Deixe um comentário

Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos. E o pupilo do Léo Rabello segue tentando convencer que esse bando que ele coloca em campo está se transformando em um time. Sair satisfeito com a atuação do time após uma DERROTA pode estar adequado para seu sangue vascaíno. Para mim, JAMAIS estará bom.
Daí que eu me lembrei de um texto que deixei publicado há alguns anos, no blog do site oficial da época. Resgato esse texto hoje. Boa leitura.
Fleitas Solich – O valioso legado do Feiticeiro
Imagine-se o Flamengo numa decisão que literalmente está parando o país. Jornais e rádios só falando no jogão, o time perto de ganhar um título que, se confirmado, será lembrado com destaque na história do clube. Pois o treinador flamengo, para esse jogo crucial, barra o seu artilheiro e coloca um garoto que ainda está se firmando no elenco. Não satisfeito, mexe na base do sistema defensivo sacando um de seus principais jogadores e põe em seu lugar um atleta que praticamente não vem atuando. Uma decisão à primeira vista temerária, quase irresponsável, atitude inconseqüente, de maluco. Ou de um bruxo.
A história do treinador paraguaio Fleitas Solich no Flamengo se inicia com a conquista, pelos paraguaios, do Campeonato Sul-Americano de 1953, torneio em que os campeões, comandados por Solich, derrotaram o Brasil na final, em Lima. A aplicação tática e o caráter aguerrido da equipe chamaram a atenção da diretoria do Flamengo, que viu em Solich o substituto ideal para Flávio Costa, desgastado na Gávea. Eram tempos difíceis, o Flamengo vinha num jejum de títulos que chegava ao seu nono ano. Inspirado pelas boas experiências recentes com atletas paraguaios (Modesto Bría, Garcia e Benítez), a diretoria flamenga decidiu apostar em Fleitas Solich para comandar um processo de renovação de elenco e mentalidade.
Ao chegar, Don Fleitas mostrou-se bastante satisfeito com a qualidade do elenco e praticamente não pediu reforços. Logo seu jeito espontâneo, paternal, bonachão e bastante exigente começaram a conquistar a Gávea. Sem falar na sua assombrosa capacidade de realizar leituras táticas que deixavam jornalistas, dirigentes e torcedores sem fôlego. Fleitas era capaz de modificar o panorama de uma partida simplesmente mudando a função de um jogador com o jogo em pleno andamento, algo que hoje soa banal mas que não fazia parte da realidade do engessado futebol brasileiro dos anos 50. As intervenções de Fleitas justificavam plenamente o apelido de “El Brujo”, ganho no Paraguai. Rapidamente Solich passou a ser conhecido como o “Feiticeiro”.
Fleitas Solich era adepto do futebol solidário, mostrando-se bastante à frente do seu tempo. Pregava a compactação dos setores, treinava à exaustão jogadas em que os médios (precursores dos laterais de hoje) avançavam recebendo a cobertura dos homens de frente. Costumava montar formações que atuavam com um posicionamento bastante avançado, trocando bola rapidamente e desenvolvendo intensa movimentação. Numa época em que se valorizava o individualismo de dribladores e goleadores, a visão coletiva de Fleitas causou uma revolução no ambiente do futebol da Gávea. 
 
E logo os resultados viriam. Aliando sua privilegiada visão tática a uma aguda capacidade de revelar jogadores, Fleitas Solich montou uma das melhores equipes da história flamenga, um time que possuía um ataque devastador, que se movimentava de forma insana, levando defesas adversárias ao desespero. Era o “Rolo Compressor”, que conquistou sem nenhuma dificuldade os campeonatos cariocas de 1953 e 1954, empilhando goleadas. Nesse período o Feiticeiro lançou ou deu mais espaço a nomes como os atacantes Zagalo, Paulinho, Evaristo, Henrique, Dida e Babá, dando início a uma espécie de revezamento, em que os jogadores eram escalados de acordo com as características do adversário, o que ajudou a consolidar o mito do bruxo.
A sistemática de Don Fleitas foi mantida para a temporada de 1955, em que o Flamengo marchou para seu tricampeonato. Mas o campeonato foi bem mais difícil, algumas desavenças começaram a surgir (como a barração do virtuoso e individualista Rubens, que antes de Fleitas era a estrela do time). Mesmo assim, o time chegou às finais. E eis que retornamos ao início do texto: estamos na grande decisão, jogam Flamengo x América. O Flamengo vence a primeira (1-0), mas é massacrado na segunda partida (1-5), o que provoca a negra. O jogo para a cidade, até o presidente eleito vai ao Maracanã. Fleitas surpreende a todos e tira o atacante Paulinho, artilheiro do time, pondo o garoto Dida em seu lugar. Dida ainda era reserva, e apesar de mostrar qualidade, não parecia pronto para assumir a posição de titular, ainda mais numa final. Além disso, o Feiticeiro saca o médio Jadir, um dos principais nomes da defesa, entrando o experiente e vigoroso Servílio. 
 
Apesar da desconfiança por jogadores e torcida, as mexidas de Fleitas se mostram incrivelmente acertadas. A entrada de Servílio anula totalmente o jogo aéreo americano, que se mostrara letal no jogo anterior. Dida, por sua vez, estraçalha e acaba com a partida, e com quatro gols é o nome da acachapante goleada (4-1) que dá o tri ao Flamengo. O Feiticeiro atinge o auge de seu prestígio (com o título, Fleitas chegou a ser cotado para treinar a Seleção Brasileira na Copa-58. Mais tarde, chegou a dirigir o Real Madrid).
Fleitas Solich permaneceria no clube até 1957. Ainda dirigiria o Flamengo em mais três oportunidades (1958-1959, 1960-1962 e 1971), em que conquistaria o Rio-São Paulo de 1961. Mas seu legado é muito maior do que os títulos conquistados. Com Fleitas, o Flamengo consolidou sua imagem de equipe ofensiva, que joga pro ataque, buscando sempre e sempre o gol, marcando quatro gols a cada três sofridos. O Feiticeiro foi o responsável pela ascensão de alguns dos mais importantes jogadores da história flamenga, como os goleadores Henrique e Evaristo, o meia-atacante Gérson (o Canhotinha de Ouro) e o volante Carlinhos (o Violino), entre outros nomes.
Também é impossível deixar de lembrar a importância de Fleitas Solich na trajetória de um dos maiores ídolos da história do clube, o atacante Dida, descoberto quase por acaso no Nordeste e tratado como verdadeiro diamante por Don Fleitas. Dida, com 264 gols, até hoje figura como o segundo maior artilheiro da história do Flamengo.
Mas o que poucos sabem é que o Feiticeiro, já nos estertores de sua vida flamenga, no árido ano de 1971, ao aceitar o convite para tentar remontar uma base destroçada, resolveu recorrer às divisões de base. Interessou-se pelo futebol de um garoto franzino, que já vinha chamando a atenção. Viu duas atuações do menino e não hesitou em lançá-lo no time titular, mesmo avisando que o garoto não iria estourar de início.
Assim, o garoto Zico começava sua história no Flamengo. O legado de Fleitas Solich estava, dessa forma, completo.
Fleitas Solich é considerado um dos maiores treinadores da história do Flamengo. Possui a espantosa marca de 300 vitórias em 504 jogos, num aproveitamento de 69,44%. Faleceu em 1984.
Anúncios

Sobre flamengonet

jornalista

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: