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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. E a temporada segue, com o Flamengo acumulando pontos contra os adversários inexpressivos do Estadual, mesmo sem convencer (aliás, quando é que o Flamengo convence sua Nação?). Contudo, mais do que o futebol apresentado em campo, outro aspecto que tem incomodado muito os torcedores e alguns cronistas é o suposto excesso de “autonomia” dos jogadores do elenco, uma liberdade que tem sido desfrutada com certo exagero, algo que tem se tornado notório com as notícias envolvendo jogadores em festas, madrugadas e faltas a treinos. A inacreditável e pueril “cartilha” da semana passada não nos permite antever dias melhores nesse aspecto.

Ah, mas o Flamengo sempre foi assim.” Verdade. Aliás, meia-verdade. A cultura flamenga é mais leve e liberal desde sua nascença, isso é fato. Mas houve momentos em que a hierarquia prevaleceu, o profissionalismo foi respeitado (mesmo que na marra) e o resultado foi cristalino, claro, notório. Boa leitura.

O Teimoso Feitiço do Tri

1956, abril. O Rio de Janeiro fervilha a decisão do Campeonato Carioca de 1955, que irá para seu terceiro jogo. O Flamengo, que busca o tricampeonato, acaba de sofrer uma humilhante, histórica, contundente goleada para o América (1-5), e se vê, pela primeira vez em anos, como azarão na disputa pelo título. Muitos já dão como certa a conquista rubra, a imprensa já prepara reportagens especiais com Alarcón, Pompéia, Leônidas, Canário, entre outros atletas do ótimo time americano. Enquanto isso, a Gávea também ferve. Por outros motivos.

Fleitas Solich, o treinador flamengo, está irritado. Sabe que seu time foi amplamente envolvido pelo América e precisa tomar medidas, algumas delas drásticas. Experiente, reconhece que o melhor momento é dos rubros, mas também tem perfeita noção de que isso talvez não signifique muito numa decisão, especialmente diante de um Flamengo rodado e experimentado em grandes jogos. Don Fleitas é conhecido pela alcunha de Feiticeiro, justamente por conta de suas soluções mirabolantes. Já virou pilhas de jogos alterando toda a estrutura tática do time durante as partidas, sem fazer nenhuma alteração (são proibidas). E vai preparar mais uma bruxaria. Já tem a solução. Mas o remédio é amargo. E vai ter sérias consequências. Vem aí uma crise.

Primeiro, a incredulidade. Deve estar brincando, tipo de coisa pra descontrair. Depois, o inconformismo. É isso mesmo, estou falando sério. Por fim, a revolta. O grupo de jogadores simplesmente não consegue acreditar no que as roucas e picotadas, embora firmes, palavras de Don Fleitas Solich acabam de ressoar. O técnico acaba de tirar do jogo final o melhor jogador do campeonato, o artilheiro do time, o seu nome mais decisivo. E junto com ele, um dos mais experientes nomes do elenco, um médio com forte poder de marcação, um dos suportes do sistema defensivo. O goleador Paulinho e o médio Jadir estão fora da final.

Paulinho havia entrado no time após a contusão de Rubens, e encaixou como uma luva no veloz esquema tático do Feiticeiro. Rápido e habilidoso, serviu muitas vezes como a referência do mais temido ataque do país, o Rolo Compressor, e atuações de gala como os 6-1 sobre o Fluminense e, principalmente, a sofrida virada (2-1) sobre o Botafogo, em que marcou os dois gols que colocaram o Flamengo na final, fizeram de Paulinho o grande nome do Campeonato. Mas Paulinho está fora do jogo final. Por pura opção tática de Fleitas Solich. No lugar do craque Paulinho, irá entrar um garoto, Duca. Nome de certo talento, mas sem o estofo necessário para um grande jogo como esse. Não importa, Fleitas já decidiu.

Além de Paulinho, há Jadir. Vigoroso, forte e dono de uma marcação incessante, Jadir é um dos líderes do elenco. Formando com Dequinha e Jordan uma linha média extremamente respeitada e eficiente, Jadir inclusive tem seu nome cogitado para a Seleção Brasileira (será convocado no ano seguinte). Na finalíssima, será substituído pelo voluntarioso e limitado Servílio, jogador trombador e lento. Ninguém consegue entender o que Don Fleitas quer com essas alterações.

