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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.
Semana passada, alguns colegas do blog me pediram para postar uma passagem específica da história do Flamengo. É o texto que deixo agora. Dá uma boa reflexão. Boa leitura.
O Flamengo acabou, renasce o Flamengo
1983. Agosto.
As tremelicantes lâmpadas do acesso aos vestiários do Maracanã balbuciam murmúrios de luz, ajudando a emprestar notas de suspense e melancolia a um ambiente carregado e denso como o pesado ar impregnado de fumaça de cigarros e suor. O calor é infernal. Jornalistas, torcedores, curiosos e áulicos em geral aguardam ansiosos, numa angustiante espera de eternos minutos. Mas a pesada e muito bem escoltada porta insiste em se manter fechada. Insiste em silenciar, teima em manter no ar o mistério, afinal o que há com o Flamengo?
Pouco antes, o Maracanã assistiu a uma partida histórica. O rubro-negro sofre uma derrota antológica para o Botafogo de Berg, Nunes e Josimar, 3-0 que por pouco não vai de seis, não fosse Raul. A bomba de efeito retardado, armada desde a fatídica saída de Zico, finalmente parece ter explodido. Rangidos. A porta se entreabre. A primeira revelação já assombra e choca os presentes.
Dunshee de Abranches não é mais o presidente do Flamengo. Acaba de renunciar.
Embora brusco, o desfecho não é de todo inesperado. Dunshee já demonstrava sinais de isolamento desde o início do ano, quando sua condução diante dos problemas do elenco (briga de Nunes com Carpegiani, morte do supervisor Domingos Bosco, insistência na saída de jogadores como Tita, demissão e reintegração do preparados Francalacci) foi considerada inadequada. Mas a gota d’água foi mesmo a rumorosa saída de Zico, na esteira da conquista do tricampeonato brasileiro.
Muito já se falou e se escreveu sobre a transação que levou Zico à Udinese. Uns alegam que o Galinho teria forçado a saída, de olho na independência financeira, outros já cravam que Zico poderia ficar, mas Dunshee, de olho nos valores da transação e receoso que o craque recebesse passe livre dali a dois anos, teria dificultado as manobras para a permanência do ídolo. Seja como for, a venda de Zico se inseriu em um processo maior, em que os grandes centros europeus (notadamente a Itália) investiram pesadamente para contratar os melhores jogadores brasileiros em atividade, num movimento que uma economia frágil como a brasileira pouco poderia evitar.
Mas o torcedor não quer saber de movimento, de macroeconomia, dessas coisas de dotô. Zico foi embora. E como é que ficam as tardes de domingo?
A saída de Zico é uma catástrofe climática de efeitos devastadores. Muros pichados, vidros quebrados, carros destruídos. Dunshee, o grande vilão da história, posa em uma foto onde simula choro, o que enfurece a muitos. O time, apático e atônito, começa a desenvolver atuações melancólicas diante de um Maracanã às moscas. Dunshee reluta em reforçar a equipe, mas abre algumas negociações, diante da grita generalizada. Tenta o ponta João Paulo, os atacantes uruguaios Alzamendi e Ramos, o centroavante Careca. Todas as negociações fracassam, e Dunshee se vê a cada dia mais isolado. A queda parece iminente. E chega o dia.
O que se segue à renúncia de Dunshee é uma hecatombe de proporções bíblicas. O Flamengo entra em uma situação de colapso generalizado, em todas as esferas. Todos os vice-presidentes renunciam em cascata, cabendo a Eduardo Motta a condução, em caráter interino, do clube até a realização de novas eleições, um processo que se caracteriza pela luta acirrada e selvagem de várias correntes, seitas e grupúsculos pelo poder, erguendo-se o próprio Motta e George Helal como os postulantes mais fortes. A Gávea está inteiramente à deriva, parece paralisada, letárgica, nas cordas. Mas ainda vai piorar.
