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Alfarrábios do Melo

 

Ultimamente, tem-se falado na tal “maldição da camisa 9”, que aliás não é novidade em se tratando de Flamengo. A dificuldade que tem afligido nosso Vagner Love, sucessor do glorioso Deivid na arte de perder gols é algo que parece ancestral. Podemos fazer um recorte na história relativamente recente do time, e veremos que desde 1980 a dificuldade em arranjar goleadores não é nova.

Recorrendo a critérios razoavelmente benevolentes, podemos dizer que nesse período os atacantes “de ofício” que deram certo foram Nunes, Bebeto (a partir de 1987), Gaúcho, Romário, Liedson (apesar do período curto), Edílson e Adriano (em 2009). Mesmo assim, alguns desses nomes, a despeito dos gols e títulos entregues, mostraram-se polêmicos a ponto de sua passagem até hoje ser questionada (casos mais específicos de Romário, Edílson e Adriano). Entretanto, para cada nome bem sucedido, uma penca de trajetórias opacas pode ser desembrulhada, em um número até assombroso.

Há aqueles que vieram precedidos de alguma fama, com boas passagens em grandes centros mas que, de alguma forma, não conseguiram cair nas graças da Nação. E, por mais gols que marcassem, jamais conquistaram o coração da torcida. No primeiro mau resultado, na primeira sequência ruim, era em seu lombo que caíam as cobranças mais pesadas. É o caso de Baltasar (1983, artilheiro que fazia gols com a mesma facilidade com que os desperdiçava), Edmar (1983/84, atacante de gol fácil e gênio complicado), Nilson (1993, goleador frio e lento), Leandro Machado (1999-2001, atacante de pouca técnica e irregular), Tuta (2000, técnica tosca e pouco espírito de luta) e recentemente Deivid (2010-12, também irregular e tido como jogador de pouca vibração, dado a perder gols incríveis).

Outros já contavam com uma maior simpatia do torcedor, o que não lhes assegurou o sucesso pleno. Um caso emblemático é o de Obina, que chegou em 2005, viveu altos e baixos, ganhou status de xodó, marcou gols importantes mas, a rigor, sua saída em 2009 não foi muito lamentada. O paraguaio Ramirez (2005-06) também ganhou de imediato o carinho do torcedor ao marcar gols cruciais para a fuga do rebaixamento, mas não resistiu à precária estrutura do clube. Souza (2007-08) também desfrutou da simpatia do torcedor, especialmente no primeiro ano (esperto, soube se aproximar de algumas torcidas organizadas), quando marcou gols importantes. Ultimamente, Vágner Love tem desfrutado desse apoio, apesar da sua peculiar aptidão para desperdiçar gols, que vem desde sua primeira passagem, em 2010.

O Flamengo também, em momentos de dificuldades financeiras mais agudas, já precisou recorrer a atacantes lesionados ou com limitações físicas, que puderam contribuir com bem menos que seu potencial. Casagrande (1993, carismático e identificado com a torcida), Charles (1994, artilheiro do Estadual), Luisão (2006, gols importantes na Copa do Brasil) até surpreenderam, contribuindo para boas campanhas do time, algumas delas consumadas com títulos. Outros, como Borghi (1989) e Leandro Amaral (2010), praticamente não jogaram, fulminados por sérias lesões, que praticamente os impediram sequer de entrar em campo.

Em alguns desses momentos, também houve espaço para a contratação de apostas, jogadores pouco conhecidos que traziam em seu currículo a artilharia em outros campeonatos, normalmente atuando em clubes medianos. Nenhum desses chegou perto de vingar, casos de Marcus Vinícius (1984, trazido a peso de ouro do Atlético-MG, trocado por Vítor e Marinho, mas que mal atuou), Chiquinho (1985, afoito e estabanado), Dimba (2004-05, contratação tão polêmica que jamais daria certo), Kita (1986, trombador e sem técnica), Toto (1992, um Kita piorado), Josiel (atacante de técnica precária e gols periféricos) e agora Hernane.

