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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.
Enquanto o Papai Joel começa a ser “aconselhado” a promover os garotos da base e assim vai se dependurando no cargo, a diretoria (hã?) segue apavorando fora de campo, dando mostras cada vez mais cristalinas de seu notório e absurdo despreparo. Se colocar uma banca de revistas na mão desse pessoal, a banca quebra.
Enquanto isso, deixo o último texto da série que lembra o centenário do futebol do Flamengo. Do MEU Flamengo, do Flamengo de uma Nação, não dessa coisa caricata que se entranhou na Gávea. Boa leitura.
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1912. O carioca inicia o mês de maio ainda sob o impacto da tragédia do colossal Titanic, “o navio que nem Deus afunda”, e que afundou alguns dias antes, matando centenas. As notícias que cobrem as já infrutíferas tentativas de resgate de sobreviventes e corpos, e a apuração das responsabilidades já parecem gastas, mas ainda chamam a atenção. Porém, a cidade segue sua vida, e causa curiosidade o anúncio dos jogos que darão início ao cada vez mais concorrido Campeonato Municipal de Futebol.
Nas Laranjeiras, o campeão Fluminense irá receber o Rio Cricket de Niterói, mas a expectativa maior está voltada para a estréia do time de futebol do CR Flamengo, considerado o grande favorito para a conquista do título, por conta do fortíssimo elenco que migrou das Laranjeiras. Causou sensação um jogo-treino disputado no campinho da Praça do Russel, onde o rubro-negro derrotou o bom time do América, sob o olhar de inúmeros curiosos. E o adversário da primeira partida está longe, muito longe de assustar.
O Sport Club Mangueira é um clube incipiente, formado por funcionários que trabalham na fábrica Chapéus Mangueira. Treina em um campo na Rua Desembargador Isidro, na Tijuca, nas imediações do local onde futuramente será erguido o Maracanã. Está de volta à Primeira Divisão após uma participação desastrosa na temporada de 1909, onde chegou à lanterna com todas as honras, com direito a sofrer uma apocalíptica derrota (24-0) para o Botafogo, naquela que terá sido a maior goleada da história do futebol brasileiro. Usa as cores rubro-negra em listras verticais (uniforme parecido com o do AC Milan), e curiosamente seu time exala confiança. Os jornais publicam notas apregoando a motivação dos mangueirenses em atuar em igualdade contra o Flamengo de Borgerth, Gustavo e Píndaro. Uma vez que o SC Mangueira não possui campo próprio, a partida é marcada para a antiga sede do Haddock Lobo FC, que acabara de se fundir com o América, na Rua Campos Sales, também na Tijuca.
Sexta-feira, 03 de maio, início da tarde. Os primeiros espectadores começam a se acomodar nas frias arquibancadas do estadinho da Campos Sales. Um vento gélido e ameno uiva persistente, parecendo querer desencorajar a aventura tijucana. O cheiro de grama molhada invade penetrante almas e corações, como que deixando marcas profundas, indeléveis, sensações inolvidáveis. Há lama, há barro amalgamado no piso que será, daqui a instantes, enfim aberto para a prática do desporto.
Chove.
Afugentada pelo mau tempo, a assistência não é numerosa, mas ainda assim chama a atenção, coisa de 800 pessoas, algo notável diante do clima. Sem alarido, o grupo balbucia conversas paralelas, aguardando o início dos trabalhos num silêncio que só é quebrado quando finalmente as duas equipes adentram o gramado. O Flamengo alinha com Baena, Píndaro e Nery, Curiol, Gilberto e Galo, Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo e Borgerth. Vai começar o jogo. Vai começar tudo.
O procedimento se dá através das mãos do ilustre atleta Belfort Duarte, que terá a honra de apitar o cotejo. O apito estrila um choro forte, estridente, ouvido em todo o Rio de Janeiro. Nasce o futebol do Clube de Regatas do Flamengo.
E o bebê já nasce forte e saudável. A saída de bola é executada com um toque para a defesa, no lado esquerdo. O irrequieto Galo recebe e aciona Gustavo, já na meia-esquerda. Gustavo vira o corpo e, de primeira mesmo, acerta belíssimo lançamento para Arnaldo, que corre na extrema-direita. Arnaldo estica, vai até a linha de fundo e cruza rasteiro, para trás. Gustavo, que acompanha o lance, vem na corrida e emenda rasteiro, forte, indefensável. O Flamengo faz 1-0.
O Mangueira dá a saída, rapidamente a bola é retomada, e o Flamengo volta à carga. Após uma saraivada de golpes, onde a bola pererecou teimando em espirrar aqui e ali, percorrendo toda a área mangueirense, enfim Gilberto encontra Gustavo livre, e o artilheiro novamente confere, dessa vez com um toque sutil.
