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Alfarrábios do Melo

1999

Saudações flamengas a todos.

1999. Após meses e meses, enfim o reencontro.

O Rio de Janeiro acorda transpirando futebol nessa tépida manhã de abril. Logo mais, a Taça Guanabara será decidida, encerrando a primeira etapa de um Campeonato Estadual que volta a mostrar-se festivo e relevante após anos de obscuridade. No entanto, um clima de suspense, algo tenso, permeia a expectativa da festa iminente. Porque mais do que um mero turno regional, está em jogo todo um protagonismo.

Após arrastar-se em uma penúria que durou longos seis anos (com esparsos bons momentos, como a conquista invicta de 1996 e pouco mais que isso), o Flamengo enfim parece ter montado um time competitivo. O eterno Carlinhos está de volta, e dispondo de jogadores limitados mas aguerridos como Pimentel, Fabão, Jorginho, Iranildo, Rodrigo Mendes, Caio e Leandro Machado, consegue montar um conjunto eficiente, ancorado no talento de Athirson, na experiência do goleiro Clemer, no voluntarismo de Beto, Luís Alberto e Fábio Baiano e principalmente na fase exuberante de Romário, que ainda não se esqueceu do corte de 1998 e anda jogando muito, sem criar muitos problemas. Aliás, apenas em um semestre o Baixinho anotou os seus três gols mais bonitos pelo Flamengo (Fluminense, Corinthians e Ponte Preta), verdadeiras antologias à arte.

Com essa equipe o Flamengo realiza campanha irretocável, vencendo todos os jogos, salvo um empate em um Fla-Flu. Mais que isso, traz de volta a Nação para seu lado, e qualquer joguinho contra Madureira é uma festa para o Maracanã cheio (certo que uma promoção com ingressos ajuda, mas o torcedor está contente com o time). Mesmo assim a crônica, exibindo sua permanente má vontade, não considera o rubro-negro um postulante real ao título, e com pitadas de ironia e sarcasmo não crê que Fabão & Cia irão fazer frente ao poderoso Vasco.

De fato, o Vasco vive um momento fantástico, um dos melhores de sua história. Após o Brasileiro de 1997 o clube da Colina conquistou a Libertadores, selando o passaporte para os inéditos feitos de vice-campeão das Américas e vice-campeão mundial. No início do ano, o cruzmaltino ganhou o Torneio Rio-São Paulo, fazendo seu torcedor acreditar, talvez ingenuamente, que está em curso uma hegemonia semelhante à do Flamengo dos anos 80. De qualquer forma, o Vasco tem diante de si abertas algumas portas antes fechadas, uma exposição inédita e uma boa vontade midiática sem precedentes. Apesar dos vários vice-campeonatos, sua marca começa a ser perigosamente associada a vitórias e à renovação, uma espécie de passagem de bastão, de nova ordem.

O seu time, dirigido pelo interminável Antônio Lopes, é de qualidade, dispõe de uma base que atua junto há algum tempo. Mauro Galvão, Juninho, Felipe, Odvan, Carlos Germano e Luizão são os principais nomes. Ainda há Edmundo, que deve estrear na Taça Rio. Inebriado com tantos títulos e vices, seu dirigente maior, Eurico Miranda, proclama no início do ano que o Estadual já tem dono, “a briga vai ser pelo vice.”

Chega a hora do jogo. O Maracanã ferve, uma panela com 100 mil pessoas berra, solta fogos, exibe suas cores, entoa seus cânticos. Contrariando a expectativa de alguns desavisados, a massa flamenga é maioria no estádio, e desde cedo se mostra mais ruidosa, mais confiante, mais pronta para a festa. Alguns cronistas ainda expõem certa incredulidade, ignorando que o Flamengo, quando consuma e renova a histórica aliança com sua Nação, ignora adversário, esquece problemas, não conhece obstáculos. Sabe-se superior e vencedor.

Os times entram em campo, o árbitro Cláudio Cerdeira vai trilar o apito. Não está iniciando apenas uma decisão.

É o capítulo inicial de uma trilogia.

* * *

Alguns dias mais tarde, um dos ilustres convidados àquela festa do Maracanã, que assistiu ao jogo das tribunas, deu uma entrevista a um desses jornais. Instado a tecer suas considerações sobre a espetacular vitória do Flamengo, não poupou elogios ao time e à torcida, mas além das tradicionais palavras elogiosas, frisou algo que chamou a atenção.

“O Vasco até tinha uma equipe mais pronta, com jogadores mais técnicos. Mas o Flamengo, e nisso incluo o time e a torcida, tinha mais fome. O Flamengo tinha uma fome, uma raiva, uma gana que desde o primeiro minuto me fizeram ter a certeza de que seria o vencedor.”

Uma boa semana a todos.

 

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9 comentários em “Alfarrábios do Melo

  1. Parabéns Melo por mais uma coluna, recordar é reviver.
    Estou desconfiado que este ano, mesmo com um time sem grandes nomes, conseguiremos algumas conquistas.

  2. Agora é oficial, e anunciado no site oficial do clube primeiro:

    http://flamengo.com.br/site/noticia/detalhe/16944/elias-e-o-novo-reforco-do-flamengo

    Essa nova diretoria está empolgando 🙂

  3. Elias:
    Carreira: (Seleção Brasileira), Palmeiras, Náutico, São Bento, Juventus, Ponte Preta, Corinthians, Atlético de Madrid (ESP) e Sporting (POR).

    Bastante rodado para 27 anos. Não sei precisamos de MAIS um volante, já zagueiro, laterais, meio de campo e atacante é onde vejo que temos a maiores carências.

  4. A continuar assim em breve teremos um “The End” por aqui.

  5. Como sempre, excelente texto! Parabéns, Melo! É sempre um prazer reviver bons momentos do Flamengo.

  6. Muito bom, Melo! No aguardo da trilogia!

  7. Melo, quem era o ilustre convidado?

  8. Estive na final da taça Rio e o clima não era bom. Chagada do Animal, vitória deles, volta olímpica dos caras da natação… mas no domingo seguinte Rodrigo Mendes salvou a pátria. Carlinhos foi pra mim o maior técnico rubronegro que eu conheci!

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