Alguns chegaram perto. O torcedor chegou a suspirar, “agora vai”. Mas esses atacantes apenas viveram bons momentos iniciais, tiveram certo brilho, mas com o tempo acabaram sumindo. É o caso de Bujica (1989-90, o matador de marajás e tricolores), Reinaldo (1999-2001, jogador forte e rápido, parecia ter tudo para dar certo), Fernando Baiano (2003, ganhou até musiquinha nos primeiros jogos), Diogo (2004, início fulminante com cinco gols em cinco jogos, entre eles um Fla-Flu decisivo), Vandinho (2008, outro que ganhou musiquinha), Diego Maurício (2010-12, gols importantes, depois sucumbiu a outros interesses) e Jael (2011, começou como um reserva útil, depois nem isso).

Caso parecido é o de jogadores em quem se criou certa expectativa, que não suportaram a pressão de atuar pelo Flamengo, sendo engolidos pelo clube. Alguns só foram decolar suas carreiras quando saíram do rubro-negro, outros nem isso. Ronaldo Marques (1982-83, técnico e lento), Anselmo (1978-82, raçudo mas muito menos habilidoso que o restante do time), Vinícius (1983-86, também muito técnico mas lento demais), Magno (1993-94, prejudicado por algumas boas atuações que criaram falsa expectativa) e Jean (2002-05, atuar como atacante de ofício foi um grave erro) são exemplos emblemáticos.

Por fim, há os obscuros, jogadores que não demonstraram reunir a menor condição de atuar no Flamengo, que vieram como apostas e saíram apenas com o currículo engordado pela experiência de ostentar o Manto. Jasson, Diego Silva, Negreiros, Dill, Josafá, Marcelo, Whelliton, Borja, Val Baiano, Wanderley, Itamar, são alguns desses nomes (há outros), de passagem bastante esquecível.

 Sim, jogar pelo Flamengo não é tarefa para todos. Mas a camisa nove (ou sua função equivalente) parece ser, entre todas as onze peças sagradas do Manto, a mais desafiadora, a mais traiçoeira, a mais melíflua, a mais perigosa. Tal como uma esfomeada esfinge, possui mistérios e segredos por vezes indecifráveis.

E mesmo os poucos eleitos que a domam saem heróis malditos.

 Boa semana a todos.

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21 comentários em “Alfarrábios do Melo

  1. Beleza de post meu caro Melo. Mas ficou faltando jogadores como o Claudio Adao, Dionisio, os irmaos Cesar, Caio Cambalhota e Luizinho, Dario, Nei, Ademar Pantera e outros que tambem jogaram no Flamengo e poderiam estar incluidos ai nessa sua lista meu caro Melo…

  2. Oportuníssimo o assunto do Post, Mello. Eu estava até pensando em escrever sobre isso.

    Acho que, no caso do Love, há um problema de má fase mas, na minha opinião, a culpa principal é do treinador. Aliás, penso que quase tudo que não funciona no time é culpa do treinador.

    O Love tem suas limitações, mas tem uma característica que o diferencia: chuta de qualquer posição e com muito perigo. A menos que tenha que fazer um esforço extra para chegar ao gol, por exemplo bancando o pivô e tendo que começar a jogada que, invariavelmente, vem num passe mal feito, quando não uma bola isolada pela defesa.

    Uma transição bem feita entre defesa e ataque ( falta qualidade no meio de campo e eficiência no passe ) com deslocamentos de jogadores pelas pontas e até inversões de posições no comando do ataque, fariam o Love chegar mais para a finalização e aí, tenho certeza, o aproveitamento dele seria infinitamente melhor.

    Vamos acabar deixando mais um goleador sair, sem aproveitar todo o potencial dele em proveito do Flamengo.

    • Aliás, cabe um adendo ao meu comentário: o Dorival peca pela indefinição. Acho que é seu principal problema. Estabelecer os jogadores titulares definitivamente e colocá-los em campo sempre seria altamente recomendável. Dois volantes marcadores sempre, escolhendo os dois melhores entre Caceres, Airton, Muralha e Amaral seria obrigatório. E definir uma dupla TITULAR de armadores, procurando os que mais equilibrem a capacidade de sair rápido com bom passe Na frente seria sempre o Love, nunca como pivô, e mais um jogador de deslocamento e velocidade ( que falta faz o Drogbinha dos primiros jogos ).

