempre haverá um sábado qualquer, sempre haverá um sinal, uma demonstração da mágica força sigular, inerente ao Flamengo, e apenas ao Flamengo, um aviso de que sua grandeza é única e segue pulsante, intacta.

Por isso nos temem.

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Sobre flamengonet

jornalista

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