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Alfarrábios do Melo

Zico.

É um domingo pós-carnavalesco. A cidade em festa com o campeonato da Mangueira, cantarola “tem xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé”. Eu, simpatizante da Beija-Flor desde sempre, ando aos muxoxos com o título perdido por conta de uma nota maldosa de um jurado recalcado, mas reconheço o grande desfile da verde-rosa. Está em boas mãos, e além disso, a cidade fica mais alegre quando a Mangueira ganha.

E o Rio de Janeiro alegre sempre traz bons presságios.

Aboleto-me ao lado de meu pai, radinho ao ouvido. Vai começar a temporada, e logo de cara um Fla-Flu, poucas semanas depois do jogaço que parou a cidade, do épico que terminou com o sobrenatural gol do Leandro.

Mas dessa vez Zico vai jogar.

O Fluminense cheio de marra, tricampeão, cronista apressado decretando o início de um “império de mil anos”, jogadores medianos (peças de um bom conjunto) elevados a craques, alguns fazendo beicinho por terem sido esquecidos por Telê, que já chamou seu elenco para a Copa.

Mas hoje tem Zico.

Meu pai sempre cético desconfia, não sei se aguenta, deveriam botá-lo num joguinho mais mole antes. Vou concordando enquanto espero tendo o jogo, os argumentos são racionais e lógicos, mas lá no meu simples âmago de garoto eu sinto que esse não será um jogo qualquer. Zico foi xingado, humilhado, a cidade inteira desconfia, uns chamam-no bichado, outros pecham-lhe comedorme. As ofensas mais pesadas partem de gente do Flamengo, dirigente e torcedor “organizado”. Calado e desarmado, Zico apenas absorve, assimila, canaliza sua raiva para as lancinantes sessões de terapia e musculação que tentam proteger seu joelho de papel.

Não, hoje vai acontecer alguma coisa. Ninguém vai sair ileso desta tarde.

O torcedor comum, aquele que não precisa de mesada para apoiar ou vaiar, acredita. E mesmo na ressaca carnavalesca, lota o Maracanã. O radinho grita os ruídos do estádio, salta, berra, e mesmo sem entender sinto-me pleno de esperança e da surda certeza da vitória, inebriado pela doce e triunfal atmosfera emanada por um Flamengo vencedor. Toda a expectativa se esvai, agora sei que o show vai começar.

E tem início o espetáculo.

E o radinho começa a me contar uma linda história, passa a narrar como um único jogador está pairando sobre todos os outros cem mil mortais, felizes testemunhas de uma obra divina, um quadro de luxuriantes e vívidas cores sendo pintado com os pés mágicos de Zico. Estarrecidamente alegre, apenas me deixo levar pelos superlativos adjetivos que escorrem de meu boquirroto companheiro, que já desistiu de narrar o jogo, agora apenas elogia, exalta, canta servis hinos de lealdade ao eterno rei.

Agora apenas fecho os olhos e apenas imagino um monstro driblando todo mundo, metendo bolas doces, dando passe de bicicleta, chutando bola na gaveta, fazendo coisas paradisíacas e só possíveis em meu inocente e mágico mundo juvenil. As loas do radinho agora são a trilha de fundo para meu lírico sonho desperto.

Os gols brotam, um, dois, quatro. O super-mega-master-tricampeão é colocado em seu lugar de coadjuvante, sua bichada torcida vai deixando o estádio de fininho, elegante em seu lombo dolorido, e o radinho canta o verde-rosa xinxim e acarajé em cem mil vozes. Andrade, Adílio, Jorginho, Leandro, Mozer, Bebeto e o estreante Sócrates são reduzidos a mera claquete, elenco de apoio do astro maior. Zico, em noventa minutos, destrói uma hegemonia, um tricampeonato e decreta que o Rio de Janeiro volta ao seu dono de direito. E o jogo acaba, e o estádio dança, e abro os olhos e contemplo o sorriso feliz e orgulhoso de meu pai.

Ansioso, bebo o néctar da goleada enquanto aguardo o teipe da tevê. E agora a cores, vejo que a exibição de Zico é algo que transcende qualquer fantasia, qualquer sonho exuberante que já vivera. Anestesiado, percebo que a realidade pode, sim, ser mais fantástica do que os devaneios da nossa imaginação. E me contemplo lambuzado de felicidade.

Nenhum pio, nenhuma declaração bombástica, nenhuma dedicatória aos desafetos. Após a obra-prima, a resposta de Zico são lágrimas, o úmido choro dos vencedores. Depois de protagonizar talvez a maior exibição individual da história do Maracanã, o titã apenas chora, toma seu banho e vai para casa. Também está feliz, como qualquer torcedor. Afinal, seu Flamengo ganhou de quatro.

* * *

Zico é um desses grandes homens que aprendemos a estudar cedo, nos livros de história. Por ele já se compuseram canções, ergueram estátuas, rodaram filmes. E grandes homens são capazes, enquanto viverem, de grandes obras. E grandes empreendimentos sempre irão incomodar mentes e corpos compromissados com a mediocridade, as questões comezinhas, os queromeus que corroem instituições.

Por isso, não é estranho que sua imagem seja assacada por porcos e bactérias. Séquitos de áulicos entregam-se a uma ofensiva e ávida bajulação, buscando receber mais algumas cotas de ração ou algum caco de medalhinha por bons serviços. E cospem impropérios, camuflam verdades, inventam factóides, tentam calar cantos e coros, queimar livros e bandeiras, esconder a história. Porque o projeto de um Flamengo forte e exercendo sua colossal vocação para a grandeza é incompatível com as aspirações das hordas e corjas de vermes que se locupletam secularmente de sua grandeza. Nada pelo Flamengo, tudo do Flamengo.

