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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. Ontem, discutindo os assuntos flamengos no blog, surgiu o assunto “novo treinador”, como seria, como não seria. A questão do aspecto disciplinar tem sido considerada sensível, especialmente em tempos de desmandos e noitadas do Morcego Ronaldinho e Cia. Talvez os jogadores fossem mais comedidos se no mercado existisse alguém como a personagem que apresento agora. Boa leitura.

1970. Disposta a conquistar um título expressivo, a diretoria do Flamengo estabelece como prioridade máxima a reestruturação do time e do elenco. Sem muito dinheiro, a ordem é contratar de forma cirúrgica e aproveitar a limitada base, buscando extrair dela um conjunto que, aliado a uma equipe brigadora, pode fazer do Flamengo novamente um time vencedor.

O grande reforço é o zagueiro Brito, vindo do Vasco, que, ao lado de nomes como Reyes, Liminha, Arilson, Paulo Henrique e Doval, montarão a espinha dorsal de uma equipe onde também vicejam talentos como Onça, Dionísio (o Bode Atômico), Fio e Tinteiro.

Mas, na visão da diretoria, uma grande reformulação precisa ser feita. E o primeiro ponto a ser atacado é o criticado relacionamento entre a comissão técnica e o time. O treinador anterior, Tim, apesar de ter feito um trabalho considerado muito bom (perdeu o Carioca-69 por detalhes) na montagem da equipe, era considerado um gestor sem pulso, e vários casos de indisciplina foram relatados ao longo da temporada anterior. A diretoria se reúne e constata que é preciso mudar. E de forma radical, indiscutível, sem margem a dúvidas. E ninguém melhor que ELE. É, ELE mesmo. O terror dos boleiros. O treinador que habita os mais obscuros pesadelos de qualquer jogador de bola, o homem que vai transformar num inferno a vida dos chinelinhos. Yustrich vem aí.

Dorival Knippel, o Yustrich (iustríck), construiu sólida carreira como goleiro do Flamengo, onde participou da conquista de quatro Cariocas (39 e o tri 42-43-44). Após abandonar os gramados, dedicou-se à profissão de treinador. Oficial do Exército, passou a aplicar métodos bastante peculiares de treinamento, ignorando solenemente as técnicas de preparação física e condicionamento, preferindo adotar métodos militares para a formação atlética dos jogadores. Aliás, Yustrich seguia à risca os preceitos da caserna, transformando a concentração em um verdadeiro quartel. Antes dos treinos, passava os jogadores em revista, obrigava-os a aprender a a cantar o hino nacional, inspecionava pessoalmente os armários dos atletas, essas coisas. Tudo absolutamente sozinho. Tinha verdadeira aversão a uma comissão técnica. Resolvia sozinho todas as questões ligadas à parte técnica e disciplinar. Somente admitia que jogador se expressasse após autorização para falar, e se valia de métodos bastante heterodoxos para controlar a disciplina do grupo. Quando dirigia o América-MG, deu uma surra num jogador flagrado em uma mesa de sinuca no horário da concentração. Outra vez, já no Atlético-MG, esperou um jogador voltar da noitada na porta do alojamento. Expulsou-o a sopapos e pontapés do hotel, do time e do clube, numa forma bem, digamos, própria de rescisão contratual. Em Portugal, após uma vitória do Porto (que dirigia) por 5-0, exigiu que os jogadores saudassem o público. Um deles se recusou e apanhou a ponto de baixar hospital. Assim é Yustrich, que por incrível que pareça anda em alta, após tirar o FC Porto de uma fila de 16 anos sem o título português, ganhar alguns campeonatos mineiros pelo Atlético-MG e, façanha maior, ganhar o Estadual mineiro dirigindo o modesto Siderúrgica, de Sabará. O prestígio de Yustrich é tamanho que o Homão (como é conhecido) chega a ser cotado para dirigir a Seleção Brasileira. O Flamengo pode ser um excelente trampolim.

A Gávea recebe Yustrich com festa e esperança de dias melhores. Na primeira reunião de trabalho, o Homão é apresentado a um detalhado documento, uma espécie de carta de intenções e diretrizes, onde constam minúcias como a composição do elenco, os nomes da comissão técnica, as expectativas e o planejamento para a temporada. Irritado, Yustrich rasga o papel e sai da sala berrando: “o planejamento aqui sou eu.” É uma pequena mostra do que está por vir.

No início, a chacoalhada no elenco dá certo, e Yustrich faz o time render. Mais, o Flamengo voa em campo. Em um torneio preparatório, o Flamengo goleia (4-1) a Seleção da Romênia de Dumitrache (que mais tarde enfrentará o Brasil na Copa) e, na sua melhor exibição em anos, trucida o Independiente argentino com categóricos 6-1 diante de um Maracanã lotado e enlouquecido. Na final, o Flamengo vence o Vasco (2-0) e confirma a boa fase, conquistando o título do torneio, ficando o Vasco com o vice-campeonato. Satisfeita, a diretoria suspira, aliviada por ter tomado a medida certa. Por enquanto.