E o elenco recebe a notícia da pior forma possível. Começam os cochichos e murmurinhos pelos cantos, algumas das lideranças do elenco tentam de toda forma dissuadir o Feiticeiro, mas o paraguaio está irredutível. Tem ampla certeza do que está fazendo. Alguns jogadores ainda recorrem à diretoria, buscam interceder por Paulinho e Jadir, mas os diretores lavam as mãos. Fleitas tem carta branca e prestígio nas alturas. Os diretores não se esquecem de que todo o Rolo Compressor havia sido integralmente montado pelo Feiticeiro, e, mesmo estranhando, imaginam que o Bruxo saiba o que faz. A coisa parece mais ou menos controlada, quando pipoca um rumor fortíssimo. O problema pode ter sido disciplinar.

Alguns membros da comissão técnica começam a desconfiar que Fleitas estaria barrando Paulinho e Jadir em retaliação ao comportamento menos rígido de parte do elenco. Noitadas e bebedeiras entre os jogadores (de todos os times) são notórias, mas o Feiticeiro, aparentemente, tem conseguido controlar seus atletas. No entanto, os rumores de que alguns jogadores flamengos estariam exagerando no lazer chegavam a cada dia, cada vez mais fortes aos ouvidos de Solich. Um caso clássico é o de Rubens, que passou a se dedicar apenas aos jogos, treinando de forma leniente, quase preguiçosa. O Dotô Rúbis chegava a tragar seu cigarrinho nos intervalos das atividades, o que enlouquecia Don Fleitas. Mas Rubens era o Camisa 10, o craque, o homem que decidia. Até se contundir e ser definitivamente encostado por Solich. Muitos jogadores começam a suspeitar que algo parecido esteja acontecendo agora, às portas da final. E se revoltam. Alguns cogitam inclusive não jogar a final.

Mas a questão é que a Gávea anseia por esse tri, até as entranhas. Ninguém aceita perder esse título após um campeonato tão extenso, após meses de disputa ferrenha e acirrada, de uma temporada tão atribulada. E há a memória de Gilberto Cardoso, recentemente falecido e ainda pranteado no clube. Líderes como Dequinha, Zagalo e Evaristo reúnem o grupo de jogadores a portas fechadas, e decidem deixar a alma, a vida em campo. Vão ganhar esse tri na marra. Devem isso a eles mesmos e à Nação. Depois, se entendem e tiram suas diferenças com Solich. Os próprios Paulinho e Jadir apoiam o grupo, e pedem o título. Flor da pele, nervos arrepiados. Os jogadores atingem um nível de excitação e agressividade que roça o limite de sua capacidade. Ninguém vai ser capaz de derrotar aquele grupo.

* * *

A festa é linda. O Maracanã sorri e explode a festa do tricampeonato flamengo. A cidade, o país, tudo fica mais bonito quando o Flamengo ganha. Enlouquecidos, os jogadores correm, gritam, desmaiam, invadem o túmulo de Gilberto Cardoso e são expulsos a bala, afogam-se em champanhe, cerveja e pinga, são deuses e herois de um povo. Latejam a glória e a honra lavada no banho de bola com que passaram por cima do queridinho América.

Alheio a tudo, o Feiticeiro sorri, matreiro. “Eles são jovens, tiram muitas conclusões precipitadas”, confidencia a um de seus auxiliares. A questão é que as mudanças de Don Fleitas foram decisivas, fundamentais, criaram um outro jogo, outro desenho. A entrada do grandalhão Servílio anulou o perigoso jogo aéreo do América. Com efeito, Servílio não perdeu uma mísera bola a olho nu para o atacante Leônidas da Selva (não o da Silva), célebre por seus gols de cabeça, que havia dominado amplamente o baixo Jadir na partida anterior. E Duca teria que entrar para formar dupla com Dida. Os dois já estavam entrosados nos aspirantes, e Don Fleitas sabia que sua movimentação insana e desumana iria demolir a zaga do América. Com efeito, Duca participou ativamente da partida, foi destaque e ainda marcou (segundo a súmula) o primeiro gol, ao mandar para as redes uma bola que ainda desviaria em Dida antes de entrar. Completamente atordoado e surpreso com as alterações, o treinador americano não conseguiu neutralizar o letal feitiço de Don Fleitas.

Incensado pela imprensa, pela torcida e pela diretoria, Fleitas Solich vive seu auge no comando do Flamengo. Mas, dessa vez, a briga comprada com os jogadores terá consequências.

Dias turbulentos estão por vir.

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