 Uma boa semana a todos.

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24 comentários em “Alfarrábios do Melo

  1. Legal, legal! Engraçado, eu tenho a convicção de que os tricolores “odeiam” e tentam fazer pouco do Zico do que vascainos ou botafoguenses. Por que será? Já vi vascaíno falar que o Zico era foda. Já vi vascaíno tirar foto com o Galinho.

    • Pablo, o Fluminense foi o time que mais sofreu com o Zico. Foi o que mais levou gol, o mais goleado etc. Aliás, a última derrota do Zico pros caras foi em junho de 81. Inclusive há um Fla-Flu em que um torcedor tricolete entra em campo desesperado pedindo pro Flamengo parar de meter gol (já tava 3-0 no primeiro tempo ainda).

      Zico foi o principal disseminador da evidência que o Fluminense é apenas mais um arco-íris do Rio. As tricoletes não suportam isso rs.

      • Pois é, essa escrita a partir de 1981 é demais. Inclusive no vídeo do último jogo dele (aquela goleada) que rola no you tube o repórter cita esse dado. Com o Zico, o Flamengo não perdeu a partir de 81. Meu sogro é tricolete e Meu Deus… como ele tem birra com o Zico.

    • Como já foi dito no post anterior, só falta prender algumas pessoas que passeiam garbosamente pelos 4 cantos da Gávea (não vou ficar em cima do muro e vou citar os nomes dos indivíduos: Seu Capitão Léo e Seu Peruano!!)

  2. Pena que é tudo especulação, mas Ibson e Ué por Montillo seria bom demais para ser verdade.

    http://www.foxsports.com.br/blogs/view/74539-flamengo-traca-planos-para-ter-renato-augusto-e-montillo

  3. Absolutamente sensacional esse texto. Ode ao Melo. Ode ao Zico. Ode ao Flamengo.

  4. Fantástico Melo, mais um pra variar.

    Tenho ódio vendo todo aquele amontoado de extrume judiando e tentando manchar a imagem do Galinho dentro do clube que ele honrosa e majestosamente defendeu durante anos.

    Mas isso vai acabar, dia 3 a eleição da Chapa Azul dará uma bela porrada nesses safados, diplomaticamnete nas urnas á claro.

  5. Sensacional, Melo!
    Esse é um jogo que eu gostaria de poder ver de novo, mas nunca encontrei…

  6. duas coisas sobre esse jogo:

    1. o gol de falta que o Zico fez é dessas coisas que vc vê 50 vezes e não se cansa. É das mais perfeitas cobranças que já vi (e só o do Petkovic se iguala a isso, mas aquele do Pet tem um que de sorte, ele não era um cobrador tão perfeito quanto o Zico).

    2. Para vc ver que mesmo naquele tempo, com aqueles jogadores, ainda havia estupidez. O penalti cometido pelo Andrade no final do primeiro tempo é de fazer o cara ser substituído na hora e ainda levar cascudo no vestiário…

  7. além do post sensacional, o Melo ainda colocou aí em cima a notícia sobre a operação da polícia contra a torcida organizada Jovem Fla. Claro que chamar esse bando de criminosos de “torcida” é apenas força de hábito, eles só se preocupam com eles mesmos, foda-se o Flamengo. Mas o que me chamou a atenção na reportagem é a comprovação daquilo que todo mundo sabe: como esses marginais têm “patrocínio” do clube. Ou alguém acha que aquelas camisas oficiais de jogo, ainda com etiqueta, com o logo da Unicef, foram parar lá na sede deles por coincidência?

  8. Foi meu primeiro jogo no Maracanã, eu tinha 8 anos de idade. Me lembro perguntar ao meu pai se o Zico era super-herói.

  9. Max, não seja por isso.

    Taí o jogo, completinho.

  10. Ramon, sobre possível retorno ao Corinthians: ‘Vontade é ficar no Fla’
    Lateral-esquerdo está emprestado ao Rubro-Negro até o fim do ano que vem, mas Timão pode antecipar retorno: ‘Não depende só de mim’, diz
    http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/2012/11/ramon-sobre-possivel-retorno-ao-corinthians-vontade-e-ficar-no-fla.html

    Volta Ramon, volta para os gambás.

  11. Percebam como tem mudado a postura da “imprensa” nos últimos dias em relação a Omissa…
    como exemplo, destaco o seguinte trecho do Site Teoria do Jogos:
    “Feita a exceção, continua espantosa a posição ocupada pelo Flamengo – há dois anos detentor dos piores números do Rio. A péssima gestão Patrícia Amorim faz com que o clube já some quase um ano e meio sem patrocinador máster (somando meses de 2011 com todo o exercício 2012). Para piorar, um dos parceiros (Triunfo Logística) é de propriedade de Jorge Rodrigues, candidato a presidente nas eleições do próximo dia 3 de dezembro. Trata-se de uma situação vedada pelo estatuto, mas que contou com vistas grossas dos conselhos do clube. Como o candidato supostamente compõe a oposição, seria interesse da atual mandatária a pulverização dos votos entre as inúmeras chapas contrárias à sua.

  12. TozzaCAM foi fantastica essa noite. Fiquei impressionado com essa Cláudio.

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