O treinador Carlos Alberto Torres, que já não gozava de prestígio com os jogadores, entrega o cargo, leal a Dunshee. A diretoria interina resolve efetivar o preparador Francalacci, que assume cheio de ideias inovadoras, buscando emular o espírito de Cláudio Coutinho. Mas o momento não é de invenção. O elenco está abatido, desmotivado, inseguro, perdido.
E começam as invenções. A camisa 10 do Flamengo se torna um maçarico, carbonizando um jogador a cada semana. São tentados Lico, Adílio, Peu, Júnior, e mesmo Leandro na função. Nenhum deles sequer consegue jogar um futebol minimamente aceitável. Jovens como Adilson Heleno e Gilmar Popoca também são testados e fracassam de forma retumbante (curiosamente, a maior de todas as promessas, o jovem Bebeto, é preservado por estar submetido a um trabalho de reforço muscular).
E, como em uma ópera macabra, o Flamengo se arrasta, as carnes expostas em um calvário surreal que não parece ter fim. O time é humilhado pelo América (1-3), leva bola na trave, Raul pega pênalti e um placar de sete ou oito não seria absurdo. Mas não escapa do Bangu, leva de SEIS (6-2) num jogo bizarro em que o time joga com dois meias, dois volantes e a função de ponta-de-lança é executada pelo lateral Júnior. O Maracanã gelado, moscas e pirilampos como testemunhas.
O clube está inerte, parece anestesiado, não parece sentir os golpes. Num empate (1-1) com o Bonsucesso (jogo em que a melhor figura em campo é o goleiro Raul), Júnior esmurra um torcedor que o acusa de “rebolar” no jogo. A diretoria é acusada de deixar o dinheiro da venda de Zico rendendo em aplicações financeiras enquanto Raul vai buscar os juros e a correção monetária no fundo da rede. Até mesmo os mais idosos, que viveram a deprimente década de 1930, estão assustados. As cassandras e vivandeiras anunciam, trombeteiam e gemem, nucas arrepiadas de prazer: O Flamengo acabou. O Flamengo morreu.
* * *
1983, dezembro.
O Maracanã sorri numa noite de festa, engalanado numa festa de fogos e luzes. Após uma partida dramática, em que atua boa parte da segunda etapa com nove (Adílio e Mozer fazendo número), o Flamengo vence o Bangu e conquista a Taça Rio. Os jogadores pulam e vibram, preparam-se para repetir o costumeiro ritual de desfilar lentamente diante da Nação, a pesada e reluzente taça carregada por dois ou três. É o desfecho de uma arrancada sensacional, em que o time vence todos os clássicos, com direito a um chocolate (3-0) que rebaixa o Vasco para a Taça de Prata (segunda divisão do Campeonato Brasileiro) e a uma exibição consagradora (3-1) contra o queridinho Bangu da cidade. Em jogo-extra, o Bangu é derrotado novamente e o Flamengo ergue-se novamente campeão. Os jornais manifestam um sentimento de viva incredulidade, e agora parecem atônitos. Ninguém sequer cogitava o Flamengo novamente campeão tão cedo, meses após a maior crise de sua história recente.
O rubro-negro não vencerá o Estadual. Mas a auto-estima está resgatada. O Flamengo novamente mostra deter uma força interior incontrolável e imensurável. Como sempre, demonstra resistir a adversários e colaboradores, e por mais que vergue, por mais que pareça sucumbir, por mais que as evidências demonstrem a catástrofe, o melancólico epílogo, a morte, a instituição se realimenta, nutre-se das intempéries e irrompe ainda mais forte, soterrando ao limbo os agentes de sua derrocada. Quando, moribundo, parece enfim expirar, desperta animado e rejuvenescido por forças que emanam de suas próprias entranhas, de sua própria existência, de sua própria Nação.
Assim é o Flamengo. Assim é a Natureza.
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jornalista

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