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Alfarrábios do Melo

Saudações flamengas a todos.

Já um pouco saturado das inúmeras informações e contra-informações que espocam aqui e ali, acerca da provável contratação do filho do espevitado Mauro Martins, eis que me deparo com algumas notas dando conta que o Flamengo acaba de confirmar a contratação dos jogadores Paulinho e Diego Silva, que se destacaram no simpático XV de Piracicaba, ou Nhô Quim, para os mais atentos.

Não sendo o bastante, o clube, ao que parece, anda próximo de contratar o Bruninho, tido como revelação do altaneiro Atlético de Sorocaba, e há rumores de que o lateral Luís Ricardo, que participou da campanha de acesso da Portuguesa à primeira divisão paulista, teria sido procurado para compor o elenco.

São reforços à primeira vista nada animadores, visto tratar-se de um agrupamentos de célebres e notórios desconhecidos, jogadores sem o estofo de atuar em um clube centenário e vitorioso como o Flamengo, que com isso consagra uma perigosa política de contratação de jogadores baratos e inexpressivos, e assim não vislumbrará no horizonte nada mais do que mais um estressante prélio contra os pantanosos e lodosos recônditos subterrâneos do futebol brasileiro.

Pode ser.

No entanto, alguns fatos precisam ser apostos em perspectiva. O primeiro deles é o mais disseminado, objeto de conhecimento público. Em português seco, o clube está quebrado. Há dívidas e mais dívidas, e é chegado o momento da instituição finalmente lidar de forma definitiva com seu montante. Não dá mais para adiar a viabilização do Flamengo, sob pena de nos tornarmos um Vasco com mais carisma. Dívida administrada significa responsabilidade nos gastos, operação de acordo com o que permite a realidade atual. Evidentemente, isso vai no nervo do orçamento com contratações e salários.

Outra ponderação é a histórica incapacidade do Flamengo lidar com contratações vultosas. Um passatempo recorrente é o de escalar equipes galáticas, como Fillol, Josimar, Luís Pereira, André Cruz e Branco, Vampeta, Palhinha, Sócrates e Alex, Borghi e Ronaldinho Gaúcho, todos esses jogadores trazidos a alto soldo e que, na melhor das hipóteses, renderam abaixo da expectativa gerada. Atuar no Flamengo exige altíssima capacidade de resistir às suas peculiaridades, às inúmeras portas que o clube abre e fecha, às loas e apupos que jorram caudalosos e inconstantes, por vezes nos mesmos jogos. Ademais, normalmente a contratação desses jogadores estelares não costuma vir acompanhada de nenhum recurso de planejamento mais sofisticado do que o famoso “pega a camisa e resolve”. Equipes recentemente vitoriosas demonstram que, mais do que um ou mais craques, é fundamental dispor de um conjunto que funcione.

Por último, o próprio aspecto de aposta em que se reveste esse tipo de contratação. Jogadores desconhecidos e de qualidade, trazidos e mantidos a baixíssimo custo, poderão, na pior das hipóteses, seguir incógnitos e serem repassados ou devolvidos sem prejuízo maior do que uma amarga lembrança. Mas, quando o trabalho de prospecção é criterioso e uma parte, mesmo pequena, desses jogadores prospera, o retorno é robustamente turbinado, seja por critérios técnicos (títulos, conquistas), seja por caráter financeiro (transferências). Não é difícil listar alguns exemplos dentro do Flamengo, como Lico e Marinho, trazidos respectivamente de Joinville e Londrina, ou Aílton (vindo do Olaria), ou Uidemar (Goiás) e Charles Guerreiro (Guarani), ou mesmo os recentes Aírton (Nova Iguaçu) e Willians (Santo André), somente para citar alguns que compuseram equipes campeãs de títulos em âmbito, no mínimo, nacional.

Então, monta logo um time com onze baratinhos e vamos lá.

Não é tão fácil. Equipes vencedoras são construídas a partir da montagem de um elenco com mentalidade competitiva, e um dos seus principais requisitos é a presença de jogadores experientes (cascudos, como se fala), já afeitos à tensão dos grandes eventos, que estarão ali justamente para funcionarem como referência e “reserva moral”, ou seja, são o pilar de sustentação para que os jovens talentosos consigam luzir sem as cobranças ainda desproporcionais ao seu incipiente caminho.

Daí a necessidade deste Flamengo, dentro das suas deficiências e de sua realidade, identificar no mercado peças prontas, capazes de agregar ganhos técnicos imediatos nos setores mais carentes do elenco, e se possível auxiliar os veteranos Leonardo Moura e Renato Abreu (que, goste-se ou não, são as referências do elenco atual) na tarefa de conduzir os jovens que ora começam a surgir, já prontos para o início de sua caminhada, e os atletas forasteiros trazidos a título de aposta. Trazer jogadores não midiáticos mas efetivos para o encorpamento do elenco é, a meu ver, a tônica que se faz desejável no momento atual.

Finalizo insistindo, mais uma vez, que é preciso dar ao tempo a tranquilidade necessária para a conclusão de sua obra. Um (não tão) belo dia, o Flamengo foi goleado pelo Goiás, levou de cinco no Serra Dourada. Os jornais do dia seguinte foram na jugular, falavam abertamente em rebaixamento, em catástrofe, em elenco sem condições de representar o Flamengo, que aquele grupo que juntava jovens e desconhecidos era um bando de jogadores que seria jogado na lata do lixo da história do clube.

Um ano depois, foram campeões brasileiros.

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2 comentários em “Alfarrábios do Melo

  1. Melo, acho importante que o Flamengo comece a concorrer com os grandes de SP e de outras praças pelos valores revelados no campeonato paulista, que é o mais competitivo do país. Não sei dizer se os caras vão vingar ou não, mas um elenco saudável financeiramente deve ser formado por estrelas e por alguns carregadores de piano. Os times do interior paulista tradicionalmente revelam bons nomes para o futebol brasileiro.

  2. Juan, eu concordo que o Flamengo precisa ir atrás de opções mais baratas. Só acho que isso não pode ser a tônica nem o pilar de montagem do elenco, mas um complemento.

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