      • Concordo integralmente com o que vc diz meu caro Nelson Bata. Alias venho batendo nessa tecla ja umas doze rodadas atras. E parece que nao tem ninguem la na Gavea que possa chegar bem na surdina e falar isso pro Dorival…

  3. Bebeto não era atacante de ofício, mas sim o meio-de-campo. Começou como falso-ponta, ora pela esquerda, ora pela direita, até assumir a camisa 10. Com a volta do Zico, custou a achar uma função, até que o Carlinhos “inventou-o” como camisa 9, e achou seu melhor papel.Seu estilio era parecido com o do Nilmar.
    Após a Era Zico, os artilheiros do Flamengo foram Romário (204 gols), Sávio (84), Renato Abreu (63), Gaúcho e Petkovic (57), Nélio (55), Edílson (51) e Obina (50).

  4. Roberto, eu tinha que parar em um ponto, o critério foi listar os que eu vi jogar ou acompanhei mais de perto (1980 pra cá). Agora, desses daí a maioria também teve passagem turbulenta.

    Simões, é fato isso aí do Bebeto. Aliás, quando o Zico voltou (em 1985), o Tita (que ainda jogava no Flamengo) voltou a ser o falso ponta, e o Bebeto (que estava bem como o “falso 7”) ficou boiando. Aí saiu o Tita mas veio o Sócrates, tentaram dar chance ao Popoca e o Bebeto viveu uma fase ruim, sem se fixar em nenhum lugar.

    Aliás, quando ele passou a jogar com a 9 em 87, já começava a ser contestado e as vaias a ele já vinham sendo mais frequentes (inclusive o gol contra o Atl-MG no Maracanã foi num momento de vaia pesada a ele).

    De qualquer forma, no final da passagem dele ele passou a ser o comandante de ataque efetivo do time (mesmo revezando com o Renato), por isso entrou nessa lista. Diferente do Sávio, por exemplo, que atuou como segundo atacante (na maior parte do tempo).

  5. Vou voltar a falar de jogadores que o Flamengo poderia trazer para 2013:

    – zagueiro Manoel do Atletico PR;
    – zagueiro Kleber da Ponte Preta;
    – volante Deivid do Atletico PR;
    – volante Amaral do Goias;
    – lateral ala direita Cicinho da Ponte Preta;
    – lateral ala esquerda Joao Paulo da Ponte Preta;
    – camisa 10 Nikao da Ponte Preta;
    – meia atacante Gabriel do Bahia;
    – meia atacante Lucca do Criciuma;
    – meia atacante Luan da Ponte Preta.

    Por enquanto to falando somente de jogadores que eu ja vi atuar e de times considerados de menor expressao…

    No fim do ano tem que ir embora muitos jogadores desse atual elenco do Flamengo.

  6. Bem, sobre jogadores pra vir não tenho muito o que opinar (esse Gabriel do Bahia é bom jogador, sim). Mas dos que estão no elenco creio que dá para rascunhar alguma coisa, tipo:

    Goleiros: Felipe voltou a se firmar. Manteria os dois;
    Lateral-direita: não renovar com LM, contratar o WS, testar o L.Antonio como opção;
    Zagueiros: manter Renato Silva, Gonzalez e Frauches, negociar Wellinton, trazer um quarto nome, se possível para ser titular;
    Lateral-esquerda: negociar os dois, contratar um jogador de bom nível e uma aposta pro banco. Preferencialmente laterais que saibam marcar;
    Volantes: dispensar Maldonado e Airton (esse no meio do ano), manter Amaral e Caceres, efetivar o Muralha, manter Renato por UM ANO, tentar negociar Ibson com o mundo árabe;
    Meias: Manter Cléber Santana (não tem outro jeito), dar mais jogo a Adryan e Mattheus, trazer um nome para encorpar o elenco, não renovar com Bottinelli;
    Atacantes: Manter Vágner Love e Nixon, dispensar Liedson, negociar Hernane, trazer um atacante de velocidade e um homem de área;

    É um rascunho, devo ter me esquecido de alguém rs.

