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Zico 60 anos – COM ZICO NO CORAÇÃO

* Por José Eustáquio Cardoso

“Não trocaria nenhum título do Flamengo por uma Copa do Mundo”.
“Eu nunca aceitei ser técnico de um clube brasileiro porque eu não posso jogar contra o Flamengo.”

A epígrafe encerra palavras de um rei, e estas, como consta da sentença popular, não voltam atrás e valem por si próprias, não necessitando nem de testes nem de provas. Um rei jogador, um rei torcedor, um rei amante da camisa que envergou, honrou e eternizou e da bandeira que viu tremular, tantas vezes por artes suas; um rei irmão de cada arquibaldo ou geraldino ou habitué das tribunas de honra; de cada rosto suado ou perfumado, de cada sorriso desfalcado de dentes, de cada bolso endinheirado, de cada um que sinta correr e latejar por veias e artérias a mesma paixão sua. Não é à toa que é rei: antes de ser um rei jogador, é o rei coroado e legitimado, mais que pelo amor de seus súditos, pelo amor a seus súditos; é o rei que a tais se faz igual, é o rei cujo coração pulsa e vibra no mesmo compasso dos corações que o amam. Não reveste a figura paternal que soem ter os reis, assim os reais como os da distante fantasia da infância, os de contos de fada; antes, é um rei irmão a suscitar e afagar a harmonia dos próprios sentimentos com os de cada um que o cultua e reverencia.
Com efeito, o primeiro grito de gol resultante da magia de seu virtuosismo brotava de sua própria garganta como fogo sagrado a lavrar quase simultaneamente de outras tochas, tudo como se estivesse, numa sonhada e ideal ubiquidade, no gramado e na arquibancada, na geral e nas cadeiras, no rádio e na televisão. Era de seu braço erguido em triunfo que emanava a alegria primeira a transmitir-se, como num arroubo que contagia, a cada um dos milhões de corações que com o dele sofriam e sorriam. O grito e o braço erguido eram muito, muitíssimo mais que a mera comemoração do gol do craque, era seu próprio coração a extravasar-se e derramar-se pela voz e pelo gesto. E era dele, nos insucessos, a tristeza de milhões, quantos mesmo? Quarenta? E dele era, nas vitórias, a felicidade de toda uma nação. Zico é um sonho palpado e vivido, o sonho que não se supunha realizável e não obstante se materializou. É um sonho que tem forma e figura de gente, cores e até número: é o sonho do menino simples de Quintino que imaginou vestir a 10 rubro-negra de seu ídolo, o discípulo a superar o mestre.
Zico não é apenas um rei craque, é um rei torcedor, o mais craque dos torcedores e dos reis, o mais rei entre craques e torcedores. Como não amar um torcedor assim, um craque assim, um rei assim? Como não amar a quem ama assim?
Eu, por mim, o amo desde que vi pela primeira vez, no distante ano de 1971, uma fotografia colorida de vermelho e preto de um certo garoto tímido que repontava e prometia. Eu sou do tempo do Santos de Pelé, quando devaneava e me perguntava se o meu Mengão haveria de ter um time como aquele, um craque como aquele. Pois no momento em que vi a tal fotografia, em outro devaneio que tomava forma e nome, vaticinei: é este. E o amo mais ainda desde um instante de uma remota tarde de domingo, quando vi meu filho, um pentelhinho de apenas um ano de idade, a pular e gritar “Zico, Zico, Mengo, Mengo!”, diante de um gol maravilhoso e bandeiras coloridas que se desfraldavam e agitavam na televisão e invadiam minha sala, meu coração e minha vida. E o amo ainda mais desde que meu outro pentelho, quero dizer, outro filho de igualmente tenra idade com o mesmo coraçãozinho a pulsar em vermelho e preto outra vez gritou seu nome. Pois Zico não nos enganou: mercê da miséria, traquinagens e mirabolâncias que fez pelo mundo com a bola e a tal camisa, regalou-nos com todos os títulos que sonhávamos e não tínhamos, todas as alegrias que imaginávamos tão distantes como o outro lado do mundo: como Tóquio, que por artes de mil antenas e satélites vimos quedar ante sua majestade, ante Sua Majestade, nosso rei.
“Não trocaria nenhum título do Flamengo por uma Copa do Mundo”, disse ele na entrevista alusiva a seus sessenta anos de vida e rubro-negritude, e era como se calasse de vez as vozes invejosas que o criticam apenas por não nos ter trazido aquele chamado caneco. – Que importa? – foi como se sentenciasse – O Flamengo é infinitamente mais importante que a Seleção Brasileira. – E não é? Por mim, não tenho a menor dúvida. Seria Zico Flamengo antes mesmo de ser brasileiro? Ele talvez não dissesse tanto, mas intimamente desconfio que sim. Como eu, sem embargo do amor a minha terra e a despeito do brilho de galos e raposas, sou Flamengo antes de ser mineiro. Aliás, antes mesmo de ser gente. Na barriga de minha mãe, antes mesmo de nascer, com efeito eu já cantava Flamengo até morrer. E quantas vezes não morri de puro encanto diante do Rei Zico? E quantas vezes de cada morte não rebrotei mais Flamengo ainda? Até morrer literalmente… com Zico no coração. Será que eu vou morrer de Zico?

Niterói, 3 de março de 2013

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Sobre flamengonet

jornalista

Um comentário em “Zico 60 anos – COM ZICO NO CORAÇÃO

  1. Absolutamente magistral o artigo do José Eustáquio, de rara sensibilidade, como convém a um rubro-negro que tem plena consciência da grandeza deste clube. Oxalá usemos este espaço relacionado ao brilhante artigo do José Eustáquio para discutir esta grandeza, e não para falar da escalação do Ibson ou do carro novo do Léo Moura.

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