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Alfarrábios do Melo

 1985.

 É bonito ver a Gávea em festa. E a sede flamenga engalana-se de balões, fogos, faixas e povo, lago de convergência de uma corredeira que vem do Galeão, uma torrente em preto e vermelho que engolfa o mais novo ídolo, desde já semideus. Alegre, a Nação dá suas carinhosas boas-vindas ao Doutor Sócrates.

Não interessa a madrugada, não importam os inconvenientes trâmites burocráticos que atrasam o encontro, não releva nesse momento nem mesmo a desnecessidade da contratação (Zico acabou de ser repatriado e os jovens Bebeto e Gilmar estão prontos para receber suas chances e explodir. O elenco tem problemas maiores no comando do ataque), mais encarada como uma preciosa jogada de marketing (os estádios andam vazios, é preciso enchê-los, o Flamengo está começando a ver de volta as históricas dificuldades financeiras). Agora, o Doutor é nosso, e precisa ser amado, acariciado, idolatrado. Afinal, está no Flamengo.

Mesmo Zico, manquitolando e ainda tentando se recuperar da patada recebida semanas antes, faz questão de ir ao aeroporto receber pessoalmente o craque que, mesmo cansado e visivelmente sonolento, esquece sua frieza habitual e não esconde a emoção. Voz embargada, apenas consegue agradecer o carinho e prometer alegrias. O sol já clareia quando seu cortejo segue em direção à enfeitada Gávea. A festa continua.

E logo vai acabar. Porque a partir dali, as estrelas passam a ser outras.

Alguns torcedores ditos organizados resolvem soltar fogos dentro do Túnel Rebouças. A estupidez ribomba em um carro de reportagem, que tenta identificar o grupo. Na chegada à Gávea, os repórteres são cercados e surrados por um bando de gorilas. Um cinegrafista tenta registrar a cena, também cai na porrada. Segue-se uma baderna, um sururu, gente caindo, equipamentos estilhaçando, sangue, feridos. Uma criança de quatro anos sofre escoriações e sai de ambulância. De imediato, o clima festivo se esvai, em definitivo, e a cerimônia tem seu final apressado. A diretoria promete uma ação enérgica, mas na prática pouco é feito.

Parece ser um presságio. Ou uma consequência?

Poucos dias depois, o Flamengo vai à Ilha do Governador, enfrentar a fraca Portuguesa e os perigosos ventos do bairro. Num jogo em que tudo dá errado, a equipe perde (0-1) e se vê em situação crítica na Taça Guanabara. Na verdade, o time não vai bem, ainda tem sérios problemas de equilíbrio na cobertura dos laterais, o meio-campo atua de forma ultrapassada e o atacante Chiquinho (artilheiro do Paulistão), contratado a peso de ouro, não emplacou. O treinador Joubert é fortemente contestado por seus métodos tidos como autoritários e o presidente George Helal anda enfraquecido politicamente, sofrendo com a pecha de “pé-frio”.

Mas nada justifica as cenas que se veem após o apito final no Luso-Brasileiro.

Insuflada por vários membros de torcidas organizadas, uma massa tenta rebentar o alambrado, uivando, berrando, xingando, atirando toda sorte de objetos, armados de paus e pedras. Alguns policiais conseguem evitar consequências mais graves, montando uma corajosa corrente que a princípio consegue conter os mais exaltados.

No entanto, alguns não parecem exaltados, parecem atiçar deliberadamente o caos.

Zico, que acompanhou a partida no estádio (ainda contundido) e está no gramado dando entrevista, é identificado por um bando. De imediato, começam os guinchos “filho da puta bichado, só quer saber de uísque e boates, volta pra Itália, inútil!”. Tentam pular o alambrado, novamente a polícia age e impede o pior. Vários torcedores comuns, indignados com as ofensas ao Galinho, partem pro bate-boca e são chamados de “puxa-saco”. A discussão vira porradaria, que quase se generaliza. Espantado, Zico sai escoltado de campo por 15 policiais, como a maioria dos jogadores flamengos e adversários.

Enquanto isso, nos vestiários, o Flamengo vai tentando lamber as feridas da derrota, seus jogadores tentam encontrar respostas, tensos, assustados, e ao tempo que vão buscando destrinchar a crise, irrompe uma figura hedionda aos trambolhões, a cabeça aberta numa poça vermelha e copiosa, aberta a pauladas. É um repórter, que “ousou” tentar reportar a selvageria no estádio. A ferida é assustadora, mas rapidamente estancada. Passa o susto, resta o horror, a desolação, a terra arrasada.

Certa comoção se observa nos dias seguintes. Alguns “líderes” de organizadas são suspensos, medidas “duras” e “enérgicas” prometem ser novamente tomadas, mas se esvaem ao tempo que o assunto esfria.

Um dos integrantes da comissão técnica flamenga parece, lucidamente, entender o que ocorre “esses caras de organizadas querem ser mais importantes que o Zico, que o Sócrates. Aí dá nisso.”

Vai passar o tempo, e alguns dos protagonistas do terror de setembro seguirão fazendo carreira, galgando espaços no clube. Ser mais importante que os artistas da bola não irá mais lhes bastar.

Agora, a prioridade será comandar o próprio Flamengo.

