6 Comentários

Identidade e péla-saquismo

* Por Oswaldo Tinhorão

O Brasil vive tempos débeis-mentais, e o sujeito que duvide da justeza desta constatação só precisava prestar atenção à histeriazinha que se gerou em torno do jogo entre Barcelona e Bayern de Munique, na última quarta-feira. Por todo o lado, garotos brasileiros tomavam partido de um e de outro, davam gritinhos aviadados por um ou por outro, discutiam nos foros virtuais em defesa de um ou de outro, como se de dois times brasileiros se tratasse. Dir-se-á que gostam de futebol, e que o amante do jogo tinha diante de si os dois melhores times do mundo. Precisamente: o ser humano normal não aprecia, padece o futebol, tolera os noventa minutos do jogo porque ali, com as cores que herdou de seu pai e de seu avô, se disputa algo que vai muito além do mérito esportivo. Fosse pela beleza do jogo, qualquer de nós abriria mão de bom grado de assistir a marmanjos dando botinadas e acompanhava, com muito melhor proveito, o vôlei feminino (sobretudo quando joga a Itália).

A todo o mundo que me venha falar de Messi, Ibrahimovic ou Schweinsteiger, minha resposta sempre foi a mesma: eu não gosto de futebol, meu negócio é Flamengo. Quando muito, padeço jogos alheios apenas para torcer pela desgraça do Vasco, do Fluminense, du Galu e, sobretudo, de  qualquer time paulista que entrar em campo em qualquer lugar do planeta. Mas também aí não me afasto um milímetro de minha essência: para o rubro-negro, torcer contra essa corja também é questão de identidade.

Falo em identidade e chego ao âmago da questão: eu respeito o torcedor do Barcelona que sente arrepios à menção de Kubala ou Rexach, ou que enxerga na camisa blaugrana alguma essência profunda da catalanidade e canta o tots al camp ainda hoje como quem brande a língua pátria como um escudo. Também assim o torcedor do Boca que passa oitenta minutos cantando murgas melancólicas, porque o ritmo, que sobreviveu na Bombonera enquanto definhava nas ruas, é parte de uma certa identidade da zona sul de Buenos Aires, que encontra no Boca a sua melhor expressão. Em contrapartida, há uma década que tenho ímpetos homicidas sempre que ouço a torcida do Grêmio macaqueando não só as murgas, que jamais lhe falarão à alma, mas também o sotaque estrangeiro sem o qual se atropelaria a métrica. E há quatro, cinco anos que tenho vontade de pagar o esporro devido a cada pai de criança que circula por aí com camisetinhas do Barcelona ou do Real Madrid (excetuado, neste último caso, se tiver nas costas o número 7 e o nome Raúl).

E o Flamengo com isso, estará perguntando-se o leitor. Muito simples: nosso clube e nossa torcida também não são imunes a uma época débil-mental. A quem duvida, sugiro procurar a meia dúzia de casos clínicos que, ultimamente, faz de conta que é barra-brava com bombos e pratos na Superior Leste do Engenhão, abafando os gritos legítimos da torcida e torrando os bagos de todo o mundo ao redor. Fora desses casos extremos, reparem nas letras das musiquinhas que se passaram a cantar, de 2007 para cá, com declarações de amor e manifestações desentimento que são a antítese do modo carioca de torcer (o Júnior, recordem, confessa que ficava arrepiado mesmo quando a torcida cantava, com toda a simplicidade, que eu gosto de você, e com essa declaração estava dito tudo). Não há, senhores, felicidade possível na língua dos outros, e na nossa língua nós sempre comemoramos em samba.

Fiz esse desabafo para chegar ao inacreditável press release da comunicação do clube, datada da última terça-feira. Na nota está tudo errado, da forma à substância. Na substância, avisam ao público incréu que o Flamengo montou um time de futebol americano (!), em parceria com um tal Imperadores (?). Na forma, explicam que os referidos Imperadores, ao fechar com o Flamengo, encerraram a parceria “com outro clube de soccer do Rio de Janeiro” (!!).

Dois comentários me ocorrem, sobre a notícia e a nota infelizes. Em primeiro lugar, e nisso creio contar com o apoio de todos os leitores, soccer de cu é rola. Em segundo lugar, e por aqui me despeço, observo que há limites, ou tem de havê-los, nesse esforço bem vindo de colocar o verdadeiro inimigo ― o abominável Curíntia Paulista ― em seu devido lugar. À custa de suplantar o Curíntia, não se pode querer emulá-lo em tudo, sob o risco de comprometermos a nossa identidade. Já não digo assistir, mas jogar futebol americano, no Brasil, é de uma babaquice tamanha que só se concebe no paulista, e nenhuma instituição desportiva, por seu código genético, está tão bem equipada para expressar essa babaquice quanto o Curíntia Paulista.  O Flamengo tem, sim, de continuar trabalhando no sapatinho para botar a casa em ordem, voltar a ser hegemônico e pôr fim definitivamente a quantas polêmicas absurdas a imprensa do Arraial inventar sobre o tamanho das duas torcidas. Mas só será plenamente exitoso se for fiel a si próprio, se estiver consciente de que o Flamengo é uma bandeira na qual se enxergam e se identificam todos os brasileiros orgulhosos de ser o que são e absolutamente intolerantes com o péla-saquismo.

