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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.
Essa semana, quero começar a falar um pouco de um dos maiores ídolos da história flamenga. Um jogador que vários torcedor sabem mencionar, mas nem todos têm idéia das suas façanhas e do grau de idolatria que esse atacante franzino e goleador conquistou na sua passagem pelo Flamengo.

Dessa forma, inicio hoje uma pequena série contando histórias de Dida (não necessariamente em ordem cronológica). Boa leitura.

DIDA, PARTE 1 – A LUA DE MEL

1956. O mais badalado Campeonato Carioca da história até aqui (o de 1955) apresenta um desfecho sensacional, cinematográfico. Após uma final em que foi impiedosamente goleado, e poucos dias depois conseguiu devolver a humilhação ao América, o Flamengo acaba de conquistar seu segundo tricampeonato, o primeiro da história do Maracanã, em jogo assistido por mais de 200 mil pessoas (público extra-oficial), entre eles o Presidente Juscelino Kubitschek. E, diante das atenções de todo um país, brilhou intensa e cintilante, a estrela de Dida, subitamente alçado ao posto de celebridade. De fato, em cada rua, repartição, boteco ou padaria só se fala, só se comenta, só se exalta Dida, que ascende da condição de reserva ao posto de estrela maior.

E Dida, do alto de seu porte mirrado, sorri um sorriso tímido, quase simplório, ao ser abordado. Sem jeito, lembra-se do susto ao ser chamado pelo extravagante Don Fleitas Solich, “mañana tu vas a jugar”, sacado de uma reserva com a qual já andava resignado. Irritado com a estrondosa derrota no segundo jogo da final (1-5), Solich resolvera sacar Paulinho, justo o artilheiro do time, para colocar Dida. Estupidez, insensatez? Pode ser, mas esse tipo de atitude e é que fazia de Solich o Feiticeiro.

Dida nunca se deslumbrara desde que chegou ao Rio. Sabia que a concorrência era muito pesada, gente do porte de Evaristo, Índio, Joel, Paulinho. Ainda jovem, o garoto alagoano passou um ano nos aspirantes, desde cedo encantando uma torcida que chegava mais cedo ao Maracanã para vê-lo em ação. Solich vinha colocando o menino aos poucos, e Dida sempre correspondendo com gols, sempre mostrando personalidade. Mas agora Dida é uma realidade. Após o tri, não mais a reserva, não mais aspirantes. Dida está pronto, como descobriu da pior forma possível o América.

QUATRO gols. Ao inferno se o árbitro Mário Vianna só anotou três gols seus na súmula. Dida sabe que foram QUATRO gols na final, quatro estocadas que cada torcedor flamengo fez questão de enfiar no âmago americano, devolvendo cada sílaba das gozações e palavras de escárnio recitadas por uma seita arco-íris cansada e iludida com a perspectiva de um improvável insucesso flamengo.

Passa um filme na cabeça de Dida, um maravilhoso enredo, onde Duca chuta forte e o jovem alagoano apenas desvia, engana Pompéia e abre o placar. O gol é de Dida, mas é de Duca. Pausa, na cena seguinte Evaristo cruza baixo, Dida vem na corrida e cabeceia forte, Pompéia larga e Dida, sem freio, pega a sobra e mete 2-0. Festa, torpor, barulho, muito barulho. Escuro. Próximo ato, agora um pouco de drama, bem ao gosto flamengo, o rubro-negro segura o 2-1 com dificuldade, contragolpe, Evaristo faz um carnaval e chuta, a bola bate num zagueiro e sobra limpa, gentil, Dida vem de novo na corrida, emenda, faz 3-1 e explode o estádio. A lembrança de Dida começa a se tornar um sonho, agora Mário Vianna está no centro do campo, vai acabar a partida, mas a torcida não festeja, quer mais gols, quer goleada, quer sangue, o Flamengo vai todo à frente, o rústico zagueiro Pavão manda uma bomba de longe, Pompéia adiantado é encoberto, travessão, na sobra vem Dida, que salta uma acrobacia pra escorar para o fundo, 4-1, tri, alma lavada, nuvem de companheiros, abraços, lágrimas, barulho, muito barulho. E escurece. E Dida abre os olhos, feliz. E suspira. Não, não é um devaneio lírico. O humilde, quase desdentado alagoano é agora o Senhor de uma Nação.

Mas, com a fama, vem o assédio. Os jornais, histéricos, falam em ofertas diárias, reportam que representantes italianos são esperados no Rio a qualquer momento, maleta cheia de dólares, para tirar Dida do Flamengo. A torcida flamenga estaca, hirta de ansiedade. Após a festa, o êxtase, maio acena com dias tensos, preocupantes. Até que, finalmente, um jornal consegue encontrar Dida, interromper-lhe as férias e tratar do assunto com o craque. A resposta vem na forma de um bálsamo desconcertante.

“Sou jogador do Flamengo. Preço do passe? Não sei e isso não me interessa, porque não cogito, em futuro próximo ou remoto, trocar de camisa. No Flamengo é que me sinto bem, e vestindo a camisa do Flamengo é que sinto vontade de lutar.

Acho que isso acontece porque sou Flamengo.

Assim como sou alagoano.

Assim como sou brasileiro.”

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Sobre flamengonet

jornalista

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