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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. Em tempos sem futebol, só resta ler manchetes com especulações infinitas ou assistir aos gols do Barcelona. É tempo também de fazer nossas listas “top-10” disso, daquilo. Nessa semana e na próxima, deixarei a minha lista “Top-10” das grandes viradas que acompanhei nesses mais de trinta anos professando minha fé flamenga. Fazer lista é divertido, cada um tem a sua.

Nos títulos em negrito, há links para vídeos. Boa leitura.

GRANDES VIRADAS – PARTE I

Nem o mais pessimista rubro-negro imaginava que, apenas um ano após o hexa, o clube voltaria a conviver com o lodaçal da ameaça ao rebaixamento. Mas, num ano tumultuado em que absolutamente tudo dá errado, um time abatido, desmotivado e perdido precisa quebrar um jejum de sete jogos. A Zona do Rebaixamento se aproxima. O adversário, o lanterna Prudente, não assusta. Mas a crise é tão profunda que qualquer adversário é sério. O jogo é equilibrado, de péssimo nível. Já no segundo tempo, o Prudente abre a contagem, em falha do inacreditável zagueiro Jean. Sem alternativas, o time vai pra cima, pressiona, cria chances, mas a bola teima em não entrar. Vão a campo Petkovic, Diego Maurício e Maldonado, e aí o jogo finalmente muda. O chileno acerta belíssimo lançamento e o Drogbinha empata, já aos 40′. Chegam os descontos, o Flamengo segue brigando, segue buscando a vitória, segue Flamengo como em poucas vezes no ano. Já aos 49′, último lance, córner. Pet cobra, há um tumulto, e Toró, meio sem jeito, acerta um chute enviesado, a bola entra tímida. Uma virada heroica e sensacional, que mais tarde se mostrará fundamental para evitar o maior vexame da história do clube.

Roberto Lemgruber é dado a práticas de curandeirismo (diz-se capaz de curar alcoolismo à distância). Apregoando feitos aqui e ali, ganha certa notoriedade. Entediado, resolve aplicar seus pretensos dons às previsões esportivas. Jogarão Flamengo x América, e Lemgruber, como bom botafoguense, crava: “dá América”. O jogo começa, o Flamengo sai na frente com Bebeto, mas, desmotivado (já está classificado para a Segunda Fase), permite a virada. O América tem um bom time, com Moreno, Polaco, Cleo (ex-Inter e Flamengo), Luisinho e o jovem ponta Maurício (que fará sucesso no Botafogo), domina a partida e tudo indica uma goleada. Até que, a dez minutos do fim, Lemgruber chega nas Tribunas. “a energia indica ampla prevalência astral para o América. Vejo humilhação e dor.” A imprensa baba e se encanta com a figura. Mas algo dá errado. Aos 39′, Bebeto recebe bola alçada na área e acerta lindo voleio, empatando a partida. Na saída de bola, o América se atrapalha, na retomada o Flamengo solta a cavalaria, a torcida vai junto e o atacante Chiquinho, quando ia marcar, é deslocado pelo estabanado zagueiro Serginho, A bola espirra, desvia do goleiro e entra. É a virada, aos 40′. Sem saber direito como explicar os meandros da “prevalência astral”, Lemgruber deixa o estádio de fininho, anônimo…

O Flamengo inicia a temporada de 2002 como terminou 2001. Em crise. Os veteranos reforços contratados (Leonardo e Juninho) não dão liga, Edílson e Petkovic já estão de saída, a sensação é de desmonte. Garotos como Andrezinho, Felipe Melo, Rocha, Anderson Luiz, Fabiano Cabral e Roma vão sendo lançados e carbonizados. O treinador Carlos Alberto Torres não resiste às goleadas sofridas no Rio-São Paulo e é demitido. Entra João Carlos, de relativo sucesso no Japão. O time vai mal na Libertadores, já perde pontos importantes. A sensação é de completa bagunça. Nesse contexto, chega a partida contra o Corinthians de Gil, Deivid e Ricardinho, amplo favorito, cheio de bons jogadores e dirigido por Carlos Alberto Parreira. Talvez pelo nível do adversário, talvez mordido pelo tom das críticas, o Flamengo entra em campo eletrizado, enlouquecido, inflamado. Abre 2-0, dois gols de Leandro Machado. Calmamente, o Corinthians vai aos poucos impondo seu futebol, começa a dominar a partida e vai construindo a virada. Quando Deivid marca o terceiro gol corintiano, já restam pouco mais de 15′ para o final. Resignada, a torcida ameaça silenciar, mas Juan empata a seguir. É então que o Flamengo esquece suas limitações, esquece o adversário e se descobre Flamengo. A garotada parte pra cima, vai deixar a vida em campo. E o indecifrável atacante Roma, o “Romário de 1,99” acerta um chute belíssimo e vira a partida, já perto do fim. A festa, o desabafo da nação flamenga é belíssima e comovente. E o improvável Roma vive seu dia de heroi.

Terrivelmente desfalcado, Jair Pereira improvisa uma defesa com quatro zagueiros de área (W.Gottardo, Jr Baiano, Rogério e Andrei) e nenhum lateral de ofício. A coisa, evidentemente, dá errado e o Fluminense de Ézio e Lira abre 2-0 com facilidade. Olé, calcanharzinho, toquinho, a torcida tricolor deita e rola. Nem o gol de Paulo Nunes, no finzinho do primeiro tempo, assusta. Até que Jair Pereira tira um zagueiro, coloca Djalminha e incendeia o jogo. De forma inacreditável, o Flamengo ressuscita em campo e cai pra dentro do adversário com uma fome de anteontem. Depois de muita pressão, Gaúcho acerta belíssima cabeçada e empata o jogo. Já aos 38′, o Maestro Júnior, que é o dono da partida, coroa sua belíssima exibição com um tiro contundente e definitivo. Flamengo 3-2. A vitória espetacular tem pouco efeito prático, mas a festa da Nação com a vitória assombra a imprensa.

O Vasco de Roberto, Geovani e Romário é o queridinho da imprensa. Campeão da Taça GB, virtual campeão estadual. O Flamengo perde muitos titulares (contusões e Copa) e recorre aos garotos. Zinho, Ailton, Zé Carlos, Aldair, vão ganhando espaço. Decisão da Taça Rio, o favorito é o Vasco, mas o Flamengo sai na frente, Bebeto de falta. Mas Romário empata a seguir. Jogo nervoso, no segundo tempo Roberto põe os cruzmaltinos na frente. Parece o fim. O Flamengo se solta, se abandona à frente, pressiona, aperta e enfim um pênalti, a 15′ do final. Bebeto cobra mascado, a bola entra devagarinho e enfarta dezenas. Agora é tudo ou nada, o Flamengo segue em cima, o Vasco perde o controle emocional (Roberto é expulso) e já nos minutos finais o galego Júlio César bate cruzado e decreta a virada e o título. Flamengo 3-2 e campeão da Taça Rio. Algumas semanas depois, o time irá se impor de novo e conquistar o Estadual em cima do mesmo Vasco.

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