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15 comentários em “Alfarrábios do Melo

  1. É meu caro Melo ta dificil a gente comentar por aqui. Nao aparece ninguem para falar com a gente e ate pra nao concordar com a nossa opiniao. Vejo vcs batalhando toda semana ao colocar suas colunas em dia aqui no Blog mas infelizmente o pessoal sumiu mesmo e parece que foi pra sempre…

    Parabens mais uma vez por contar um pouco mais da vida do Mengao e esse seu relato mostra que as TOs deixaram de existir para o bem quando da saida do Jaime de Carvalho com a sua Charanga…

    Hoje temos esse tal de Capitao Leo mandando e desmandando no Flamengo, um tal de Peruano tentando ser Presidente (ainda bem que seu nome foi defenestrado) e devem ter muitos outros desse nivel la dentro da Gavea nesse mandato de Dona Paty…

    E por falar em Dona Paty parece que ela se aliou ao tal entao opositor Marcos Braz e a nossa oposicao em vez de se juntar num nome so continua ai cada um por si o que so vai facilitar ainda mais a vitoria (reeelicao) da moça que nadou, nadou, nadou e nao morreu na praia…

  2. Exatamente essa categoria de gente como Capitão Léo que ganhou poderes no clube.

  3. Boa coluna Melo! Relembrar é viver!

    Quanto às eleições na Gávea, eu vejo um quadro favorável ao Wallim. Caso não haja jogo sujo contra ele esta semana e nem roubalheira nnas urnas, ele vence apertado, mas vence.

  4. Vi poucos jogos do Nautico mas se fosse sugerir alguem seria o lateral Douglas e o meio campo Elicarlos que ja jogou no Cruzeiro. Agora quem vem tambem fazendo um otimo campeonato é o atacante Kieza que o Tiago fala muito nele…..

  5. Alias o proximo jogo do Flamengo é contra o Nauticio la no Recife. Sr. Dorivaldo agora é que eu quero ver se o senhor é tecnico de verdade ou nao (entende do riscado). Tera quase todos os jogadores a disposicao portanto pode armar o time de forma equilibrada e trazer de la do Recife pelo menos um ponto. Jogo muito encardido para o Flamengo…

    • Se fosse ele, armaria o time para vencer esse jogo. E depois, colocava a molecada para jogar os demais jogos, tendo em vista que o rebaixamento já seria passado.

      Com essa atitude ele veria quem, da base, ele pode aproveitar para o ano que vem. Porque já sabemos queo trio tortura (Léo Morto, Ibsono e Pelé 11) não servem mais para nada.

    • Roberto, passamos a manhã inteira discutindo sobre estádio lá no Buteco.

      Na minha opinião, um estádio na Gávea seria o plano B ideal caso a gente não conseguisse de maneira alguma arrendar o Maracanã.

  6. Melo, sem querer ser repetitivo, meus parabéns.

  7. esses “causos” são muito legais, muitas vezes contam mais da historia que a propria historia. well done Melo!!

    então o Galinho ja foi perseguido?
    chamado de bixado, e etc…?
    q coisa, os corneteiros ja existiam, achei que faziam parte da historia recente.

    esse ano muito me interessa, foi quando o Flamengo começou a fazer sentido pra mim. Minha primeira vez em contato com a magnetica na arquibancada foi no carioca de 85, Fla 1×1 flu. Gol do Leandro aos 46 do segundo tempo. Vi o maracanã explodir algumas vezes, mas igual a esse dia nunca mais.

  8. http://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2012/11/zinho-confirma-saida-de-adriano-do-fla-fica-inviavel-permanencia.html

    So posso dizer que é lamentavel um ser humano que nasceu com o dom de jogar bola, ganhar muito dinheiro e nao ter com que se preocupar com quase nada depois do fim de sua carreira, fazer isso que esse moco de nome Adriano faz…

    Quanto de nos gostariamos de ter nascido com esse dom. Quanto de nos gostariamoss de ser idolo de um clube como o Flamengo mas ele nao percebe isso…

    Diante das dificuldades que todos nos temos na vida esse ser humano se mostra fraco demais e comeca a cometer inumeras besteiras que so prejudicam a ele. Deus deu o dom pra ele mas ele nao soube aproveitar…

    Vá se cuidar meu rapaz antes que sua conta acabe zerando e ai voce vai ver quem sao seus verdadeiros amigos. Voce ainda tem tempo para dar uma reviravolta em sua vida mas agora depende unica e exclusivamente de vc. Voce quer isso ou nao (parece que nao né rapaz)…

  9. E agora que terminou o caso Adriano espero que o Zinho chame o Sr.Dorivaldo num canto e mostre pra ele como se escala um time de verdade. Se todos os outros times do campeonato jogam com dois volantes de oficio por que o Flamengo so joga com um e ainda mais com um sistema defensivo tao horroroso que o Flamengo tem. Esta é so a primeira questao que o Zinho tem que levantar com o Dorivaldo…

  10. Boa noite a todos.

    Interessante como desde aqueles tempos tinham trogloditas que ao invés de criticar a diretoria na época pelo mau momento do clube, direcionava as críticas para quem era o menos culpado na história.

    Hoje em dia vemos escroques, tal como aqueles que ofenderam o Zico, estar presente de forma ativa na política do Flamengo.

    Ótima coluna Melo.

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