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FLAMENGÔMETRO nº 65

CONTOS GAUCHESCOS E A BATALHA DOS QUE NÃO SE AFLIGEM
Eis que o destino mexeu suas cordinhas para que o galático Ronaldinho ressuscitasse justamente às vésperas de enfrentar seu ex-time.O Flamengômetro mantém-se no patamar de 73%, e depois da Epopéia de 27 de Julho, só me restar pedir ao time que mantenha seu foco, repila qualquer oba-oba, e enfrente o Grêmio com a mesma tenacidade, sem se deixar levar pela atmosfera de missão já cumprida. Ainda temos um longo campeonato pela frente.
Isto é tudo que consigo escrever nesta semana, pois depois dos noventa minutos que valeram um século, eu diria que até meu cérebro e meus dedos estão roucos, pensar e digitar em um texto que expresse tudo o que gostaria de escrever sobre a última quarta está além de meus talentos.
Limitar-me-ei (com mesóclise) e descrever alguns lampejos de flashback que ocorrem à minha cabeça:
1) Dia 27/07/2011, 21h50, 20 segundos de partida : …%¨%$#%*&*&#@%}{?% Wellinton!!!! Nosso becão começa a partida com uma saída errada, e acaba obrigado a fazer uma falta na entrada da área.
2) 4 min, 1º Tempo: Bobeira da zaga, Borges abre o marcador. Tensão.
3) Jogada estranha, Neymar arrisca o gol e sem querer acha Borges, com a liberdade de um astronauta no vácuo, que aumenta a vantagem. Ouço gritos eufóricos na rua. Não sabia que tinha tantos vizinhos santistas.
4) O Flamengo passa a atacar o Santos, e dos pés de Luiz Antônio saem ótima oportunidades, mas a bola não quer entrar.
5) Neymar faz uma grande jogada, golaço de gênio, driblando Angelim pelos lados ao mesmo tempo. Estranhamente não reclamo, não xingo. Sinto algo estranho no ar. Sinto-me feliz pela grandeza da jogada, e confiante que o time está bem o suficiente para pelo menos diminuir o estrago. Ao mesmo tempo, desfralda-se o prenúncio de uma goleada. Lá fora, desenrola-se uma festa estranha com gente esquisita, como diria Renato Russo, e acho que não são exatamente torcedores dos Santos que estão gritando. Tenho a impressão de ver um arco-Íris no escuro, como cantaria o falecido Dio. Não sinto vergonha, raiva nem aflição, apesar da goleada iminente.
6) Bola cruzada, chorada, gol de Ronaldinho. Será o gol de honra?
7) Mais um cruzamento, Thiago Neves, mas um que se poupara para esta partida, sobe mais que os outros e cabeceia. O goleada virou uma derrota honrosa. Curiosamente, não escuto mais gritos na vizinhança.
8) O empate está próximo, mais um cruzamento, bola em cima da linha, Deivid vai marcar… com o pé esquerdo ela pisa na bola…que vai entrando…mais com a outra canela (teria ele duas pernas esquerdas?) ela consegue a proeza de salvar o próprio gol. Grito palavras de baixo calão.
9) A reação fantástica vai acabar na velocidade do garoto Neymar, que força Willians a derrubá-lo (fora da área? dentro da área? ou teria se jogado?). Pênalti para o Santos. Com 4×2, as coisas vão ficar mais difíceis. Estranhamente assisto ao lance com um sorriso no rosto. Elano pede para cobrar. O mesmo Elano que ajudou a mandar o Brasil para o espaço. Mas está em casa, e sua torcida o apoia. Vai se reabilitar logo em cima do meu time? Ele corre e bate, não para cima, mas com uma cavadinha maliciosa (como o uruguaio de traseiro depilado amado pelos botafoguenses) ele vai deslocar Felipe e marcar o quarto tento. A bola segue na direção do gol. O tempo parece congelar. Posso sentir o grito de gol esperando na garganta dos antiflamenguistas extasiados. Estranhamente, a bola vai diminuindo sua velocidade, como se 35 milhões de mentes formassem um campo de força sobrenatural. Felipe, que ia cair no canto, é trazido de volta pelas mesmas forças invisíveis e apara a bola – com o peso de uma pluma, agora – com um tapinha, rola no peito, faz embaixadinhas, tripudia, sai jogando, sem tempo nem para comemorar o feito.
