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Alfarrábios do Melo


Saudações flamengas a todos. Terminado o primeiro turno, estamos ali, no bolo. Pontos perdidos bobos nos tiraram a chance de liderar, mas não adianta desesperar muito, porque perder pontos inesperados é algo previsível nesse campeonato. De qualquer forma, vai começar o funil, a reta final, e o aproveitamento contra esses times “de menor expressão” (ou pequenos, como queiram) terá de ser aprimorado. A começar pelos próximos jogos.

Hoje deixo a penúltima parte da série sobre o Dida, começando a falar de mais um título conquistado bem ao gosto flamengo, do tipo “deixou chegar…” Essa conquista mostra, também, a afirmação definitiva de Dida em âmbito nacional, calando seus críticos mais ferozes. Boa leitura.

Santos de Pelé? Prazer, Flamengo de Dida

1961. Após uma sensacional e sofrida vitória sobre o Vasco (2-1), o Flamengo se classifica para a fase final do Torneio Rio-São Paulo. No “Grupo dos Cariocas”, o rubro-negro faz uma campanha lastimável, com cinco vitórias e quatro derrotas, marcando 12 gols e sofrendo 20. A equipe sofre várias derrotas contundentes, com destaque para a pior goleada sofrida pelo rubro-negro no Maracanã, 1-7 para o Santos de Pelé. Mesmo assim, o Flamengo, a duríssimas penas, consegue se classificar em terceiro, agarrando-se à última vaga disponível no grupo (os outros classificados são Vasco e Borafogo). Na “chave dos paulistas”, classificam-se Palmeiras, Corinthians e Santos.

Ironicamente, o treinador Fleitas Solich mantém-se otimista. O Feiticeiro acredita ter, enfim, encontrado uma formação mais equilibrada e consistente para o Flamengo, com a ascensão dos garotos Carlinhos, Joubert e Germano (irmão de Fio), que se juntam ao demolidor ataque formado por Joel (de volta, após passagem pela Espanha), Dida e Henrique, aos vigorosos defensores Jordan e Jadir, e ao goleiro Ari. Mas a joia é um menino alto, com forte personalidade, capaz de cantar e armar o jogo, e detentor de um chute fortíssimo com a esquerda. Seu nome, Gérson.

Esse time inicia a temporada com uma conquista bastante expressiva, o Torneio Octogonal, em que o Flamengo superou Corinthians, Vasco, Boca Juniors e Nacional-URU. Mas, no Rio-São Paulo, sofre com alguns desfalques e faz uma péssima primeira fase. Mas não é o momento de lamentos, a Fase Final inicia com todos do zero. O primeiro jogo é contra o forte Palmeiras, no Maracanã. E o Flamengo, embalado por sua fanática torcida, surpreende os críticos e vence com autoridade, 3-1 com direito a um golaço de bicicleta de Joel. Agora, o encontro é considerado mais complicado. Vem aí o temido Santos. No Pacaembu.

O Santos de Pelé vive um momento mágico. O bicampeão paulista atropela sem piedade seus rivais na Primeira Fase do Rio-SP, termina a primeira fase na liderança absoluta da competição, com uma média superior a QUATRO gols por partida. Faz 7-1 no Flamengo, 6-1 no América, 5-1 no Vasco. Não parece haver limites para a turma de Pelé, Coutinho e Pepe. Pelé, que anda voando, dribla todo o time do Fluminense e ganha a famosa placa no Maracanã. O Santos é o soberano favorito para a conquista de qualquer coisa que se dispute em 1961. Há um problema para o jogo diante do Flamengo. Pelé está fora, contundido. Mas poucos se preocupam. Ninguém acredita que o Santos terá problemas diante de um Flamengo ainda em afirmação. Mas o Flamengo ainda não esqueceu a humilhação da Primeira Fase. E um Flamengo mordido é um adversário muito, mas muito complicado.

Cerca de 15 mil pessoas vão ao Pacaembu acompanhar o clássico (o baixo público em SP é recorrente nos jogos do Santos, não é por acaso que sua diretoria prefere o Maracanã). Além de Pelé, o goleiro Gilmar também está fora. O treinador santista aproveita e lança o atacante Lima, destaque no Juventus paulista. O árbitro Alberto G Malcher dá a saída, e o Santos busca, desde o início, demonstrar sua pretensa superioridade, com uma proposta de jogo ofensiva, de muitos toques e movimentação constante. Mas o Flamengo está preparado, Solich monta uma sólida linha no meio com Carlinhos, Gerson e os laterais mais presos, atentos às investidas de Dorval e Pepe. Além disso, o Feiticeiro toma uma decisão aparentemente suicida. Adota uma postura agressiva, avança o time. Vai encarar o Santos em igualdade.