Anúncios

Sobre flamengonet

jornalista

6 comentários em “Identidade e péla-saquismo

  1. Concordo com quase tudo! Estamos cheios de babaquices….Que tal o ralouim?? Pode existir algo mais idiota que o ralouim? Ou os filmes e as séries sobre vampiros?
    E torcer por time de basquete americano? Ou – como vc bem aborda! – torcer pelo Barcelona ou Real Madrid?

    Mas não devemos esquecer que o Nelson Rodrigues já havia detectado essa doença há muitos anos…Mas parece que agora virou uma epidemia!

    Só não concordo com torcer contra…..Acho torcer contra meio sudaca.
    Mas não vai ser por isso que vou deixar de apreciar o seu “trabalho”…….hehehe

  2. concordo plenamente, eu tenho um irmão de 8 anos que assiste todos os jogos de futebol que passam na tv, ele até tem os times de fora q ele gosta por causa de alguns jogadores, mas como o rubro negrismo lá em casa é forte (com esse assunto o meu pai não brinca) eu encaro isso como coisa de criança. mas realmente me dá raiva nego postando no facebook coisas do tipo “meu barça” etc. acho que alguns times tem história e tradição q devem ser admiradas e respeitadas, mas dai a vc querer torcer por um time de outro país é ridículo mesmo

  3. Muito bom.
    Tem a ver com o tal complexo de viralatas que o próprio Nelson Rodrigues já denunciava, como bem lembra o Lucas.
    E isso de viver citando explicitamente o Curintia como referência também tem me incomodado. Ok, nas internas os caras até podem ser o alvo a ser detonado, mas não precisa ficar explanando. Dá munição pra maluco ficar enchendo o saco.

  4. Não vi a tal nota sobre o time de Futebol Americano. Alguém tem o link?

  5. Melo, meu caro, ao menos eles estão mirando no alvo certo, em vez de preocupar-se com a merda do carioquinha. Tem dez anos que eu venho sustentando que Vasco, Fluminense é o passado, e o inimigo agora é esse. Não só por causa desses KOs que a imprensa do Arraial inventa, mas porque Flamengo e Curíntia encarnam duas filosofias inconciliáveis. Curíntia é time de quem assiste ao Silvio Santos, compra disco do Gusttavo Lima e dança Michel Teló aviadadamente (como se houvesse outra maneira), sai de férias para onde for — Ubatuba ou Salvador — e, lá chegando, se cerca das mesmas pessoinhas com as quais interagem o ano todo. E começam as frases com “eintão”.

    Amyr: a nota você encontra aqui: http://touchdown.net/2013/04/30/flamengo-fecha-parceria-e-lanca-seu-time-de-futebol-americano-para-participar-do-ttd-v/

  6. Concordo pela metade.

    Essa história de doutrinar as crianças hoje em dia é mais complicado que na época de nossos pais. Hoje a criançada tem acesso a todo tipo de informação e pode assistir aos jogos de qualquer parte do mundo apenas ligando a TV.

    Como convencer o moleque a optar por assistir um horroroso Flamengo e Audax, no inacreditável estádio do Bangu, em vez de assistir ao verdadeiro espetáculo que é um jogo do Barcelona no Camp Nou, com gramados, uniformes impecáveis e jogadas incríveis de Messis, Iniestas e que tais?

    Pra gente é fácil, nós amamos o Mengão e trocamos tudo pra vê-lo. A criançada não tem motivo qualquer pra amar o Flamengo, a não ser por ordem repressora do pai e da mãe. Que motivo…

    A culpa disso é do próprio Flamengo e do futebol brasileiro em geral, que há muito tempo não se preocupa com a qualidade do jogo, do espetáculo. Os campos e estádios são horríveis, os jogadores não se preocupam em não fazer faltas, ou em não simular faltas. Técnicos ignorantes só mandam bater e cruzar bola na área. na boa, é dose pra mamute assistir qualquer jogo do futebol brasileiro. É muito ruim. Chegou a um nível tal que QUALQUER jogo de QUALQUER campeonato estrangeiro é melhor. E não estou exagerando. Passa turco, grego, belga e etc. na ESPN. Assistam e comprovem, é muito melhor. Os jogos têm cinco, dez faltas, no máximo. A bola rola fácil, o gramado é liso. Os técnicos e jogadores não ficam falando tudo que é palavrão contra o juiz o tempo todo, captados pelo microfone. Os times tentam, mesmo que sem sucesso, jogar na base do toque. Aqui é só chutão pra área e salve-se quem puder.

    Estamos nos preocupando muito com as ações da diretoria no sentido de reerguer financeiramente o Flamengo. O que é justo. Mas precisamos cobrar também um projeto sobre a formação de jogadores pelas nossas divisões de base. Há anos a molecada sobe sem saber passar, chutar, sem os fundamentos mais básicos. Só sabem correr, correr e correr. De cabeça baixa, sempre.

    Quando o Mengão estiver ganhando, jogando BEM, arrebentando, garanto que a molecada não vai estar nem aí para o Barcelona ou o Bayern…

    SRN

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: