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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. Eis que estou de volta ao blog, após meses de afastamento forçosamente voluntário (se é que isso existe). É que nasceu Alice, minha pequena rubro-negra, e a experiência de “pai de primeira viagem” me absorveu deliciosa e intensamente nesse período. Mas, entre mamadeiras, fraldas, choros e chupetas, pude seguir acompanhando o conturbado início da temporada do Flamengo. Tivemos Ronaldinho e Luxemburgo num atrasado e anunciado “revival” do choque Romário-Luxa de 1995 (aliás, com resultado e efeito parecidos), vivemos o retorno do “Papai Joel” e suas práticas bem sucedidas, posto que medíocres, o acaso começando a forjar um time que, se conseguir passar incólume por alguns momentos cruciais, tem tudo para deslanchar.

Aí aparece o Adriano.

Cogitado para retornar ao rubro-negro após ser enxotado pela enésima vez de um elenco, por conta de seu comportamento agudamente antiprofissional, o Imperador parece vislumbrar, dessa vez, as portas entreabertas por uma diretoria particularmente sensível à voz rouca das ruas, especialmente em um ano cuja temperatura eleitoral deverá beirar o inflamável.

E seria uma boa?

Adriano é um sujeito movido a estímulos, a impulsos, e reage intensamente ao ambiente que o acolhe ou rejeita. Isso foi muito claro em 2009, quando, extremamente motivado pelo retorno ao Flamengo, engatou atuações excelentes, mesmo gordo e fora de forma (estreia contra o Atlético-PR e a goleada sobre o Internacional). Depois começou a cair na rotina e já atuava como um jogador comum quando Dunga acenou-lhe com uma chance real de disputar a Copa do Mundo, ser grande, renascer como Ronaldo em 2002. Os conselhos e esporros do treinador resmungão pareceram funcionar, e Adriano atuou de forma deslumbrante na maior parte do returno daquele Brasileiro (a imagem do “hulk” contra o Coritiba, a atuação de gala no Fla-Flu ainda cintilam na memória e nos corações dos torcedores).

Mas na reta final o Imperador novamente começava a sucumbir ao seu estilo de vida desregrado e pouco dedicado. Mesmo com o time às portas de uma conquista tão vorazmente ansiada pela Nação, Adriano voltou à rotina de faltar a treinamentos, às saídas noturnas, à “busca pela felicidade”. O rendimento voltou a cair. Mas, diferenciado, o Imperador ainda era decisivo, como o foi no Engenhão, no Mineirão, nos Aflitos. Só que, no momento final, nos últimos jogos que exigiram intensidade máxima, um estranho incidente com lâmpadas (motos?) o afastou do time. Queimado, inchado, lacerado, quase indiferente, Adriano viu o time se superar contra o Corinthians e atuou visivelmente sem condições de jogo na grande final contra o Grêmio. O hexa chegou, e Adriano foi fundamental para sua conquista. Mas ao seu modo, e por conta de empurrões providenciais em momentos-chave.

Veio 2010, e o Imperador, já enfastiado e campeão, resolve “ser feliz”. Larga de vez o mínimo de profissionalismo que ainda mantinha, envolve-se em confusões com amantes, traficantes, amizades estranhas. Segue metendo gols, trucida o Fluminense em sua última atuação de gala, forma com Wagner Love um ataque badalado e perigoso, aposta para a Libertadores que é esfarelada pelos sucessivos escândalos imperiais. Adriano chega a ser afastado do time antes de partidas pela mais importante competição do ano, por não reunir a mínima condição de entrar em campo. Começa a se tornar decisivo da forma errada. Perde um pênalti na Final da Taça Rio contra o Botafogo e sua relação com a torcida já não é mais a mesma.

E, já aporrinhado das fofocas, das “pessoas ruins”, da perseguição da imprensa (que vê notícia em seu corpanzil), das vaias que já começam a aparecer e sem qualquer motivação para seguir sua rotina carioca, Adriano aceita retornar à Itália e tentar ser feliz onde era infeliz um ano antes. Seleção? Vai para a lata do lixo, junto com a última oportunidade de atuar em alto nível.

Na Roma e no Corinthians, sua trajetória é atrapalhada por contusões e confusões extracampo. As lesões exigem-lhe dedicação, perseverança. Mas Adriano não funciona a longo prazo, o Imperador quer ser feliz, quer viver o momento, quer carinho mas não quer sacrifício.

Trazer Adriano agora, do ponto de vista meramente gerencial, seria uma temeridade. Trata-se de um jogador extremamente problemático, que só funciona (quando funciona) a curto prazo, coisa de seis meses no máximo (mais ou menos como ocorreu em 2009). Além disso, a administração do elenco já tem sido complicada, o grupo de jogadores acaba de vencer uma queda-de-braço com o disciplinador Luxemburgo. O expoente do time, Ronaldinho, é um jogador que também já não parece muito a fim de viver os sacrifícios de uma carreira de jogador de bola. Trazer o Adriano agora seria passar ao elenco a mensagem de que a diretoria segue disposta a abrir mão de certas práticas. É a famosa gestão “deixa que a gente se garante em campo”, que também não costuma dar muito resultado a longo prazo. (Alguém lembrou 2010 de novo?)

Isso num momento em que, após 20 anos, enfim o Flamengo parece estar revelando uma base sólida e consistente de jogadores. Garotos começam a se assumir titulares e em breve poderão ser a referência e a espinha dorsal de uma equipe que poderá resgatar suas tradições, seus valores. Acompanhar os maiores ídolos faltando a treinos, derrubando treinadores e afundando-se em baladas variadas não parece ser a melhor forma de se forjar uma mentalidade vencedora e competitiva.

Finalmente, há um time em formação. Onde o Imperador se encaixaria? Lembrando que somente agora, com a entrada de jovens como Muralha e L.Antônio, o time parece procurar o caminho para se livrar do ranço e da lentidão de seu jogo. Ronaldinho e Adriano juntos? Vai funcionar? E o Love? Lembrando que o Andrade não conseguiu, em nenhum momento, montar o time com Adriano, Love e Pet em 2010 (depois, nem sem o Pet).

Finalizo com um link para esse post aqui.

São trajetórias que, infelizmente, parecem convergir a cada dia.

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Sobre flamengonet

jornalista

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