No embalo de Yustrich, o Mengão-70 (como passa a ser chamado pela torcida) vai disputar a Taça Guanabara, torneio que é desvinculado do Campeonato Carioca e que apresenta uma fórmula particularmente complicada esse ano. Após um início irregular (chega a ser goleado pelo Bangu), o Flamengo arranca e, na reta final encaixa uma de suas famosas atropeladas, conquistando o título após vencer Vasco, Bangu, Botafogo e América, e empatar a final (1-1) com o Fluminense. Na certeza de que o trabalho irá dar frutos mais ambiciosos, todos estão alheios aos problemas que começam a pipocar aqui e ali. A bola está entrando.

O primeiro quiproquó acontece com Brito. Yustrich está satisfeito com a zaga formada por Onça e o jovem Washington, ignora solenemente o retorno do zagueiro tricampeão após o Mundial e prefere manter Brito no banco. O craque esperneia, reclama pela imprensa, e Yustrich berra nos microfones, apregoando que não tem nada a discutir com um “fumante e cachaceiro” como Brito (lembrando que Brito foi eleito o melhor atleta da Copa-70). Sem alternativas, Brito, a grande contratação flamenga para a temporada, é negociado com o Cruzeiro, após fazer cerca de 10 jogos.

Mas as confusões continuam. O Homão cisma com as camisas coloridas do zagueiro Onça e o barra, trazendo Reyes para a zaga (o maior acerto de sua passagem). Reclama dos cabelos compridos de Doval, e começa a persegui-lo, a ponto de escalá-lo como lateral-direito. Não desiste até conseguir afastá-lo, e a diretoria acaba emprestando o Gringo para o Huracán (Argentina).

As práticas de Yustrich começam a incomodar jornalistas (por quem nutre um ódio especial) e a intrigar os diretores. Seu esquema tático inexiste, é baseado em uma forte marcação no campo adversário e na busca pela compactação plena, algo que só pode ser alcançado com jogadores em plena forma física. Mas o Homão invariavelmente enxota qualquer fisicultor, preparador ou outra dessas “porras que só mamam o dinheiro do clube.” Nem um mísero Teste de Cooper é tolerado por Yustrich, cuja metodologia é considerada “superada mesmo se retrocedermos aos tempos do amadorismo”. E a bola vai parar de entrar.

O Flamengo faz campanha pífia no Carioca, terminando em quinto lugar. No Roberto Gomes Pedrosa, consegue a “façanha” de engatar CINCO empates em 0-0 dentro de SETE jogos. Na derrota (1-3) para o Cruzeiro, Brito, no final da partida, aproxima-se de Yustrich e lhe joga a camisa suada na cara. O Flamengo termina a competição em quinto lugar, e o Homão consegue importante unanimidade. Todos querem à sua saída. Mas, avaliando a necessidade de continuidade, Yustrich, para estupefação geral, é mantido.

Como é esperado, o time fracassa em todas as competições do primeiro semestre de 1971, seja no Torneio do Povo (termina em último), seja no Carioca. Já pela competição estadual, o Flamengo vai enfrentar o lanterna Bangu no Maracanã. A equipe, bastante enfraquecida pelas birras de Yustrich e completamente desmotivada, leva um vareio de bola e desce pro intervalo perdendo. Nos vestiários, um apático Yustrich permanece quieto, até começar a vociferar “vamos virar essa merda, vocês não são seguidores de Nossa Senhora? Eu tenho um grupo de facínoras, que não temem a Deus?” Com essas palavras “motivadoras” o time quase é goleado na segunda etapa, e acaba derrotado (1-2). É o fim. Acabou.

No dia seguinte, Yustrich é chamado ao Gabinete da Diretoria e é demitido. Recusa-se a se despedir dos jogadores e, na saída da Gávea, dá um soco em um fotógrafo. Entra no carro e é abordado por outro repórter, que quase é atropelado quando Yustrich arranca com o veículo. Assim, dessa forma melancólica, termina a passagem de Dorival Knipel pelo Flamengo.

O Flamengo seguirá, ao longo de 1971, colhendo os frutos da política de terra arrasada deixada por Yustrich. O velho Fleitas Solich é chamado para, ao seu jeito paternal, ao menos apagar os focos de insatisfação e dar dignidade à trajetória flamenga. Doval é reintegrado, e Solich começa a trabalhar as elogiadas divisões de base, que vêm despontando nos aspirantes. Ao longo do segundo semestre, vários nomes serão testados, especialmente um garoto franzino em quem muitos têm prestado especial atenção.

O irmão dos Antunes.
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