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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.
 
Agora começo a escalar o meio-campo da (minha) equipe do Flamengo de todos os tempos, que já conta com 1.Garcia, 2.Leandro, 3.Domingos, 4.Píndaro, 5.Júnior e 10.Zico.
 
O meu dono da camisa 6 (muito usada por volantes flamengos, embora meu personagem tenha trajado a 5 em sua carreira) é um jogador que atuou por DEZ anos como titular do Flamengo, e sempre foi considerado uma das referências da equipe, mesmo em uma das mais difíceis épocas do clube. Conquistou títulos e o respeito de torcedores rubro-negros e adversários. Não é pouco.
 
O texto de hoje não é propriamente inédito (eu já havia publicado alguns anos atrás), mas eu acho que ficou tão bom que preferi resgatá-lo, por se adequar perfeitamente à proposta da série.
 
Boa leitura.
 
6 – CARLINHOS
 
1970. É véspera do jogão da Semifinal da Copa, entre Brasil e Uruguai. Ansiedade, expectativa, medo de 50, muita coisa passa pela cabeça de cada brasileiro. Mas, no meio desse turbilhão, uma partida amistosa é marcada para o Maracanã. Uma despedida. Um rito de passagem. 
 
Há seis meses, Carlinhos encerrou sua carreira de jogador de futebol. O calendário cada vez mais apertado somente lhe permite a justa despedida dos gramados num vácuo, durante o Mundial. Pouco importa, tanto melhor. Carlinhos sempre foi avesso a badalações, aos holofotes. O essencial é o reconhecimento, o gesto. 
 
Impossível deixar de se perder no meio de lembranças, impossível não recordar 1954, quando, ainda moleque, recebe as chuteiras de um ícone, um ídolo, o defensor Biguá, um dos jogadores mais queridos da história do Flamengo, que encerra sua carreira aos prantos, entregando àquele jovem promissor seu instrumento de trabalho. Um ritual que indica continuidade.
 
E Carlinhos mostra-se, desde cedo, à altura da responsabilidade que lhe é imposta. Sereno, sem jamais erguer a voz, conquista seu espaço com jeito, jogando bola, mostrando com os pés do que é capaz. Atua como médio (hoje volante), participando da saída de bola e fazendo a ligação com o ataque. Possui um domínio de bola desconcertante, seus pés parecem de veludo. Os passes, sempre precisos, seguem a cadência que as circunstâncias exigem. Flamengo satisfeito com o resultado, a bola corre indolente, preguiçosa, macia. Flamengo ansiando por um gol redentor, o jogo passa a ser cortante, vertical, feérico. Mas sempre harmônico, apurado, jamais apressado, nunca forçado. Como um violino, a alma de uma orquestra. 
 
Seguem as lembranças. Uma década como titular absoluto do Flamengo. Não é fácil ser titular do Flamengo. Muito menos durante 10 anos. E Carlinhos jamais como a principal estrela, o grande craque, o nome por quem se arrancam suspiros. Vê Dida, Henrique, Gerson, até Babá ocuparem-se do papel de xodós e ídolos. Mas, tire o Violino da equipe. Logo começa a bagunça, o caos, a pelada. Sem o Violino, a orquestra rubro-negra se torna um amontoado de panelas batendo.
 
Os títulos, as glórias. Carlinhos vive a alegria de ser rubro-negro em sua essência, erguendo taças e mais taças. O sofrido Carioca de 1963 no Fla-Flu do século, o surpreendente título de 1965, conquistado com uma equipe incrivelmente limitada, ou o Rio-São Paulo de 1961 abastecendo uma máquina de fazer gols, um Sul-Americano extraoficial em 1959, outro torneio continental em 1961. Mas, acima de todos esses troféus, angaria o respeito e a reverência do torcedor flamengo. 
 
A voz serena, suave, a incapacidade de tomar a bola através de carrinhos toscos. Desarmes furtivos, um punguista da bola. Raramente apela pra faltas, daí ter ganho o Belfort Duarte (nunca foi expulso). Líder nato, impõe-se pelo exemplo, pela postura sempre reta, a afabilidade, a capacidade de angariar respeito e amigos. 
 
Mas isso tudo agora é passado, são lembranças. Chega o dia da despedida, o momento em que o Violino oficialmente deixará os campos. Carlinhos veste traje de gala, o Manto Sagrado, calções brancos e meiões rubro-negros, fardamento que honrou durante mais de dez anos. Não, o Violino não jogará. Sua despedida será exatamente da mesma forma que seu início. Uma cerimônia de passagem de chuteiras. Continuidade.
 
E lá está o jovem herdeiro, a maior promessa das categorias de base. Um garoto muito bom de bola, personalidade forte, descendente de portugueses, família de craques, um tal Arthur. Mas é mirrado, franzino, talvez demais. Daí chamarem-no um arthurzico, ou Zico. Bem, de qualquer forma, se fizer metade da obra de Carlinhos estará de bom tamanho… 
 
E é ao Zico que Carlinhos entrega seu valioso par de chuteiras. Aplausos calorosos, algumas lágrimas até. Nome gritado. Não, o templo Maracanã não está lotado. Melhor assim. Intimista. Como o Violino gosta. 
 
O jogo? O Flamengo de Yustrich, atual campeão da Taça Guanabara, derrota uma Seleção Carioca, 1-0. Mas isso agora não importa muito. Carlinhos, o Violino, entra definitivamente na história rubro-negra e vai curtir a nova etapa de sua vida, seus novos desafios, dessa vez longe dos gramados. Ao que tudo indica. 
 
Pois o que nem Carlinhos, nem a Nação Rubro-Negra ainda sabem, é que essa longa e vitoriosa trajetória ainda está apenas no início…

“Carlinhos, após largar as chuteiras, permaneceu ligado ao Flamengo, onde trabalhou como treinador nas divisões de base. Em 1983 foi alçado ao posto de treinador do time principal pela primeira vez, em uma curta experiência. Quatro anos depois, novamente assumiu o cargo de treinador, iniciando uma trajetória amplamente vitoriosa.

Um dos maiores vencedores da história do Flamengo, seja como jogador ou como treinador, Carlinhos foi recentemente homenageado com um busto na Gávea.

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