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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. Essa semana, deixo a segunda e última parte da minha lista de maiores viradas que presenciei o Flamengo impor aos adversários. Nos negritos, links para vídeos.
Aproveito para desejar a todos um Feliz 2012, e que nosso Mengão nos faça felizes.
Embalado pelo hexacampeonato brasileiro, o Flamengo recebe Wagner Love de braços abertos e monta o Império do Amor, com Adriano. Mas peças importantes saem, e Andrade tem dificuldade para reconstruir o esquema de jogo. No primeiro clássico do ano, o time leva um baile do Fluminense de Conca e Mariano e desce para o intervalo com uma derrota de 1-3, um barulho infernal nas arquibancadas tricolores. Um placar de cinco ou seis não seria exagerado. Até que Andrade, em uma de suas melhores atuações como treinador, saca o lento Petkovic e o inacreditável Fernando, lançando Willians e Vinícius Pacheco, e mandando o time avançar. As alterações dão resultado, o Flamengo parte pra cima e em atuação de gala de Adriano e Kleberson, exibe o poder de fogo do Império do Amor e vira de forma espetacular para 5-3, mesmo com 10 jogadores (Álvaro é expulso). Ao som de um olé profundo e jocoso, a temporada parece promissora. Mas a substituição de Petkovic deixará marcas. E será só o começo…
O Flamengo busca se reconstruir na temporada de 2004, após o vendaval pós-ISL. Mas é difícil, e um time barato e recheado de veteranos e juniores é montado para o Estadual. Logo de cara, um Fluminense “galáctico”, com Romário, Edmundo, Roger, Léo Moura e grande elenco, favoritíssimo para conquistar tudo o que disputar. O Flamengo sai na frente com Jean, mas Romário empata antes do intervalo. Na volta, o Fluminense é mais agressivo e domina. E logo vira a partida, novamente com Romário. A torcida tricolor ainda comemora, quando o infernal Romário lança o zagueiro Rodolfo, que aumenta para 3-1, já aos 19′. A fatura parece liquidada, a barulhenta torcida tricolor começa a entoar o olé e gritar “é chocolate”, quando o bando Flamengo se morde, se inebria e parte pra cima de forma suicida. E a alma flamenga se personifica no improvável Felipe, que joga a partida de sua vida e vive, ao menos uma vez, a sublime sensação de ser Flamengo. E Felipe diminui, aos 24′. Pressentindo a virada, a Nação Flamenga acende, sufoca, empurra o time. Meros dois minutos se passam, e uma bola é cruzada, o contestado e vaiado lateral Roger acerta a cabeçada e empata, enlouquecendo o Maracanã. Menos de cinco minutos depois, Felipe, imparável, lança Roger, de novo Roger, o carrasco Roger, que tira do goleiro e vira o jogo. Flamengo 4-3 Fluminense. Enquanto a seita tricolor ganha o rumo de casa, o Maracanã salta e pula aos gritos de “Poeira, levantou poeira”. A sensacional vitória irá impulsionar o limitado time dirigido por Abel a um impensável título estadual. E a “poeira” marcará uma época.
Sob o olhar perplexo de 90 mil almas, Zico vai descendo o túnel. A coxa esquerda travou, contratura. Fora de combate, o Galinho assiste ao vareio de bola imposto pelo improvável Coritiba, que de forma inacreditável, já vence por 2-0 em pleno território sagrado flamengo. Mais um gol, e a vaga para a final irá se desvanescer. Antigos traumas (Santa Cruz-75 e Palmeiras-79) começam a ser revividos. A pretensiosa frase de Mário Juliato “preciso de três, mas posso ganhar de cinco” irá se materializar? Mas a lógica flamenga prima por nunca se revestir de lógica. E justo o pior jogador em campo naqueles primeiros 30′ chama a responsabilidade para si, pede bolas, dá esporro e começa a comandar a virada. Não aceita sair dali derrotado. Nunes pega uma bola perdida, enterra a cara no chão, passa por quem aparece pela frente, manda a bomba, diminui e acorda o estádio. Logo depois, Tita está pronto para finalizar, mas Nunes toma-lhe a bola e emenda outra porrada, outra bomba, é o empate. Enfrentar o Flamengo no Maracanã pode ser um inferno, o que Juliato logo percebe. Carlos Alberto, que substitui Toninho, toma uma bola em sua intermediária e corre, corre, corre sedento de glórias, corre mais e acerta uma pedrada que arromba a gaveta paranaense. A virada está consumada, e ainda estamos no primeiro tempo. Na segunda etapa, mais calmo, o Flamengo impõe seu jogo e faz a massa cantar. Aumenta a contagem num belíssimo gol de Anselmo e sacramenta a vaga para a final. O Coxa ainda irá diminuir, mas o Flamengo já é finalista, pela primeira vez. Está aberto o caminho para a conquista do primeiro Brasileiro.
O Santos acaba de conquistar a Libertadores e já vislumbra o “Jogo do Século” contra o Barcelona. Mandará a campo seu time titular, com Ganso, Ibson, Arouca, Borges e especialmente o celebrado, exaltado e incensado Neymar, um dos poucos jogadores de talento a emergirem em um duro período de entressafra. O Flamengo de Ronaldinho, Thiago Neves e Luxemburgo ainda está invicto, mas está errático, vence mas não convence. Vila Belmiro lotada, todos anseiam por um show de Neymar. E o garoto do topete dá aos seus fãs o entretenimento pedido. Deita e rola sobre a defesa flamenga, impõe-se de forma quase humorística ao quebradiço sistema defensivo rubro-negro. Em 25′, o Santos abre 3-0, com direito a gol de placa de Neymar. É um massacre. Fatalistas temem o pior. Coisa de sete, oito, talvez mais. Mas o Flamengo segue tocando bola, parece imune ao revés. O time não se desequilibra, não se descontrola. E começa a explorar a fragilidade da defesa santista. O jovem Luís Antônio começa a fazer estragos, Thiago Neves está motivado e se mexe incessante. Deivid perde gols inacreditáveis mas faz boa partida. E há Ronaldinho. O dentuço diminui aos 28′. Três minutos depois, Thiago Neves escora belo cruzamento e põe de novo o Flamengo no jogo. Mas Neymar segue imarcável e sofre pênalti. Quando Elano parte para a bola e desperdiça a cobrança, a virada começa a se desenhar. E a Vila Belmiro se cala diante do empate, cabeçada precisa de Deivid. 3-3, ainda no primeiro tempo. Na volta do intervalo, os times se fecham um pouco, mas Neymar ainda encontra espaço para colocar novamente o Santos na frente, 4-3. É quando, enfim, Ronaldinho resolve roubar a cena e assumir seu protagonismo. Empata numa cobrança de falta moleque e pitoresca, bestial. E, quando o Flamengo já domina a partida, estaca no coração santista o gol da virada, num toque sutil. Em uma noite mágica e antológica, o Flamengo muda uma história, inverte o roteiro e torna coadjuvantes os candidatos a estrela. Foi breve, mas foi intenso. Pelo menos uma vez em 2011, foi Flamengo.
O Rio de Janeiro ainda chora a brusca e trágica morte de Elis Regina. Mas a vida segue, e tem jogão no Maracanã, é feriado de São Sebastião. 90 mil irão se encontrar com o Campeão do Mundo, no clássico contra o São Paulo. O jogão promete, metade da Seleção de 1982 está em campo. Mas o Flamengo sem ritmo de jogo é surpreendido na primeira etapa por um São Paulo que se impõe de forma irretocável, marca pressão e esconde a bola. O meia Renato, reserva de Zico na Seleção, é o dono das ações no meio-campo e rege a “Máquina” paulista, junto com Mário Sérgio. Raul aparece com várias defesas, salvando o time de uma goleada. Fim do primeiro tempo, São Paulo 2-0, dois de Serginho, fora o baile. A imprensa paulista exulta, “este é o campeão do mundo?”. Abatida e silenciosa, a torcida ensaia apupos. Mas na segunda etapa algo irá mudar. Carpegiani saca Chiquinho (Tita estava contundido) e põe o volante Vítor, que irá cuidar de Renato e soltar Andrade pro jogo. Além disso, há o ânimo. Mordido e envergonhado, o Flamengo volta do vestiário comendo grama. A Nação sente e vai jogar junto. E ali, em uma calorenta tarde de verão carioca, vai acontecer de novo a imortal aliança entre um time e seu povo. Um estádio inteiro irá empurrar o Flamengo à glória, à vitória, à conquista, numa pressão que irá crescendo em ondas até o limite do suportável. Andrade e Lico não erram nada a olho nu. Adílio entorta quem aparece pela frente. E Zico, sempre oportunista, irá comandar uma das mais sensacionais viradas de toda a história do Flamengo. Em cerca de 30 minutos, o melhor time do mundo transforma um princípio de vexame em uma virada histórica. Quando Zico, sempre Zico, o incomparável Zico, crava sua cabeçada no contrapé de Valdir Peres, um país inteiro se orgulha e berra a plenos pulmões a alegria de ser rubro-negro. Afinal, o Flamengo é o Dono do Mundo.
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