    • O zagueiro a que vc se refere nao é Renato Santos…

      Entao nas lacunas que vc deixou em aberto podem entrar esse jogadores por mim citados. Tem o Cicinho lateral ala direito da Ponte Preta, tem o Joao Paulo lateral-ala esquerdo tambem a Ponte Preta, tem ainda os zagueiros Kleber da Ponte Preta e o Manoel do Atletico PR, os volantes Deivid do Atletico PR e Amaral do Goias, o camisa 10 Nikao da Ponte Preta (pras mim seria a melhor contratação) e mais os meias atacantes Gabriel do Bahia, Lucca do Criciuma e Luan da Ponte Preta…

      O elenco ficaria mais ou menos assim:

      – goleiros: Felipe, Paulo Victor e Cesar;
      – zagueiros: Renato Santos, Gonzalez, Frauches, Manoel e Kleber;
      – laterais: Cicinho, Wellington Silva, Joao Paulo e mais um a ser contratado;
      – meio campo: Amaral, Caceres, Muralha, Luis Antonio, Renato Abreu, Amaral do Goias, Deivid do Atletico PR, Wellington Bruno, Mattheus, Nikao, Cleber Santana (nao tem outro jeito);
      – Vagner Love, Adryan, Nixon, Thomas, Gabriel, Lucca e Luan.

      O resto pode mandar embora, vender, emprestar, trocar…

  7. Beleza de post Melo, bem oportuno.

    Acho que o problema do love é que ele fica muito isolado, culpa do treinador.

    E realmente o Flamengo não dá sorte com atacante, inúmeras vezes trouxeram artilheiros de campeonato que quando chegaram aqui pouco ou nada fizeram.

    O Flamengo sempre valorizou mais o setor de meio campo do que ataque, o 10 de ofício não pode faltar e a torcida cobra pesado.

  8. Melo,

    excelente texto. Queria acresentar alguns jogadores a sua lista, como: Caio em 1999, que entrava no segundo tempo decidia e Lê, 1999 que era uma grande promessa e sumiu por problemas individuais.

  9. Em respeito à sempre fantástica coluna do Melo (que subiu mais tarde), hoje a caradepáustica Calúnia do Rúbio Negrão irá ao ar às 20h 30min,

    Peço calma e paciência aos co-comentaristas. Sem quebra-quebra, por favor.

  10. ôo Mello como você me esquece o velho dimba!?

  11. Belo texto do Melo como sempre relembrando os bons e maus tempos.Os melhores matadores que vi jogar,em ordem cronologica,foram Doval,,Nunes,Bebeto,Romario e Adriano.Ainda vi bons matadores como Claudio Adao,Edmar,Gaucho e Luizao;O pior foi Luizinho Tombo.Nunca houve na historia do Flamengo, matador que mais perdeu gols como Luzinho Tombo.E olha que tinha Zico,Tadeu e Geraldo como meias!!!
    Gostei da lista de reforços do Melo e o Roberto mas o Presidente que assumir em 2013 tem que trazer 2 reforços de peso para o Meio e ataque.O resto sera dispensar os medalhoes com idade avançada e compor o elenco com reforços revelaçoes.Junior cesar e Alex Silva poderiam voltar tb ou trocaria por outros bons jogadores.
    Daria ate o Cariocao para o Adriano emagrecer e colocava os garotos para jogar principalmente na taça guanabara enquanto parte do elenco faria uma Pre temporada prolongada.Isso se chama planejamento mas teriamos que ter os refoços antes da Pre temporada tb.

  12. Ótima coluna Melo!
    Estou com saudades de um jogadir folclórico no elenco… assim como sinto falta de meias e zagueiros.

  13. Melo, vc não acredita que há uma certa cultura futebolística no Flamengo que desfavorece o camisa 9 clássico?

    Não sei, mas me parece que o estilo de jogo ensinado na base, e que acaba se reproduzindo no profissional, é mais visando o toque de bola. E um centroavante nato atua mais como “empurrador de bola”. Ou seja, talvez esta seja uma posição em que a força e a objetividade prevaleçam em detrimento da técnica e isso no Flamengo vai de encontro à cultura de jogo do clube.

    O que acha?

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