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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.

Hoje continuo a série sobre o grande ídolo Dida, dessa vez falando sobre a estreia do craque no Flamengo (o outro post pode ser lido AQUI). Boa leitura.

Rebenta um ídolo

1954. O Flamengo vive um momento mágico, em permanente lua-de-mel com sua imensa torcida, já consolidada por todo o país. O título carioca de 1953, dando fim a um longo jejum de nove anos, assinala de forma definitiva a passagem do bastão da hegemonia do futebol da cidade, em que o Expresso da Vitória vascaíno vai saindo de cena, reposto pelo Rolo Compressor Flamengo de Fleitas Solich. Um time que se propõe a um jogo extremamente ofensivo, aproveitando uma das mais fabulosas e reluzentes gerações de atacantes produzidas por uma equipe de futebol em toda a sua história.

Com efeito, lá estão o arisco ponta-direita Joel, dono de um cruzamento certeiro e um chute mortífero, os avantes Benitez e Índio, dotados de uma fantástica índole artilheira, o garoto Paulinho, que já mostra desde cedo vocação para o gol, e o virtuoso Evaristo, capaz de domesticar e devolver macio qualquer tijolo que lhe é atirado. Com o disciplinado Zagalo e o maestro Rubens (o Dotô Rúbis), o Flamengo monta um ataque capaz de empilhar goleadas e suscitar pavor nas defesas mais intransponíveis.

E o início do Campeonato de 1954 vai mostrando que a supremacia flamenga é uma realidade. O time já acumula sete vitórias em sete jogos, é o líder absoluto e mostra o melhor futebol da competição, apontado desde cedo como o grande favorito ao bi. Mas Solich começa a encontrar problemas, especialmente diante da dificuldade de abrigar tantos craques na equipe. Além disso, Benítez e Zagalo se contundem, e desfalcarão o Flamengo na partida seguinte, em que a tabela marca um esperado encontro com o Vasco, justamente o vice-líder.

O Vasco, embora não repita os tempos do Expresso da Vitória, ainda possui uma equipe forte e respeitada, onde já começa a despontar um sistema defensivo sólido, comandado pelos jovens Bellini e Paulinho de Almeida. O goleiro Barbosa, o médio Eli do Amparo e os atacantes Ademir Menezes e Sabará dão o suporte para o surgimento de garotos talentosos, como o promissor atacante Vavá. E, sob o comando do veterano Flávio Costa, o time já mostra força ao bater o Botafogo (3-1) e seguir o Flamengo de perto, a apenas um ponto do rubro-negro.

A proximidade do grande clássico paralisa o Rio de Janeiro. O jogão é visto como um tira-teima, um choque entre a experiência do Vasco e a força flamenga. A vitória, além da liderança, servirá como um importante combustível psicológico, pois o vencedor emergirá incontestável como o Melhor do Rio. Solich e Flávio Costa sabem disso, e montam suas equipes no mais absoluto silêncio, uma verdadeira guerra de nervos. Chega o grande dia do clássico, e o Feiticeiro assombra a cidade com mais uma de suas célebres invenções. No lugar de Benitez entrará um aspirante, um garoto franzino que fará sua primeira partida pelo Flamengo. Um tal de Dida.

Nem o mais fanático e exaltado torcedor flamengo entende a ideia de Solich. Nada contra esse Dida, que até tem mostrado qualidades nos treinos e jogos dos aspirantes. Mas colocar um garoto imberbe no jogo mais importante do campeonato soa como uma insensatez difícil de digerir. A defesa do Vasco, tida como a mais forte do Rio, irá mastigar o garoto como aperitivo, trovejam as cornetas nervosas. E a indignação vai à histeria quando o Feiticeiro anuncia que irá também lançar o mirrado ponta Babá, substituindo Zagalo. O jeito é torcer o nariz e esperar que Don Fleitas saiba o que está fazendo. Normalmente ele sabe…

Domingo, sol, Maracanã completamente lotado, mais de 100 mil, recorde de renda quebrado. Desfile militar, helicóptero sobrevoando o estádio e deixando cair no centro do campo a bola do jogo, muitos aplausos, coros de provocação e festa, enfim o carioca vive um lindo dia de declaração de amor ao futebol. As duas equipes entram, perfilam-se, o árbitro inglês checa todos os detalhes. Vai começar o jogão. Trila o apito. E a lógica vai pro espaço.