10) O Flamengo é rápido ao ressurgir das cinzas e chega ao empate num córner, quando o mesmo Deivid das Duas Pernas Esquerdas, cabeceia com a nuca e faz um gol que nem Newton e Einstein explicariam. Se existir futebol no Planeta Bizarro das histórias do Super-Homem, eles devem jogar como o Deivid. A goleada transforma-se em empate, em apenas um tempo de partida. Já temos um jogo memorável, mas o segundo tempo ainda reservaria mais surpresas…
11) Mal começa, e o topete do garoto Neymar mais uma vez endoida a defesa do Fla e coloca o Santos mais uma vez na frente. 4×3, e mais uma vez, reajo mais com admiração pelo craque e sua jogada do que com revolta pela inércia da defesa. Estamos na Era de Neymar.
12) A genialidade do garoto chama o quase veterano à ação. Ronaldinho Gaúcho chama a responsabilidade, e pela primeira vez, parece tomado por uma seriedade pesada. Distribui, tabela e combate. Está em todos os lados. O Flamengo reage e encurrala o Santos. Neymar puxa alguns contrataques, mas a defesa sua sangue para neutralizá-los. Esquecendo-me da lógica, começo a sonhar com uma virada impossível.
13) Ronaldinho recebe a bola entre cinco defensores santistas. Corta aqui, costura ali, puxa, desvia. A parede de pernas só consegue impedir sua passagem com uma falta na entrada da área. Respiro fundo. Imagino a bola no ângulo esquerdo do goleiro. A barreira adivinha meus pensamentos e pula para interceptar a bola. Mas a bola não está lá. O gaúcho engana a barreira, engana o goleiro, e engana os espectadores. Quando o Brasil inteiro que assiste ao jogo percebe seu engano, já é tarde. Lá está a bola no fundo das redes. Só o replay vai elucidar o lance.
14) O empate quase não é comemorado, pois o desejo passa a ser a vitória. O Flamengo envolve o Santos, e num contrataque fulminante, e Thiago Neves rola para que Ronaldinho Gaúcho – tinha que ser ele – finalize: o desvio em Arouca é molecular e a bola morre mansa no fundo das redes. Um só grito ecoa pela vizinhança, pelo país, pelo planeta. Eu berro na sala, pulo e soco o ar, o sofá, as paredes. Como há muito tempo não fazia. Definitivamente estamos fazendo história.
15) Então o Professor Vanderlei Luxemburgo decide fazer sua última substituição. Vejo Jean se aquecendo para entrar, e meu coração pára. Thiago Neves entra sozinho na área e perde um gol feito, que selaria o resultado. Seria uma maldição pairando no ar? No estado alterado de consciência em que me encontro, meus xingamentos soam como aramaico. O chão foge de meus pés, e sinto-me arrebatado em espírito como meu xará evangelista. Flutuo nas trevas, com futuros apocalípticos passando em frente de meus olhos. Vejo Jean falhando e permitindo que Neymar faça dois gols num intervalo de dois minutos. Seguem mais visões transcendentais, com o mesmo Jean, qual um Gonçalves revivido, encobrindo Felipe e impedindo mais uma vitória, ou grotescamente passando a bola para que o freguês de vidas passadas Alan Kardec selasse o empate na Vila Belmiro…O apito final desperta meu espírito atormentado daquele pesadelo irreal, trazendo-me de volta ao plano físico. No placar: SANTOS F. C. 4 x 5 C.R. FLAMENGO. CONSEGUIMOS. Berro na janela até ficar rouco: sei que não fui o único. ESTA NOITE SERÁ ETERNA.
16) Para encerrar, repito aqui o último parágrafo do Flamengômetro nº 64, involuntariamente profético: “A hora é essa, Vanderlei, de mostrar ao mundo que você não desaprendeu, que o verdadeiro Flamengo não foge da luta e torcer para por um contronto na Vila Belmiro que tem tudo para ser o melhor jogo do campeonato.
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jornalista

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