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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.
Eu não consigo parar de rir. Ver uma torcida inteira saindo do armário e se assumindo VICE é bonito. E hilário.
Mas falando de gente grande, chegamos à Libertadores. E pra jogar esse troço direito, vai ter que mostrar bravura, ardor, fogo. Atributos que andaram em falta nesse 2011 que termina algo chocho.
De qualquer forma, aí vai uma passagem que mostra um pouco do que estou falando. Boa leitura.
A Hora do Vingador
A enfermaria da concentração do Flamengo parece um hospital de mutilados de guerra. Não há contundidos, há feridos. Praticamente todos os jogadores que pisaram dentro das quatro linhas gramadas do macabro Estadio Nacional de Santiago exibem vergões, hematomas, hemorragias, traumatismos e outros males. Mais do que a dor física, a revolta permeia, densa, todo o ar inalado por aqueles sobreviventes.
Isso vai ficar assim, Anselmo?
Vocês ganharam a primeira. Jogaram o fino no primeiro tempo, cansaram, os caras reagiram, mas vocês conseguiram segurar o placar. Os gringos vieram normal, pra jogar bola, nem bateram muito. O time deles é até bom, goleiro rodado, zaga forte, atacantes rápidos. Mataram o Nacional campeão do mundo e o Peñarol, com autoridade. Parecia que a disputa ia ser na bola. E na bola o Mengão se garante.
Mas não teve jogo de bola no Chile, Anselmo.
Polícia, imprensa, torcida, jogadores, todo o estádio parecia imbuído de apenas um objetivo, encher de porrada a cara dos brasileiros. Ditadura militar, Pinochet fazendo discurso inflamado nas tribunas, hino nacional, hino do Exército, hino de sei lá o que, e os caras pilhados, esbugalhados. Tinha nego babando, escorrendo uma saliva estranha e ameaçadora. Corredor polonês pra entrar em campo, treinador sendo revistado.
Tu viu como o juiz sorria, Anselmo?
O jogo comendo, com menos de cinco minutos um já veio e deu voadora. Pra quebrar. E o juiz dando risadinha. Tinha um zagueiro lá, o Mario Soto. É esse! O cara tava com pedra na mão. E daquelas pedras de ponta, que cortam. Era um flamengo passando e pedra na cara. O Adílio levou uma, depois outra. Aí ele foi reclamar pro juiz, e o ladrão, o rato respondia, com risadinha, “revida que eu te expulso”. E o playground da porrada continuava, O mesmo Mario Soto pegou a pedra e deu no olho do Lico. No olho! O olho do cara inchou, ficou uma bola preta. Quase ficou cego, o doutor disse. Se desce um pouco… E o Júnior? O chileno veio, deu no joelho, pra tirar de campo. Aí o Capacete lá no chão, se contorcendo. O cara vem e pisa no joelho atingido. Tinha jogador lá de camisa vermelha de sangue. Mesmo assim, a gente quase ganha o jogo, perdemos gol, teve uma que o Zico deu azar. Mas no finalzinho, menos de 10′ pra acabar o cara lá acertou uma falta na gaveta, não deu pro Leandro. Ficou pro Uruguai.
Os caras tão putos, Anselmo.

Os jornais do Chile dando manchete, “Libertadores é pra macho”, “Ganhamos das galinhas brasileiras”, o treinador dizendo que era pra ter goleado, que se espantou com a fraqueza nossa, jogador lá dos caras dizendo que tinha jogado normal, que ia bater mais na decisão, que ia se impor porque era jogo de homem contra menino, essas presepadas. Os jogadores tão muito pilhados, vão cair na armadilha dos chilenos, eles querem que o troço vire briga mesmo.

Mas mexeram com a nossa honra, Anselmo.
Não basta só dar de cinco, seis nos caras. É difícil, o time dos caras é bom, eles não são o Botafogo. Tem que mostrar que nós não somos covardes, aqui é grupo de homem. Mas tem que fazer com inteligência. Tem jogador que já quer partir pra dentro dos chilenos. Burrice, aí vai expulso e estraga o time. Já pensou perder essa Taça depois de tudo isso? Mas os jogadores não aceitam, querem sangue. Tiveram que fazer reunião, os jogadores foram avisados que, na hora certa, serão liberados pra dar o troco. Mas primeiro tem que ganhar o jogo e a taça. O trato já está feito.
Vai ser você, Anselmo.
Você é forte, troncudo, centroavante daqueles trombadores, embora até tenha alguma técnica. É reserva, se te suspenderem o dano é menor. Vai ser difícil, é um sacrifício. Mas você vai ser pra sempre heroi, o vingador, o homem que terá mostrado aos covardes, aos ignóbeis, aos obscuros que se abrigam na senda do anonimato a verdadeira face de um homem que irrompe incapaz de se vergar a qualquer forma de agressão abjeta. Ferido, apedrejado, cuspido, xingado, quebrado, emergirás vencedor e campeão. Como os grandes. Como os maiores. Como o Flamengo.
A grande final vai começar. Os times estão alinhados no centro do gramado. O hino já está tocando, a tensão está estampada nos rostos avariados dos nossos jogadores.
Vai lá, Anselmo. Você já sabe o que fazer.
O Flamengo vai vencendo por 2-0, o jogo já se encaminha para os descontos. Título garantido, o treinador Carpegiani tira Nunes e coloca Anselmo em campo. Anselmo se aproxima de Mario Soto, espera o chileno passar de lado e lhe desfere um soco na boca. O murro é tão violento que as mãos de Anselmo sangram cortadas pela força do impacto. Mario Soto desaba no chão e lá permanece desacordado por alguns minutos. Segue-se uma confusão, cujo saldo é a expulsão de Anselmo e de mais dois chilenos. Mesmo suspenso, Anselmo ganhará como prêmio o direito de integrar a delegação do Flamengo que viajará ao Japão.”

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Sobre flamengonet

jornalista

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