Dida será marcado pelo médio Eli do Amparo, jogador consagrado, Copa do Mundo nas costas, normalmente lembrado para seleções brasileiras. Pois na primeira bola recebida, o garoto ignora o cartel de Eli e aplica-lhe uma caneta. O estádio silencia, estupefato. Logo depois, Dida procura uma tabela com Babá, Eli vem ao seu encalço e atira-se para deter o lance. Cai estrondosamente no chão, enquanto Dida, ensaboado, segue jogada que irá parar nas mãos de Barbosa. A Nação entende estar diante de um jogador incomum, daqueles cometas que aparecem muito esporadicamente. E se prepara pro banquete.

Logo nos primeiros minutos, a corajosa ideia de Solich mostra ter sido acertada. A presença de Babá, antigo companheiro dos aspirantes, deixa Dida inteiramente à vontade. O menino, com extrema personalidade, chama o jogo, realiza tabelinhas envolventes com Rubens, triangula com Babá na esquerda e, acima de tudo, enlouquece Eli do Amparo. Como dirá a crônica ao final do jogo, vai passando por Eli como se Eli não existisse. Caneta, chapéu, drible da vaca, todo um recital desmoralizante vai sendo executado em cima do célebre Eli. Nesse momento, o aspirante parece Eli. Dida é, de longe, a grande figura em campo, sendo o ponto de partida de todas as jogadas flamengas. O rubro-negro vai dominando completamente as ações, e o gol parece próximo. E finalmente aparece, quando Dida gira seu corpo franzino em cima de Eli e lança Babá, que vai entrar na área mas é derrubado por Paulinho. Falta, que Rubens cobra com a habitual classe, bola no ângulo, Barbosa imóvel, espectador: Flamengo 1-0.

Antes do intervalo, um duro golpe. Cansado de perseguir Babá, outro que vem encantando a torcida, o lateral Paulinho de Almeida dá um coice e tira o garoto de campo, deixando o Flamengo com dez jogadores. E assim termina o primeiro tempo, para alívio do desamparado Eli.

Segundo tempo, o Vasco, aproveitando a vantagem de um homem, avança o time e começa a incomodar o gol de Garcia. Mas a criticada defesa flamenga está bem, joga com seriedade e rechaça, viril, todas as investidas cruzmaltinas. Afobado, o Vasco avança exageradamente e cede espaço. Muito espaço. Não se dá espaço ao Rolo Compressor. Não se dá espaço a Dida. O garoto, já dono da partida, puxa um mortal contragolpe que termina num arremate a gol. A bola resvala no defensor Dario e sobra para Joel, que cruza para Índio, sempre bem posicionado, escorar e ampliar a vantagem, Flamengo 2-0, aos 14′ da segunda etapa.

Com o segundo gol, o Flamengo recua e se acomoda em excesso. O castigo vem em dois minutos, quando o garoto Alvinho aproveita uma confusão e diminui a desvantagem, recolocando o Vasco no jogo. Com dez e já sentindo o cansaço, o Flamengo irá sofrer para segurar o 2-1. Mas o Vasco não consegue exercer nenhuma pressão mais forte, seja pela excepcional partida da defesa flamenga, seja pela exuberante atuação de Dida, que agora flutua por todo o campo, prendendo a bola, driblando todo vascaíno que lhe aparece pela frente, espalhando risadas que ecoam cruéis por todo o Maracanã. A defesa do Vasco está sendo demolida, tijolo por tijolo, por um garoto nordestino aspirante que nunca jogou no time principal do Flamengo. Nem amistoso.

O Flamengo ainda perde, num contragolpe, a maior chance de alterar o placar, quando Índio, livre, carimba a trave de Barbosa, mas ao final da partida confirma a vitória por 2-1, a liderança e a virtual hegemonia da cidade, que será ratificada com o bicampeonato dali a alguns meses, curiosamente contra o próprio Vasco (outro 2-1). Não há mais dúvidas, o Rolo Compressor é o dono do Rio de Janeiro. Estará um novo tri a caminho?

Quanto a Dida, ainda irá aguardar um pouco para enfim ser efetivado. Preocupado com um possível deslumbramento de seu pupilo, Solich ainda o mantém nos aspirantes, mas a diferença é que o Maracanã começa a encher mais cedo, com a torcida flamenga interessada nas atuações do seu jovem futuro ídolo nas preliminares dos jogos. Desde cedo, começa a criar com Dida um laço de indissolúvel carinho e idolatria. Sempre sábia, a Nação já intui que daqueles pés mirrados jorrarão muitas alegrias e glórias.

Um ídolo está se formando.

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jornalista

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