Com dois minutos de vida, o Flamengo já vence por 2-0.
Após a incontestável demonstração de força, o rubro-negro reduz o ritmo e resolve retribuir um pouco do carinho da platéia, com algumas jogadas de efeito e toques elegantes. O Mangueira se aboleta em seu campo, resignado. Após perder inúmeras chances por conta de um certo preciosismo, o Flamengo novamente volta a produzir gols, dessa vez com Arnaldo, aos 24′ e aos 30′, ambos completando bela trama no ataque rubro-negro. O Mangueira, de forma inacreditável, consegue diminuir quando seu atacante Octavio acerta uma bomba de longe, surpreendendo o distraído Baena, já aos 35′. Dois minutos depois, Gustavo amplia, e nada mais acontece na primeira etapa, que se encerra em 5-1 para o Flamengo, que causa boa impressão ao público.
 
Mas há mais. Se o primeiro tempo mostrou-se incrivelmente desequilibrado, a segunda etapa será a materialização de um massacre, um encouraçado ombreando um bote. O irreverente Galo abre os trabalhos logo aos 5′ e a seguir o center-forward (centroavante) Amarante irá executar um brilhante solo, anotando três gols em fileira, aos 8′, 9′ e 15′. Pouco depois, aos 18′, o Flamengo atinge seu décimo gol, por intermédio de Arnaldo.
Após alcançar os 10-1, o Flamengo volta a reduzir o ritmo, abusando dos toques e firulas, que assanham o público. Galo, sempre imparável, dá um chapéu, toca a bola e se curva para receber aplausos. Animado com o afrouxamento flamengo, o Mangueira finalmente consegue trocar alguns passes, e consegue uma falta próxima à área, após jogada individual do médio Plaisant. O atacante Levy cobra forte, um belo chute sem chance para Baena. O Mangueira chega ao segundo gol. 10-2.
O golpe irrita os jogadores flamengos, que voltam à carga, dessa vez com fúria. O time agora quer marcar o maior número de tentos possível, quer fazer estatística já no primeiro jogo. Agora Gilberto e Curiol (os craques do jogo) não perdem uma mísera bola e abastecem alucinadamente o ataque. Desnorteado, o Mangueira se segura como pode, ajudado pelo lamaçal que se forma na sua pequena área. As poças d’água salvam um, dois, três gols flamengos. O goleiro Moggey esbraveja, dá cambalhotas, pula de um lado pro outro, é um espetáculo à parte. Os gols voltam a aparecer, primeiro com Gustavo, aos 28′, depois com Arnaldo, aos 32′. Já vencendo por 12-2, o Flamengo ainda desperdiça dois pênaltis. No primeiro, Galo exagera na pose e chuta fraco, Moggey defende. No segundo, Baiano escorrega na hora do chute e a bola vai pra fora.
Os contratempos não desanimam o time, que parte para o assalto nos minutos finais. Aos 34′ Amarante marca o décimo-terceiro. Dois minutos depois, Borgerth se cansa de apenas servir os companheiros e ele mesmo arrisca um chute de longe, é o gol catorze. Gustavo, o artilheiro da tarde, marcará seu quinto gol aos 38′ e por fim Borgerth, no último lance da partida decretará o placar a ser repetido em inúmeros livros e almanaques: Mangueira 2-16 Flamengo.
A criança já se mostra grande ao nascer, em breve virará adulto. O Flamengo, ainda inebriado, irá lambuzar-se com sua grandeza e irá perder dois campeonatos bobos, até assumir seu lugar de direito e destino, com o bicampeonato de 14-15. O SC Mangueira seguirá sendo surrado pelos times maiores (no segundo turno o Flamengo quase repetirá o escore, parando em “apenas” 14-0), até fechar as portas em 1927 (o maior feito de sua história será um 0-0 contra o Fluminense, em 1917). Mas a região seguirá em evidência, por conta de um grupo de samba que está começando a se organizar.
Gustavo (ou Gustavo de Carvalho), o grande personagem da estreia, ainda atuará em algumas partidas, mas logo se afastará para concluir seus estudos. O mirrado e baixinho atacante (alguns o chamam de Gustavinho) retornará em 1917, quando marcará também o primeiro gol do Flamengo em uma partida internacional, no empate em 1-1 com o argentino CS Barracas. Anos mais tarde, assumirá a presidência do Flamengo e será o responsável por reerguer o clube após grave crise, terminando de montar uma das maiores equipes da história flamenga e conquistando os títulos de 1939 e o primeiro tri.
E, cem anos passados, o Flamengo, o verdadeiro Flamengo continua irreverente, encharcado, enlameado, forte, vencedor e querido. E os oitocentos brotaram, e se multiplicaram, e povoaram uma cidade, um país, uma nação.
Uma nação que, por mais que acossada, jamais envergada.
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jornalista

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