A manobra de Solich funciona. Atordoado, o Santos não está preparado para “marcar”. Acostumado a “ser marcado”, o time sente e não consegue deter as investidas flamengas. Além disso, é um Flamengo ferido que está do outro lado. Um Gérson que começa a ganhar todas as bolas no meio e a lançar compulsivamente os velozes ponteiros Joel e Germano. Um Carlinhos que não toma conhecimento de Mengálvio e manda no meio-campo, com seus desarmes limpos e passes aveludados. Um Henrique que perturba, aporrinha, leva constante perigo ao gol santista. E Dida. Que cisma em não esquecer as duras críticas de 1958. Que, após ouvir calado todo tipo de diatribe, percebe o momento de finalmente dar sua resposta. Em campo. E Dida está elétrico, vai zanzando e cortando a defesa santista pelo meio, levando à insanidade o sóbrio zagueiro Mauro, craque de seleção, rebaixado a beque de roça pelo mirrado alagoano. O Flamengo agora manda na partida, perde um gol após o outro. Dida, afobado, não está conseguindo meter a bola pra dentro. Mas logo se acalmará.

18 minutos. O Flamengo vem tocando a bola, rápido, abrindo espaços. Dida cisca em cima de Formiga e passa a Gérson, que se livra de Mauro e fuzila sua famosa canhota, na gaveta. Flamengo 1-0. Fleitas Solich, do banco, ordena “sigam no ataque!”. Nem é preciso. O Flamengo tem sede de sangue, tem fome de imolar os mortos do fatídico massacre do Maracanã. Avança em bloco. Enlouquece adversário, torcedores, espectadores e imprensa. Segue perdendo gols. Agora temos 33′. Joel arranca pela direita e vê Dida na área. Passe preciso. Dida gira em cima de Mauro e rola macio, com classe, Flamengo 2-0. Com fúria, o rubro-negro segue avançado, inclemente, sufoca o Santos, que inacreditavelmente não passa do meio-campo. O primeiro tempo está no fim. Os santistas buscam atacar desordenadamente, algum zagueiro flamengo manda um chutão. Gerson, na plenitude de sua forma, ganha de dois na corrida. Outra bomba, outro gol. Flamengo 3-0. Fim do primeiro ato. Aplausos.

O treinador santista faz algumas alterações, procura arrumar a equipe (as mudanças são permitidas), tenta a reação. Mas Solich segue mandando o Flamengo atacar, o rubro-negro está se impondo na bola. É absolutamente inverossímil o que vai fazendo o Flamengo na noite paulista. Começa a segunda etapa, 3 minutos. Joel, imarcável, vem pela direita e chuta cruzado. Rebote, lá está Dida na corrida, escorando de cabeça. Flamengo 4-0. Agora o Santos vira bagunça, Dorval vai pro meio tentar armar o time, um dos volantes vai pros lados do campo tentar parar Joel, mas nada funciona, nada adianta. Bola com Henrique, daí a Gerson, que vem na corrida e manda mais uma bomba. Flamengo CINCO a ZERO.

Buscando estancar a hemorragia, Mengálvio é substituído por um volante. Sim, senhores, o poderoso Santos, o internacional Santos, o badalado Santos está tentando fechar o time pra não tomar mais gols do Flamengo. O super-Santos vai levando um chocolate contundente do Flamengo de Joel, Gerson e Dida. Aliás, Dida está deslizando em campo, evolui como um bagre ensaboado, reduz o consagrado Mauro a nada.

Até que o Flamengo sente o esforço e cansa. Solich recua a equipe, que passa a administrar a partida e tocar a bola, satisfeito. Livre do sufoco, o Santos enfim começa a jogar à vontade e a criar chances. Manda bola na trave, ameaça o gol de Ari e, já no final do jogo, chega ao seu gol de honra, quando Coutinho recebe bom lançamento de Pepe e emenda, decretando o placar final. Sim, está lá no placar do Pacaembu, Santos 1-5 Flamengo.

A atuação flamenga repercute fortemente nos jornais do dia seguinte. Joel, Gerson e Dida são exaltados por terem desmontado a “máquina santista”. Solich é elogiado por sua coragem. O Flamengo agora lidera a Fase Final do Rio-São Paulo, ao lado do Vasco, com o Botafogo correndo por fora. Na última rodada, o time enfrentará o Corinthians, no Maracanã, de olho no resultado do Vasco, que pega o Palmeiras. Em uma semana, o desacreditado Flamengo, candidato a saco-de-pancadas, torna-se o principal postulante ao título. Incrédulos, os bares e botecos de todo o país discutem como isso seria possível, como se deu esse fenômeno e etc e tal. Parecem se esquecer de um dos mais decantados e famosos lemas que permeiam a existência flamenga, um mantra que se confunde com sua própria essência, uma história que se repete desde os tempos de Moderato, Píndaro e Sidney Pullen.

Afinal de contas, deixou o Flamengo chegar, f…

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