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Alfarrábios do Melo

 Saudações flamengas a todos,

É inegável que, decorridos quase cinco meses, um novo Flamengo está nascendo, alicerçado em novos paradigmas de gestão e responsabilidade administrativa, que têm permeado todos os setores do clube e fundamentado um trabalho de verdadeira reconstrução institucional.

Mas qual a cara desse novo Flamengo?

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Em seu livro “A Bola Não Entra Por Acaso”, que vou me permitir citar novamente, o dirigente Ferran Soriano expõe que um dos pilares de reerguimento do Barcelona foi a definição de um mote, um lema, que passou a sintetizar toda a identidade do clube. E assim nasceu o “Més que un club”, cuja ideia é traduzir o Barcelona como a expressão cultural de toda uma cidade, todo um povo, muito além do simples caráter futebolístico.

Cá no Brasil, alguns clubes já buscaram imprimir uma espécie de “marca pessoal”, como o São Paulo, que se orgulha de sua notória organização e estrutura, ou o Santos de sua fábrica de garotos, ou mesmo o Vasco da Era Eurico, que cresceu como um virulento contraponto ao Flamengo, ou o recente “Grêmio Imortal”, acentuando o caráter guerreiro de sua torcida.

Mas não é simples. Há o decantado caso do Corinthians, que busca exaltar o tamanho e a força de sua torcida, e frequentemente lança campanhas buscando imprimir a marca de um clube pretensamente apoiado pela maior e melhor massa fanática do país. Abstraindo as controvérsias criadas por campanhas de marketing travestidas por pesquisas emanadas de institutos obscuros, muitos deles mantendo ligações mal explicadas com a própria diretoria do clube paulistano, ainda se percebe certa falta de correspondência entre o que apregoam os reclames pró-”Timão” e determinadas ações da sua diretoria, afugentando seu torcedor de massa e relegando o “maloqueiro” a um plano secundário, em detrimento de uma facção de maior poder aquisitivo.

 E o Flamengo?

 A ideia de se deter um pouco mais na questão corintiana não foi casual, uma vez que determinadas atitudes e movimentações da nova diretoria apontam para uma abordagem no seu relacionamento com o torcedor similar ao que praticam os gestores do Parque São Jorge. É bem verdade que o Flamengo apresenta um delicado quadro patrimonial, imerso em dívidas e mais dívidas, e que a necessidade de faturamento imediato, a curto prazo, transcende determinadas questões. No entanto, soa preocupante a guinada em direção à parcela mais abonada de sua torcida, no que concerne à questão do programa sócio-torcedor e a alguns ensaios de reposicionamento agressivo nos preços de ingressos, por exemplo. Sem falar no consumo de produtos licenciados, muitos deles a preços proibitivos para a maior parcela da torcida. São ações bem sucedidas, que seguirão dando resultados e irrigando os áridos cofres do clube. Mas há um preço.

O que seria o Flamengo? Qual a identidade do Flamengo, então?

Não se pretende, nesse curto espaço, cravar adjetivos e atributos que acabariam simplificando um tema tão complexo. No entanto, cumpre entender e perceber que o Flamengo construiu sua história aglutinando os anseios e as paixões de todo um país, que o Flamengo está presente na rotina do carioca, do nordestino, do sulista, do amazonense, do brasiliense, do empresário de sucesso, do pau-de-arara, do alto magistrado, do pedinte, da puta e do sacerdote. Que o Flamengo não é o ajuntamento de craques trazidos a soldo galáctico, que a estrela do Flamengo é feita em casa, que o futebol bonito no Flamengo tem que andar junto da fome de grama, que o Flamengo, quando se transfunde e se amalgama com seu torcedor, torna-se apenas um, e aí sua camisa, seu Manto, se reveste de um peso insuportável para qualquer adversário. Que, por isso tudo e por muito mais, o Flamengo é a mais relevante instituição esportiva do país. Justamente por ser o próprio país.

Por isso, e aqui concluo, mais do que sanear financeiramente o clube, mais do que resgatar a sua credibilidade institucional, mais do que tornar novamente o Flamengo respeitado e temido, mais do que levar a termo essas tarefas árduas e hercúleas, a nova diretoria está diante de um desafio ainda mais descomunal, ainda mais agressivo. Entender e exprimir o Flamengo, e com isso trazê-lo de volta para sua incomparável Nação.

Tendo êxito, o mundo será o limite.

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4 comentários em “Alfarrábios do Melo

  1. Melo,
    estivessemos em um teatro, eu lhe aplaudiria de pé.

  2. Futebol fora de campo, é uma empresa, é business, é marketing!

  3. Perfeito.

    essa questão é muito pertinente. o assunto tem q ser discutido a exaustão. o Flamengo não pode seguir os passos da mentira corintiana.

  4. Eu concordaria com vc há uns 20 anos atrás…

    Mas tudo muda!

    Tentar manter uma cultura inviável levará o Flamengo à extinção….Veja o que aconteceu ao América/RJ.

    Infelizmente, o futebol deixou de ser um esporte para se tornar um negócio. Quando um treinador de futebol ganha mais do que 1.000 salários mínimos por mês, quando um Beckham da vida ganha R$100 milhões por ano, não há mais como manter o ideal que vc defende.

    Imagino que vc poderá responder que, seguir na presente estrada irá levar à extinção do Flamengo pelo qual vc e eu começamos a torcer. E eu responderia que pior ainda seria a extinção completa do clube…

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