2 Comentários

Zico 60 anos – SESSENTA ANOS E UM INSTANTE

Imaginem por um segundo o drama maior de um jogador de futebol. Não são as lesões, nem as concentrações, os domingos longe da família ou as cobranças impiedosas da torcida e da crônica. Não: pior do que tudo isso somado é a condenação a ser recordado e julgado, pelo resto dos tempos, por um intervalo exíguo — uns vinte anos, no máximo — de uma vida que a essa altura não terá sequer alcançado a plenitude. O sujeito pendura as chuteiras e ainda terá filhos, netos e bisnetos, será bom ou mau cidadão na medida de sua formação e de seu caráter, construirá como cada um de nós seus projetos e sonhos e um belo dia, quando se dá conta, percebe que viveu mais, depois da aposentadoria, do que aquele instante de sua passagem terrena pelo qual continuam a medi-lo e julgá-lo.

No mais das vezes, o cidadão que resta depois das chuteiras penduradas é pouco mais que um estorvo à imagem do ídolo que gostaríamos de guardar. Na medida em que envelhece, fica gordo e careca como cada um de nós, torna-se um lembrete cruel do tempo a denunciar a mentira daquela imagem de onipotência e imortalidade que preferíamos ver eternizada. Outras vezes o atleta exemplar se revelará mesquinho e rancoroso, na vida civil, e também aí a passagem do tempo contribui e muito para erodir o pedestal em que ousamos colocar, décadas atrás, o rapazinho mal saído da adolescência.

Hoje, Zico completa sessenta anos, e 40 milhões de rubro-negros prestamos o tributo devido a nosso ídolo maior. Outros muitos, entre os homens e mulheres de boa vontade que também há, em menor número, na coalizão arco-íris, esquecem por um momento que se trata justamente do Zico do Flamengo para recordar o gênio e magia do craque desde então nunca igualado nestas latitudes. Farão, é claro, os reparos que vêm fazendo há vinte, vinte e cinco anos, que absolutamente não vêm ao caso (o pênalti contra a França, a Copa do Mundo que lhe escapou), mas que são o artifício mental que lhes permite hoje, também a eles, prestar tributo sem culpa ao maior ídolo que este país já produziu.

Se isso acontece, e se os sessenta anos de Zico têm essa transcendência que ultrapassa as barreiras da paixão clubística, é porque o Zico conseguiu a façanha de escapar indene aos estragos que o tempo impõe à idolatria. Lá se vão vinte e três anos desde que, uma noite de fevereiro, ele desceu pela última vez o velho túnel do Maraca aos gritos de “o Zico é o nosso Rei”, e o cidadão Arthur Antunes Coimbra, desde então, jamais tomou uma atitude que nos tenha feito contrastá-lo negativamente com o Zico de antes. Continuou, em seus atos e palavras, o sujeito simples que se constrangia diante de demonstrações exageradas de idolatria e foi sempre generoso (às vezes até demais) em seus juízos sobre os craques que tentaram, em vão, ocupar o vazio que ele deixou no coração da torcida brasileira.

Às vezes, os mais novos que herdaram a idolatria de seus pais e avós espantam-se ao constatar que o Zico do videotape, o Zico das arrancadas infernais em linha reta que só terminavam com a bola na rede, é na verdade esse senhor tímido que só se solta mesmo na presença dos netos. Passado, no entanto, o instante de dúvida, terminam assimilando — vi isso em minha própria filha — a admiração inexcedível dos pais e avós pelo sujeito que, em tudo e por tudo, por seu profissionalismo, seriedade e hombridade, é a antítese dos craques efêmeros de hoje, de chuteira cor-de-rosa e cabelos tingidos, convencidos de que o mundo está condenado a aturar para sempre as extravagâncias de sua adolescência infinita.

Volto ao ponto inicial desta reflexão. Há pouco menos de um ano, quando nasceu meu primeiro filho homem, naturalmente batizado Arthur, me surpreendi ao receber um e-mail de ninguém menos que o Zico. Com aquela grandeza e humildade que nos desconcertam a todos, Sua Majestade me agradecia pela homenagem e fazia votos de que, quando crescer, o meu pequeno Arthur venha a gostar do nome que lhe dei. Não sei se lhe disse isso, na minha resposta emocionada, mas estou seguro de que a homenagem será apreciada na sua justa medida, quando meu filho puder entendê-la. É que não é apenas uma homenagem àquele instante da vida de um homem, àqueles vinte anos passageiros em que o Zico nos fez tocar o céu com as mãos. É um tributo ao homem que, nas décadas que se seguiram, não foi capaz de uma única palavra ou ato que diminuísse em um milímetro a admiração que sentimos por ele.

Pablo Cardoso, 3 de março de 2013

Anúncios

Sobre flamengonet

jornalista

2 comentários em “Zico 60 anos – SESSENTA ANOS E UM INSTANTE

  1. Zico no STF – Flamenguista, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, vai escrever um livro sobre o sessentão Zico. Fonte : http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/

  2. SOBRE O FIM DA GINÁSTICA E DO JUDÔ : no blog do Anselmo Gois,li que o BOLSA ATLETA é de R$ 11.400,00 por atleta.

    BOLSA ATLETA 1
    http://www.caixa.gov.br/Voce/social/beneficios/bolsa_atleta/index.asp
    BOLSA ATLETA 2
    http://www.esporte.gov.br/snear/bolsaAtleta/

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: